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Diógenes e o homem invisível

Professor Caverna convida Leonardo Pereira Montejo dissertar sobre os ensinamentos de Diógenes.

6 min de leitura
Diógenes e o homem invisível

Por Leonardo Pereira Montejo.

Vestir-se de todos é o mesmo que estar nu. Que o conhecimento é uma disciplina de teor construtivo; é dizer: depende de muitos outros rascunhos e pensamentos para vir a culminar em alguma coisa; se atrever a arriscar um horizonte, não é nada novo.

É possível imaginar as idéias como tecidos celulares, dentro das idéias sempre hão de existir mais idéias, em uma costura infinita.

Acredito que de comum entendimento seja que toda inteligência desenvolvida é uma disciplina permeável; permeável no sentido de ser atravessada por muitos corredores, por muitas meditações: o conhecimento deveria se propor a ser permissivo e dinâmico sempre, como um universo de bolso.

A inteligência, um universo de bolso.

Uma poética.

A verdade é que grande parte do acervo de conhecimento que a nós é cedido; qualquer repertório ou disciplina do conhecimento que você possa imaginar eventualmente já deve ter sido pensado; por mais promissor, autêntico e revolucionário que ele prometa ser.

Nada é mais voraz que o conhecimento.

O conhecimento nunca é inteiramente nosso, mas também nunca inteiramente do outro; é uma construção dialógica permanente em que todas as partes se comprometem umas com as outras; como livros com pontes entre.

O acervo de repertórios como uma biblioteca megalomaníaca em que se apanham os livros e se acrescentam a eles alguma rubrica, alguma poeira por descuido que seja, inventando uma outra origem, uma nova margem. O original como cara-metade do igual; como sobrancelha revirada do mesmo, como o mesmo, só em outro idioma.

Não me entendam mal, entretanto, em nenhum momento disse que o conhecimento não ser de todo original seja uma coisa ruim. A meu ver, é graças a toda essa bagagem histórica que nos antecede, todo esse conhecimento sedimentado através do tempo; independente do pensador, das circunstâncias épocais, das metodologias, até mesmo das teorias, que agora impulsionados por eles, podemos ir mais além.

Há sempre um degrau à espreita.

Acredito fielmente que foi assim que caminhamos até o agora; no entanto, foi com o surgimento desses últimos tempos que tenho tido uma impressão molesta; a impressão de que todos estão iguais.

O “todos” como extinção do si.

Entende-se que a maturidade do conhecimento, ou o aprofundamento deste, depende muito da interação entre as distintas escolas de conhecimento de cada humano, de cada ideário e de cada respectiva filosofia, mas esse processo se interrompe ou assim se espera, quando todos são iguais.

Se todos são, falar com todos é falar com um.

O original morre.

Nasce um homem invisível.

Uma expressão muito conhecida ilustra fenomenalmente bem essa estranha impressão: “cultura de massa”, que como o próprio nome sugere é um grupo de práticas, valores e etiquetas da gente para a gente.

Aqui é onde nasce a invisibilidade.

O que muitos acabam por não perceber com esse fenômeno que é a cultura de massa é que ele é um dos principais motores – se não o protagonista – de uma espécie de promoção de uma falsa igualdade.

Na cultura de massa, subscrita nela, há uma espécie de ditadura invisível que propõe um sentimento comunitário maior que o próprio individual, como muitos regimes fascistas também propunham; um totalitarismo sútil, que exemplifica também a publicidade e a propaganda.

A cultura de massa fez nada se não levar o “plural” ao pináculo da cadeia alimentar social, derrubando a base inerente que são as pessoas; de um modo gozador, vende-se a idéia de um pertencimento; de um acolhimento em compensação a renúncia da liberdade de ser.

O calor como mercadoria, e o humano como empréstimo.

Leia-se aqui o grande paradoxo.
É através da cultura de massa que as pessoas são levadas a utilizar os mesmos vestidos, as mesmas sapatilhas, os mesmos chapéus; a ler os mesmos livros e a pensar as mesmas coisas, propositalmente. Propositalmente, um propósito vendido, oferecido ainda como diferença de mercado.

O propósito não necessariamente há de ser esse, mas normalmente é o de pertencer; e é nesse desconsolo de pertencer que um aceita ser morto, aceita matar-se a si mesmo ou a se deixar matar.

O homem, de bom grado, aceita matar-se.

Essa cultura massificante que se propõe a converter todos em iguais, criado a partir de convenções humanas danosas, acaba por eliminar ou enfraquecer um dos maiores motores da humanidade, e do conhecimento como um todo: a pessoa; a perspectiva e a escola que cada um carrega.

Se todos pensam igual, só há eternidade.

A cultura de massa à muito grosso modo é como universalizar um único corpo e inventar nisso uma falsa individualidade; é como sugerir um coletivo tão vigoroso que todos acabam ficando sozinhos.

É fazer de ninguém alguém.

Precursor, o ilustre filósofo e pensador do período helenístico Diógenes, também conhecido como Diógenes de Sinope, previu e muito alegou que as convenções humanas eram ou poderiam vir ainda a ser danosas.

Inocentado pelo tempo, Diógenes inventou uma represália a esse modo de pensar sócio-normativo em que se encaixam grande parte dessas morais sociais humanas e outras etiquetas curiosas.

Através dessa corrente ideológica que é o cinismo, cujo ideal era o cachorro – por este ser um animal desviado de quaisquer tipos de convênio – Diógenes encontrou uma maneira de preservar seu pensar. Diógenes nos propôs o cachorro como idéia, enquanto a cultura de massa nos faz cachorro através da idéia.

Não estou aqui a sugerir que todos sejam cínicos, mas me parece um bom pedido que de vez em quando as pessoas se deem ao trabalho de fazer uma manutenção em seus sensos críticos, que criem corpo.

A identidade é sempre um corpo a se trabalhar, e enquanto estivermos vivos podemos pensar e ter o bel prazer de ser: que não façamos de nossas roupas – as roupas dos outros – o nosso nome.

Nome andamos a ganhar uma vez só, que não nos livremos dele antes da hora: que se possam ter cada vez mais nomes a nascer, se possível com liberdades e dúvidas que andamos a precisar, como linguagem se abrindo.

Iremos sempre precisar de novas origens, de novas sugestões, e de novas instituições de pensamento para que assim o conhecimento não seja uma corda atirada a um chão que se inventa.

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    Professor Caverna

    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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