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O cemitério dos paradigmas

Professor Caverna convida Marcos Gabriel Tagueta para reletir como as ideias mudam.

6 min de leitura
O cemitério dos paradigmas

Por Marcos Gabriel Tagueta

Convém contar isto com calma, meus amigos, porque a pressa é vício de quem tem certezas, e eu, confesso desde já, não tenho nenhuma que dure mais que um capítulo.

Há uma vocação humana, antiga como a vaidade e mais discreta que ela, de transformar hipóteses em dogmas. Nasce a ideia modesta, timidíssima, quase pedindo desculpas por existir; e não param de alimentá-la até que um dia ela acorda gigante, e então já não se lembra de ter sido pequena. É como certas famílias que enriquecem e esquecem da pequena bolha de onde vieram. Não é hipocrisia, é apenas memória curta, ou vício, aliás, que todos cultivamos com esmero.

Chamam-se conceitos. Apresentam-se com a discrição de quem não quer incomodar: “sou apenas uma definição, um mapa, nada além disso”. E o leitor, ingênuo, acredita. Eu também acreditei, num tempo em que ainda acreditava em muitas coisas, tempo que, devo confessar, durou mais do que eu gostaria de admitir em público.

Basta, porém, um pouco de prestígio acadêmico, algumas citações bem distribuídas, duas ou três gerações de repetição sem exame, e o modesto conceito casa-se com a Autoridade, herda-lhe o nome e os móveis, e passa a exigir reverência dos que outrora lhe davam esmola de atenção. Ninguém mais pergunta se ele corresponde ao mundo. Pergunta-se, com a fisionomia grave de quem trata de coisa séria, se o mundo tem a fineza de corresponder a ele.

A isto chamamos conhecimento, e eu não vejo razão para contradizer o costume; contradizer costumes dá trabalho, e o trabalho, todos sabemos, é para os outros e dever ser realizado diariamente para render frutos.

Paradigma, dir-se-ia, é um conceito que envelheceu com certa elegância. Isso, porque teve tempo, e o tempo, esse grande advogado sem escrúpulos, defende qualquer causa desde que bem aceita por maiorias. O paradigma esquece que nasceu da dúvida; passa a crer-se eterno, como certo tio-avô que jurava ter nascido sabendo de tudo. E, note-se, ninguém o desmentia, por educação, ou por preguiça, que muitas vezes são a mesma coisa com nomes diferentes.

Todo paradigma, uma vez instalado, arranja logo seu clero. Não são sacerdotes convencionais por figura de linguagem. São pelo que vejo na observação direta dos costumes, fiéis por opção. Fiscalizam-se as palavras dos outros com um rigor que jamais se aplica às próprias; condenam-se heresias metodológicas com o mesmo fervor com que se condenava, antigamente, o adultério alheio. Mas sempre o alheio. E quando o fato, importuno, bate à porta e desmente a teoria, a casa inteira se movimenta para receber o fato e para explicar que ele ainda não foi corretamente compreendido. A realidade, coitada, vive sempre em dívida com as teorias que deveriam servi-la.

Chama-se isto ciência, quando é feito por nós. Chama-se superstição, quando é feito pelos vizinhos. Confesso que nunca entendi bem a diferença, exceto que a nossa superstição sempre tem notas de rodapé e ciência nos faz avançar.

Mais insidiosas, contudo, são as concepções, que não moram nos livros, mas nos hábitos. Uma coisa pior, porque livro se fecha, hábito não. Ele se propaga, é copiado, reverenciado e ostentado. São como certos óculos que se usam tanto que se esquece de estar usando; não vemos através deles, vemos com eles, e o mundo, generosamente, vai-se ajustando à lente, para não desagradar quem a usa.

Cada século se crê o último degrau da escada, o ponto exato em que a espécie finalmente acertou o passo. E cada século seguinte olha para trás com aquele sorriso com meio pena, meio deboche, e que reservamos para os retratos antigos de família, com suas roupas que já nos parecem fantasias épicas.

Os modernos riram dos antigos.

Os de agora riem dos modernos.

Os que virão, decerto, já estão ensaiando o riso e economizando gargalhada, porque sabem que a vez deles também vai chegar.

Há, em cada presente, uma vaidade que se repete sem cansar: a de supor que, justamente agora, depois de tantos séculos de erro provado, a humanidade encontrou finalmente o modelo certo. É otimismo de bom gosto, devo dizer, e como todo bom gosto, dura pouco e custa caro a quem vem depois.

Talvez o único paradigma verdadeiramente universal seja este: a convicção, sempre renovada, de que desta vez estamos livres de paradigma algum. É a prisão mais bem decorada que já se inventou. Pois puseram-lhe cortinas, chamaram-na sala de visitas, e ninguém mais repara nas grades.

Os conceitos, no fim das contas, são mapas de viajantes cansados que já não tinham forças para seguir conferindo o terreno. Os paradigmas são esses mesmos mapas, transformados em cerca, com dono e escritura registrada. E as concepções. Ah, as concepções são as marcas de quem confundiu, com toda a boa-fé do mundo, o desenho com a terra, e ainda cobrou pedágio de quem quis atravessar.

Pensar, contudo, exige uma coragem teimosa e incômoda: desconfiar da palavra que soa demasiado certa, rir baixinho do conceito elegante demais para ser honesto, duvidar do paradigma que já não admite ser contrariado à mesa do jantar. A inteligência, suspeito, não está em ter respostas de prateleira, mas em conservar, viva e um tanto perigosa, a pergunta que incomoda quem a fez e, inclusive, e principalmente, aos crentes convictos da resposta absoluta.

Toda ideia merece respeito enquanto explica alguma coisa.

Nenhuma merece genuflexão depois que passa a impedir outras de aparecer e se manifestar.

A história do pensamento, inimigos da dissonância cognitiva, não é desfile triunfal, é cemitério. Um tanto bem cuidado, com lápides elogiosas, onde jazem certezas que se julgaram eternas e morreram convencidas e cheias de si até o último suspiro, sem jamais desconfiar do coveiro.

E é justamente por isso, se eu me permito a esta última impertinência, que a filosofia continua sendo, de todos os ofícios humanos, o mais divertido: é o único que tem a má-criação de lembrar aos deuses que também eles começaram na mente humana e depois no rascunho. Rascunho, aliás, que ninguém teve ainda a honestidade de dar por terminado.

Pois ninguém prova nada neste âmbito. Há apenas testemunhos emocionados.

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    Professor Caverna

    Professor Caverna

    Caverna é professor de Filosofia, criador de conteúdo digital e coordenador do projeto “Café Filosófico” em Foz do Iguaçu.

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