Por Leonardo Pereira Montejo
Em absoluto, há descanso em um mundo desconhecido.
Entretido é aquele que faz de tudo que conhece um saber novo.
A meu ver, Heráclito é dos mais ilustres pensadores por ter sugerido a sua percepção de que a única constância do universo é a mudança; imagino que para muitos não seja de nenhuma surpresa essa filosofia, esse dinamismo irrecorrível, mas talvez, sua maior profundidade não tenha sido, de igual modo, tão entendida.
Heráclito propunha que às coisas todas estavam a caminho de alguma coisa deixando de ser alguma outra antecedente, como se o mundo fosse transitório e de alguma maneira todos os gêneros das coisas fossem sinônimos do efêmero, e não estava equivocado, daí que originalmente se inventa o poderoso ditado: “ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”; reflexão que, com o tempo, ganhou muitas variações gêmeas.

Diferentemente de seu conterrâneo Parmênides, outro pré socrático, que defendia a imutabilidade e a permanência dos elementos, em um mundo peremptório e impiedoso, Heráclito creia naturalmente em um mundo encantado em que nada é exatamente igual; em um estranhamento dos sentidos em torno de algo familiar, em uma descoberta.
Todas as coisas poderiam ser uma descoberta. O mundo seria poderoso de fazer resgatar, através de semelhanças, fazer lembrar mas nunca seria igual e não poderia ser, tendo em vista que mesmo que o mundo não oportunamente mudasse, o sujeito que o percebe teria: daí vem o deleite.
Não há felicidade mais intratável do que aquela que se dá pela repetição, seria como atirar uma moeda a mesma fonte e sempre pensar diferente, seria como ser saudosista-saudosista: o saudosismo embeleza e através de um coração preguiçoso que não quer andar a ter mil pernas como o tempo, idealiza coisas que pressupõe naturalmente que não voltarão a passar mais, e que felicidade que não irão acontecer; há algo de tedioso ou de aborrecedor naquilo que é conhecido, sobretudo em tempos velozes.
Heráclito, sem mesmo saber, tinha inventado um mundo analógico, em que todos os sentidos são variantes de outros, em correspondência, como um mundo sinonímico.
Uma felicidade díspar seria fazer lembrar mas nunca ser igual, seria ler o mesmo livro diferentes vezes em diferentes épocas e entender diferentes legados, seria como atirar cegamente os olhos ao mesmo céu e nunca encontrar os mesmos desenhos, ou como encontrar ainda o mesmo amor, e no entanto, nunca perde-lo.
Se pensarmos em Sísifo, no Sísifo figura mitológica de origem grega, castigado pelas divindades de modo a nunca deixar seu posto, sua ocupação de eternamente empurrar o mesmo pedregulho para subir a montanha, sem entretanto, nunca sair do lugar; identificar conseguimos que seu tormento decorre da repetição, do idêntico que ela é, de como propositalmente faz-se impossível qualquer educação diferente, de como ela se acerca de instituições do nada como a morte, que é sempre a mesma.
No mundo sinonímico, até mesmo Sísifo encontraria um propósito maior de vida que carregar sempre a mesma rocha para o mesmo lugar, estaria a fazer a mesma coisa sem entretanto ceder ao vazio de estar sempre imóvel.

Trás essas tessituras, oportuno me é recordar que um mundo velocista como o nosso, em que os pensamentos andam de escadas rolante, e as construções são arenosas em decorrência de uma maré de imediatismo e ansiedade, se presenta muito difícil procurar essas pequenas felicidades na mesma coisa; a cultura da velocidade é outra, o lucro vem de algo diferente, de algo inédito, de uma distinta proposta. O lucro nunca virá de algo igual.
A logística pensada passa por muitas coisas, desde a efemeridade nos relacionamentos, algo muito abordado por Zygmunt Bauman em seu conceito: “a liquidez das relações” à obsolescência programada, em traduções mais mercadológicas; nunca é o mesmo, e tampouco deve ser, é uma corrida contra o tempo.
Como um se pode querer divertir com os diferentes ponteiros de um mesmo relógio se em cada um de seus bolsos há um outro relógio à espreita. O mundo que impõe sempre o diferente como uma televisão que não deixa de transmitir, não pode enaltecer a cegueira que tem.
Diferentemente do mundo sinonímico de Heráclito onde o igual é encantador e por conseguinte diferente, o mundo nosso procura eliminar as igualdades em prol de um entretenimento, de um lúdico incansável que sempre ânsia por mais, seria como inventar genialmente uma apatia de fora para dentro, até que não se tenha mais nada novo se não a mesma coisa, se não o mesmo pedregulho, o mesmo amor.


