Por Angela Aterribile
Não importa o pretexto. A verdade é que, na maioria das vezes, as pessoas que nos machucam sequer sabem o porquê de estarem fazendo isso. Agem por puro automatismo, replicando suas próprias feridas inconscientes. Durante muito tempo, a psicologia dos anos 1970 defendeu uma tese quase determinista: a de que uma infância destrutiva moldaria, inevitavelmente, um adulto disfuncional. Funcionávamos como a esponja da pia da cozinha: ao sermos pressionados pelas circunstâncias, apenas retínhamos a sujeira e o impacto. Mas existe uma fresta de luz nessa engrenagem, e ela se chama autoamor.
O psicólogo humanista Carl Rogers escreveu certa vez uma frase que mudou a minha perspectiva sobre a vida: “O paradoxo curioso é que, como indivíduo, somente quando me aceito como sou, então posso mudar”. Foi ao digerir essa frase que percebi o tamanho do meu desperdício: toda a energia que eu gastava me menosprezando, me culpando e me achando insuficiente, finalmente ficou disponível para eu me acolher.

O problema é que essa transformação não acontece num estalar de dedos. Existe um delay, um intervalo incômodo e angustiante entre o momento em que decidimos abandonar um velho comportamento e o dia em que a nova criatura finalmente se estabelece. Mudar dói. E exige uma paciência que a nossa época parece não ter mais. A sociedade da atenção fragmentada. Queremos a cura rápida, mas o processo de cura exige o tempo de maturação de uma borboleta no casulo.
O problema é que o nosso cotidiano mudou de ritmo. Vivemos o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “Modernidade Líquida”: tudo é veloz, urgente e descartável. Hoje, as pessoas conversam olhando para a tela do celular. Dividem a atenção com o TikTok, com a notificação do Instagram, com a série de fundo na TV.
A tecnologia deu um nome técnico para isso: Atenção Parcial Constante. A verdade por trás do termo é mais cruel: você tenta estar em todos os lugares virtuais e acaba não estando em lugar nenhum. Estamos todos presos na moldura escura das telas – o verdadeiro Black Mirror da vida real -, desconectados de quem está ao nosso lado, perdendo tempo, afeto e espaço. É por causa dessa pressa cega que tanta gente volta para o fundo do poço repetidas vezes. Estar no fundo do poço é doloroso, mas é lá que se aprende.
Contudo, para aprender, é preciso parar. Olho ao redor e vejo pessoas que mal saíram de um relacionamento frustrante e doloroso e já pulam de cabeça em outro, sem se dar uma semana de trégua. Não se perguntam o que deu errado, não analisam a própria responsabilidade, não corrigem a rota. O resultado? Acumulam medalhas de decepção no peito e seguem caminhando.

Cadê a paciência de aprender com as lições da vida, especialmente com as mais difíceis? O que fica e o que vai Falar do passado com um pouco de saudade não significa querer morar lá. Não se trata de retroceder. Muito do que eu fui, hoje eu não desejo mais na minha vida; ficou para trás. Mas muito do que vivi merece ter presença no meu agora. Viver não é amputar o passado, é ressignificá-lo. Para fazer esse filtro, a filosofia se torna urgente. Ela não é um analgésico ou um medicamento de tarja preta para anestesiar a dor.
A percepção filosófica serve para causar um incômodo saudável. Ela nos convida a olhar para o tempo sob outra perspectiva, e não nessa velocidade frenética do mercado que tudo promete e nada entrega, gerando apenas uma crônica sensação de vazio. Estamos todos, no fundo, buscando leveza. Mas a leveza só vem quando decidimos parar de viver roboticamente para focar no que é essencial: ler um livro, sentir o vento, respirar e ter a coragem de olhar para as nossas próprias quedas não com autopiedade, mas com a paciência de quem sabe que está aprendendo a se levantar.


