Por Leonardo Pereira Montejo
O coração é um universo impiedoso, diga-se de passagem.
Perceber e ser percebido sempre foi uma das pautas fundamentais da filosofia como um todo, como uma pedra angular que dá forma à ciência que andava a se comprometer a fabricar um parecer diferente sobre o mundo.
A percepção sempre foi uma dúvida pertinente, fosse em tempos anteriores àorganização da filosofia, fosse com os pré-socráticos, com Sócrates, com os pensadores medievais e com a dita filosofia contemporânea, em que podemos resgatar mentes ilustres como Sartre, Foucault e Agamben.
O dilema sempre orbitou um pouco em torno desse pensamento, de como sepercebe e de como se pode ser percebido, até onde e de que maneira, e o que instintivamente se assume que seja a percepção; e de como desse interesse engajado paulatinamente surgiram diferentes suposições e rascunhos acerca do estranhamento que é a percepção como um todo.

Muitos olhares se deram sempre a percepção.
Diferentes pensadores, diferentes correntes teóricas e distintas culturas e ideologias em um mesmo mundo conversando ou não entre si, mas de alguma maneira se entendendo, se sedimentando, umas sobre as outras, em prol fundamentalmente de uma dúvida: o que é perceber.
A ideia da sombra só se poderia ter a partir da luz; assim como os desenhos de um nada anterior podem acarretar em um nada maior e este por sua vez irá levar a uma geografia de sombra maior, em que tudo se faz talvez mais claro. A partir deste legado pertinente da filosofia, o moderno e pensador Francis Bacon foi desses que procurou elaborar um conceito de percepção que pudesse corresponder à realidade, casar-se com ela. Em um desses estudos, Francis inventou a lógica indutiva – também conhecida por terceiros como método indutivo. Um retrato do perceber através do inevitável da percepção.
A indução proposta por Francis Bacon – filósofo do Século XVII e não o também renomado pintor de mesmo nome, do Século XX – seria nada mais que assumir que o universo segue de acordo naturalmente com o particular, ou ainda de que o pequeno é responsável por reger o grande, o menor das coisas.
A tese filosófica de Francis sugeria então um malabarismo conceitual entre o que é privado e o que é público, ou o que acontece com um e o que acontece universalmente; é como tomar novamente por certo, em algum nível, que o eixo das ciências é e seguirá sendo o homem; um reflexo um pouco tardio do pensamento renascentista que alegava que este era o eixo total. Essa lógica proposta por Bacon, no entanto, se descomedida pode vir a ser potencialmente temerária.
Um exemplo maltrapilho seria: se mergulhei em um lago Y e me dei mal posso assumir através da cultura indutiva que necessariamente todas as pessoas que doravante entrarem nesse lago se darão mal também, ou ainda que – mais característico da psique humana – todos os lagos são ruins. Percebe-se o quão fácil é tirar um discurso de ódio do bolso.
A questão é que a indução de Bacon gira em torno de um, de maneira exagerada em torno do perceber de alguém, quase como um elemento com capacidade de reger todos os demais mecanismos a se considerar; e que se distorcida, passa a ser uma ética despótica, uma ética autoritária que invés de incorporar – como programada para se fazer – faria discriminar. Um descuido teórico e se monta um quiproquó.

Apesar de a prática indutiva ter sido pensada para abraçar, quando viciada ou manipulada a favor de um – como um subjetivismo enviesado – como no caso dos relacionamentos modernos, algo nada inesperado acontece, levando-se em consideração que nossos tempos são de muito individualistas e o ego passa a ser uma religião, como quando surge uma distorção muito conveniente dessa lógica mas voltada para as relações, como uma indução romântica.
Um retrato epocal disso é o crescimento de uma lamentável cultura denominada de cultura redpill, de manifestação sobretudo digital, tratando-se da costura de um conjunto de valores machistas e discursos de ódio às mulheres, pregados por homens que procuram de maneira inconsciente dividir esse ressentimento pessoal, mas que utilizando-se de uma ética indutiva de todo disfuncional e completamente viciada, ofendem o universo femino; sem exceção.
Convém ressaltar ainda que a tal cultura redpill distorcendo essa lógica faz o que Francis Bacon tanto combatia com o seu método indutivo que era justamente a generalização sem escrúpulos e sem fundamentos. Um discurso indolente e iníquo que no fundo faz desenhar mais o endereço de dentro de um que qualquer constância fora. Que não tenhamos a preguiça de ter um coração digno do outro e que nossa educação seja tal para sempre acolher, e que se tenham os culhões de estudar o mundo através de todas as suas gavetas, uma a uma.

