Avenida que mata a mata

Macaquinho saiu pra buscar comida e não voltou. Foto: Aida Franco de Lima

A floresta que compõe o Parque Municipal do Cinturão Verde, de Cianorte, está a cada dia mais fragmentada.

Por Aida Franco Lima – OPINIÃO

Cianorte, planejada pelos ingleses lá nas primeiras décadas do século passado, tem ruas largas, avenidas amplas. Porém, na ânsia pelo progresso, cresce desordenadamente. Os carros tomam conta dos espaços dos pedestres e vai comendo beiradas da mata que compõem o Parque Municipal do Cinturão Verde. Locais que há pouco tempo eram sítios, deram lugar a condomínios irregulares aos de alto padrão. E todo esse povo quer chegar rápido, de suas casas a qualquer outro lugar.

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O motorista de um grande centro, como  São Paulo, que fica engarrafado por horas no trânsito, cheio de concreto, seria feliz em Cianorte, ao ser ‘engarrafado’ ladeado por matas.

ANTES – Essa era a avenida rebatizada de Makio Sato, pouco antes das obras de duplicação, em setembro de 2021. Um trecho de menos de 800 metros, um cartão postal que foi descaracterizado pelo concreto. Foto: Aida Franco de Lima

Mas o motorista, em Cianorte, tem pressa. Não enxerga a mata. Não enxerga o rio. Não sente o frescor da mata que precisa ser derrubada para dar lugar à avenidas. Não está nem aí com a revoada das maritacas.

Não vê a graça dos macacos curiosos que beiram (perigosamente) as pistas ou a simetria das caudas dos quatis. Muito provável mataria, por medo, os lagartos e algumas cobras que serpenteiam entre as telas de arame e insistem em atravessar as vias. Não consegue enxergar nem mesmo a beleza do pôr-do-sol, buscar desenhos nas nuvens, encontrar a Estrela D’alva ou pensar no pote de ouro ao final do arco-íris.

Ele precisa chegar logo. Mesmo que seja somente no horário de fluxo. Mesmo que lá na frente o timer do sinal vermelho seja longo e o obrigue a esperar sob o sol e de cara para as fachadas de concreto.

DEPOIS – Essa é a mesma avenida, Makio Sato, tão logo tiveram início a obras de duplicação, por volta de outubro de 2021. Trechos dos dois lados da mata, viraram apenas uma vaga lembrança. Foto: Aida Franco de Lima

Um dia, quando não tivermos mais florestas alguém vai perguntar: “mas como permitiram?”. Ahhh, mas tinham pressa. Tinham pressa pra chegar logo, mesmo que isso significasse chegar logo ao nosso fim. Afinal, o único animal da face da Terra que não faz falta para a natureza é o tal humano.

“Mas você é contra deixar o trânsito rápido porque não mora lá, porque não precisa ficar esperando”. Essa é sempre a mesma justificativa.

O fato de Cianorte ter uma grande floresta urbana parece ser importante para arrecadar recursos do ICMS Ecológico e para ‘vender’ loteamentos e produtos diversos. Porém, essa mesma mata surge como empecilho, pois atrapalha os motoristas apressados que não suportam alguns trechos de lentidão. Entre a lentidão e a mata, a floresta que nos perdoe, mas rapidez é fundamental.

Não é fácil mudar um pensamento estruturado. Uma cultura colonizada por ideias de que preservação ambiental se opõe ao progresso. Não é fácil uma comunidade compreender que uma mata inteira, preservada, ou com trânsito um pouco mais lento é o mínimo de contrapartida que poderíamos ofertar.

Corujinha morta atropelada em estrada
As luzes dos faróis desnorteiam os animais. Foto: Aida Franco de Lima

A geração atual que já é capaz de dirigir seu próprio veículo parece mesmo perdida. Ela tem pressa. E de tão apressada ela esquece que quanto menos temos de verde, mais abertura damos às erosões e intempéries da natureza. Que quanto menos habitat natural, mais ‘personas non gratas’ que abrigam-se no interior da floresta buscarão refúgio em nossas casas. Como por exemplo o famoso mosquito-palha, típico de nossas matas, (Lutzomyia longipalpis) que transmite a leishmaniose visceral, ou calazar. Sim, ou você acha que a natureza não cobra seu preço? Cedo ou tarde ele vem.

Talvez, se houver tempo, caberá à geração que está chegando compreender que se estamos inseridos em uma cidade com área verde, temos que agir de modo diferenciado e darmos nossa cota de sacrifício. E os animais que ficam divididos entre as matas cortadas por pistas, cada vez mais velozes e furiosas? E a poluição sonora que ecoa mata adentro? E o aumento da poluição atmosférica? Quem, de todos que defendem a ampliação de avenidas, em algum momento pensou nessas e outras questões? Os trabalhadores, principalmente os assalariados dificilmente farão ou terão respostas a essas perguntas.

Se os gestores não puxarem o freio de mão, para rever conceitos, o que hoje é orgulho para a Cidade, o Cinturão Verde, no futuro, não passará de uma fotografia aérea. Uma imagem amarelada na parede de uma repartição pública, cuja fauna e flora foram atropeladas para que os motoristas chegassem mais rápido. Mesmo que ao fundo do poço.

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Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo da autora.