De guerrilheiros a criminosos, quase sem escalas. Assassinatos, sequestros e extorsões são normais para o EPP.

Utilização de crianças na “guerrilha” divide ativistas do Exército do Povo Paraguaio

A agência de notícias Télam, do governo argentino, publicou uma reportagem em que analisa a situação do Exército do Povo Paraguaio, comparando com as Forças Armadas Revolucionárias, da Colômbia, que “apareceram nos anos ’60 como defensoras dos direitos dos camponeses, mas terminaram no comando do que parecia ser uma indústria de sequestro, extorsão e narcotráfico”.

O EPP mantém, neste momento, pelo menos três homens que sequestrou: o ex-vice-presidente do Paraguai Óscar Denis, levado pelos criminosos em setembro; o refém mais antigo, um policial chamado Edelio Morínigo, há seis anos em poder do grupo; e o fazendeiro Félix Urbieta, sequestrado em outubro de 2016.

No caso do ex-vice-presidente, o EPP fez uma série de exigências, inclusive a libertação de suas lideranças, Alcides Oviedo e Carmen Villalba, presas em Assunção.

O governo não atendeu ao pedido, mas a família de Denis pagou direitinho o resgate, doando US$ 2 milhões em mantimentos para 40 comunidades, em sacolas com folhetos indicando que o benefício era graças ao EPP. Mesmo assim, até hoje não há notícias do ex-vice-presidente, que pode ter sido fuzilado, como ameaçaram os criminosos.

DIVISÃO DO EPP

Mas o fato mais recente, que provocou uma dissensão no grupo, foi a utilização de adolescentes para fazer parte das fileiras da organização.

“Desaprovamos e rejeitamos a incorporação de crianças nas fileiras do EPP. (…) Não se pode incorporar crianças que ainda não estão preparadas em nenhum sentido”, diz nota publicada no Facebook por Genovieva Oviedo Britez, que escreveu em nome dos “prisioneiros políticos” retidos no Agrupamento Especializado da Polícia Nacional, em Assunção.

Neste sábado, 02, parentes de duas meninas mortas num ataque da Força de Tarefa Conjunta a um acampamento do EPP, há quatro meses, fizeram um protesto em frente à Embaixada do Paraguai, em Buenos Aires, para exigir esclarecimento sobre o caso. As duas meninas tinham nacionalidade argentina. Uma delas era filha e outra sobrinha da líder do EPP Carmen Villalba.

A FTC explicou que as mortes ocorreram num confronto com homens do EPP, mas há informações de que, no acampamento, só estavam as meninas.

Além disso, outra menina de 14 anos, também sobrinha de Carmen Villalba, está desaparecida desde 30 de novembro, em alguma montanha do Norte do país.

ENTERRADA VIVA

Filha do ex-presidente Raúl Cubas foi enterrada viva, grávida de um ou mais sequestradores.

Na matéria da Agência Télam, há a informação de que o EPP matou cerca de 70 pessoas, entre elas a empresária Cecilia Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas, sequestrada em setembro de 2004 e executada na noite de Natal daquele ano por integrantes do Partido Patria Libre, antecessor do EPP.

Para libertar Cecilia, como consta hoje até na Wikipedia em espanhol, os criminosos pediram, inicialmente US$ 300 mil, mandando como provas de vida fotos dela com capas de jornais do dia. Dias antes do Natal, entraram em contato com a família e fizeram um ultimato, exigindo o pagamento de US$ 3 milhões.

Mas não houve mais notícia, a não ser quando o corpo foi encontrado, em fevereiro de 2005. Cecilia foi sedada e enterrada viva num túnel encontrado sob uma casa do município de Ñenby. Análises mostraram que estava grávida, por ter sido violentada por um ou mais de seus sequestradores.

O INÍCIO

O movimento guerrilheiro teve início lá pelos anos ’90, quando Alcides Oviedo, estudante de teologia que já tinha abandonado a vocação sacerdotal, desenvolveu interesse na luta armada revolucionária. E se casou justamente com uma militante radical, Carmen Villalba, conta a Agência Télam, com base no livro de Jeremy McDermott, “Exército do Povo Paraguaio, um novo grupo insurgente ou simples bandidos”?

Em novembro de 2001, o casal e mais a dupla Arrom e Anuncio Marti foram acusados do sequestro de María Edith Bordón, nora de um ex-ministro de Economia e empresário forte ligado ao ditador Alfredo Strossner, que havia participado da construção de Itaipu.

Até se liberada, Marícia Edith ficou 64 dias nas mãos dos sequestrados.

Arrom e Marti disseram, na época, que se dedicavam mais ao braço político do grupo e que não tinham relação com o sequestro. Denunciaram ter sido torturados na prisão e, quando foram liberados, fugiram para o Brasil, onde tinham emprego e até certa estabilidade.

Mas, quando o presidente Jair Bolsonaro assumiu, o Paraguai pediu a extradição dos dois. Arrom e Marti fugiram então para o Uruguai e, depois, para a Finlância, onde conseguiram refúgio político.

Oviedo e a mulher continuaram presos, mas conseguiram fugir, separadamente, e participar de ações do EPP até serem recapturados. A organização então ficou sob responsabilidade de Osvaldo VillaIba, irmão de Carmen, e de Manuel Cristaldo Mieres, atual chefe do EPP.

NAS MONTANHAS

Lideranças do EPP costumavam divulgar vídeos para explicar o que o grupo é e o que pretende.

Os integrantes do EPP se refugiaram em montanhas no Norte do Paraguai, de onde, em ações que incluem muita violência, defendem radicalmente o meio ambiente, o que inclui lutar contra a proliferação das plantações de soja, grande parte em fazendas de brasileiros ou de alemães menonitas.

O escritor e ativista de movimentos sociais Benjamín Valiente, que é defensor do meio ambiente, contou à Télam que, ao contrário dos integrantes do EPP, “nós sempre defendemos nossas reivindicações na atividade política, não pela violência. Eles apelam à violência, a tal ponto que o governo não lhes dá o status de guerrilha, mas sim de quadrilha de extorsão, de sequestradores, criminosos, terroristas”.

A FORÇA DE TAREFA CONJUNTA

Esta foi a ação da FTC que resultou na morte de duas meninas de 11 anos, que estavam no acampamento do EPP.

Do outro lado, isto é, do governo paraguaio, está a Força de Tarefa Conjunta, formada por agentes policiais e militares dedicados a combater o EPP, mas sem respaldo constitucional, já que a segurança interna é competência exclusiva da polícia, destaca a Télam.

A FTC foi criada em 2013 pelo governo de Horacio Cartes e conta com um orçamento anual de US$ 14 milhões. Valiente, que escreveu um livro sobre abusos da força tarefa, junto com padre Cáceres, o “pai Pablito”, diz que, “em um ponto, guerrilheiros e militares e policiais têm muito mais para beneficiar-se: se se elimina o EPP, termina a FTC”.

Padre Cáceres iniciou uma mediação para tentar a libertação dos três sequestrados em poder do EPP. Mas, agora, também tem atuado na busca de Carmen Elizabeth Oviedo Villalba, a menina que é filha dos fundadores do EPP, que desapareceu logo depois de passar um tempo sob cuidados de sua tia Laura Villalba, atualmente detida.

Carmen Elizabeth é prima das duas meninas argentinas, de 11 anos, e, como elas, morava na localidade de Puerto Rico, Misiones (Argentina). As duas garotas foram juntas para o acampamento guerrilheiro, onde encontraram a morte.

Carmen Elizabeth está desaparecida nas montanhas desde 30 de novembro.

Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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