Bom movimento, dólar alto, pouca venda. E relaxo ante covid. O sábado em Ciudad del Este

H2FOZ – Cláudio Dalla Benetta

As ruas estavam movimentadas, em algumas lojas havia filas para entrar. Disso, os comerciantes de Ciudad del Este não se queixam.

Eles reclamam das poucas vendas, pelo menos na média geral. O volume de vendas continua mínimo, de acordo com o presidente da Federação de Câmaras de Ciudad del Este, Tony Santamaría, em entrevista ao jornal ABC Color.

Ele relatou ainda dois problemas específicos, relacionados ao dólar: o primeiro é a cotação elevada, em torno de R$ 6,00; o segundo é que os bancos estão rejeitando aceitar depósitos em dólares.

Segundo Santamaría, “se não aceitamos dólares de nossos compradores, então os comércios morrem, vão ter que fechar”.

O problema é que uma lei provisória aprovada no Paraguai limitou a porcentagem de comissão que os bancos cobram para aceitar dólares como depósitos.

Antes, cobravam entre 5% e 6% do total depositado, mas foram obrigados a baixar a comissão a 1%. A partir disso, os bancos não aceitam os dólares, ou apenas em pequenas quantidades. Mas, segundo o empresário, a lei obriga que os bancos aceitem dólares.

“Então, quem é que manda aqui, o governo que estabeleceu esta medida ou os bancos?”, questiona o presidente da Federação das Câmaras de Comércio.

Já Raúl Vera, da Associação de Bancos, disse ao ABC Color que estão sendo recusadas as notas de dólares de séries antigas, que em geral não são aceitas por exportadores e que acabam representando um custo financeiro alto para as entidades bancárias.

Os bancos esperam que o Banco Central estabeleça um mecanismo para preservar ou exportar as notas de dólar em poder das instituições bancárias.

Mas Santamaría contrapõe: “Que saibamos, não existe nenhuma norma do Federal Reserve dos Estados Unidos que indique que estas notas (antigas) não tenham validade”. O Federal Reserve, ou Fed, é uma espécie de banco central americano. Só que tem mais autonomia que os de outros países, já que suas decisões não precisam passar pelo Congresso ou Senado e ainda ele tem o poder de criar moeda).

Turistas de outros estados

O jornal La Clave noticia que, no fim de semana, as ruas de Ciudad del Este “voltaram a estar lotadas de turistas brasileiros, que decidiram vir de estados como São Paulo e Santa Catarina, entre outros, para comprar diversos tipos de artigos”.

Apesar do dólar alto, que afeta o poder de compra dos brasileiros, a  ampla gama de ofertas e artigos disponíveis nas lojas tem possibilitam que o turista encontre alguma vantagem que justifique a viagem, diz ainda o jornal.

Em algumas lojas, movimento intenso. Mas vendas decepcionaram. Captura de tela

Transporte em recuperação

A vinda de visitantes movimentou o transporte por táxis, mototáxis e alternativos, permitindo que os transportadores “pudessem levar um pouco de dinheiro para suas casas, depois de muito tempo”. E isso foi motivo para comemoração, disse o mototaxista Ever Olmedo Alemán.

“Claro que estamos contentes. Os companheiros, depois de sete meses sem ganhar um guarani, hoje estão fazendo 120 mil a 150 mil por dia (entre R$ 100 e R$ 120). É o que sempre pedimos, que nos deixem trabalhar. Agora não vamos mais mendigar nada e vamos fazer mais esforço para poder recuperar o que perdemos em todo este tempo de fronteira fechada”, disse o mototaxista ao La Clave.

Gustavo Espínola, presidente do sindicato Taxistas Unidos del Este, também comemorou. “É o que sempre pedimos, condições para trabalhar e ganhar dignamente nosso dinheirinho.”.

Segundo ele, os profissionais do volante não têm nenhum problema com o cumprimento dos protocolos e de respeitar todas as recomendações dos médicos.

“Somos os mais interessados em não ficar doentes. Ninguém, em juízo perfeito, vai sair para trabalhar sem cuidar-se e, com isso, levar o vírus para casa. Há consciência dos companheiros sobre isso”, garantiu.

Já o presidente da Federação dos Trabalhadores de Via Pública, Gregorio Villalba, disse ao La Clave que a situação não está fácil, já que formam parte do setor que mais lentamente vai sentir o benefício da reabertura da ponte.

Mas “também celembramos, depois de muito tempo a cidade está respirando”, disse, lembrando que a pandemia “causou danos muito sérios na economia”. “Do mercado interno não se vive”, afirmou, o que sustenta os trabalhadores são os compristas de outros países.

Poucos cuidados com a covid-19

Um casal de iguaçuenses que foi a Ciudad del Este no sábado, 17, observou: o comércio se divide entre as lojas e shopings que seguem os protocolos sanitários e entre os comércios que atuam como se a pandemia não mais existisse.

A lavagem de mãos, que seria obrigatória ao entrar nos estabelecimentos, como prevê o protocolo sanitário do Paraguai, ficou só no papel. Em alguns shoppings, como o China, é medida a temperatura e há álcool em gel, mas em alguns locais não há nenhuma prevenção.

Muitos compradores que circulavam pelo comércio não usavam máscaras e nem eram obrigados a colocá-las ao entrar na na maioria das lojas.

Alto Paraná tem situação controlada

Alto Paraná, onde fica Ciudad del Este, já não é o epicentro da pandemia de covid-19 no Paraguai, como acontecia até poucas semanas. Agora, esse papel está com o departamento Central, que concentra mais de 20% dos casos no país, seguido de Assunção, com 12%. Mas Alto Paraná está ainda em terceiro lugar, com 7%.

Segundo o jornal ABC Color, os casos ativos de covid-19 cairam 73,42%, em Alto Paraná. Dos 1.494 ativos no pico da pandemia, agora são 397, dos quais 85% na capital do departamento, Ciudad del Este.

As autoridades sanitárias do Paraguai esperam que a cifra de infectados não dispare novamente. Mas, por precaução, o desbloqueio da fronteira vai vigorar por 15 dias, quando será feita uma avaliação da pandemia antes de decidir se começa a nova fase, de passagem liberada para pedestres.

A diretora regional do Instituto de Previdência Social, Ana Rolón Jara, atribui a redução à imunidade de rebanho gerada na primeira onda de contágio massivo em Alto Paraná.

Mais aqui do que lá

Proporcionalmente à população, Foz do Iguaçu concentra mais casos e mortes do que o Paraguai como um todo.

A primeira comparação pode ser feita com os números de sábado: o Paraguai registrou outros 709 casos positivos e mais nove mortes. Foz do Iguaçu teve mais 17 casos e outra morte.

Agora, o Paraguai totaliza 54.724 casos e 1.188 óbitos, enquanto Foz do Iguaçu, que tem uma população 27 vezes menor que a paraguaia, totaliza 8.149 casos e 125 mortes.

A soma de casos no Paraguai representa apenas 6,7 vezes a mais que o total de Foz. A proporção é muito maior, portanto, que a relação entre as populações.

Em mortes, o total paraguaio é somente 9,5 vezes maior que o de Foz. Isto é, proporcionalmente também morrem mais pessoas aqui com covid-19.

O risco da reabertura da Ponte da Amizade vale para os dois lados: Foz pode ter mais casos (e, por consequência, mais mortes); e o Paraguai pode piorar sua situação sanitária, ao menos na fronteira, onde o número de leitos é suficiente para atender os casos atuais, mas não novos surtos.

Se abrir fronteiras é absoluta necessidade, o comércio paraguaio – aqueles lojistas que ainda não entenderam bem a situação – têm que ter consciência e cumprir protocolos. Se casos aumentarem muito em Foz ou em Ciudad del Este, não será de estranhar se a fronteira seja fechada, mesmo que por um período curto.

Fica o aviso.

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