Brasileiras, argentinas e paraguaias estão entre preferidas dos traficantes de pessoas

HFOZ – Cláudio Dalla Benetta

A jornalista, locutora de rádio e escritora Kitty Saunders, que nasceu na Rússia mas vive na Argentina, se especializou em tráfico de pessoas. Ela já escreveu três livros sobre o assunto, inclusive o best-seller (em espanhol) “Prolegomenos al libro carne”, faz conferências e capacita agentes policiais em tráfico humano.

Ao jornal paraguaio ABC Color, em entrevista especial publicada no domingo, 6, Kitty contou que aqui mesmo na tríplice fronteira funcionam redes de tráfico de pessoas, divididas em pequenas e grandes. “As grandes são as que têm tentáculos na Europa”, disse. E contou que as mulheres traficadas são chamadas de “pacotes”. “Pacote 20 é uma menina de 20 anos”, exemplificou.

No mundo do tráfico de mulheres, contou ainda Kitty, as mais visadas são as mexicanas; a seguir, brasileiras e colombianas; depois, vêm as argentinas e já em seguida as paraguaias.

Kitty com um dos livros que escreveu. Oito anos a credenciaram a ser especialista no tráfico de pessoas, o qual sentiu na pele. Foto de sua página no Instagram

PROCURA-SE BABÁ

Há várias formas de enganar as jovens para levá-las ao mundo da prostituição. Um dos “modus operandi” é publicar um anúncio, numa rede social, oferecendo um emprego de babá em Buenos Aires com salário de 50 mil pesos (cerca de R$ 3.100).

“Nenhuma babá cobra tanto porque ninguém vai pagar isso. Elas (as vítimas) saem de suas casas e se iludem com a mudança de vida, até encontrar a dura realidade. Os proxenetas as esperam e as levam a um lugar onde não podem ter contato com ninguém, nem com seus familiares e amigos”, disse a jornalista. A seguir, vem a prostituição.

Em relação à procura por paraguaias, “muito utilizadas na Argentina e na Europa”, elas “são muito exploradas porque são muito dóceis e são muito lindas”, disse Kitty.

“AMIGA” QUE SE DEU BEM

O livro que virou best-seller.

Outra forma usada para atrair vítimas é utilizando uma mulher, uma proxeneta. É geralmente uma jovem de uns 20 anos, que procura suas amigas e conta que voltou da Espanha com muito dinheiro, que vai permitir comprar uma casa para a mãe.

Depois, as convence a ir com ela à Espanha para trabalhar como modelos. “Eu pago a passagem e dentro de um mês você me devolve, porque vai ganhar muito dinheiro.” Convencida, a vítima viaja à Espanha, mas de lá é logo em seguida levar a outro país.

O destino tradicional é a França, mas pode ser também a Alemanha, Hungria, Bélgica ou outro país europeu. “Elas são distribuídas onde haja falta”. Viajam já com documentos falsos, com outro nome e outra idade. Se tem 15 anos, passa a ter 18 na documentação.

“(O tráfico) é um negócio muito grande que está conectado com a indústria de documentos falsos”, disse a jornalista russa-argentina. “Sempre há um ou mais corruptos entre o pessoal que concede os documentos.”

Depois que percebe o erro, que vai ter que trabalhar como prostituta, a vítima se revolta. Primeiro, lhe dizem que é só por um tempo, depois será modelo. Mas, se insistir nas queixas, sofre ameaças de morte ou que vão matar sua família.

Por vergonha ou medo, não procuram ajuda da polícia ou da embaixada de seu país. Quatro ou cinco anos depois, estão contaminadas por aids ou sífilis, viciadas em drogas e já fizeram abortos clandestinos. “Uma menina explorada parece uma velha em cinco anos.”

Levadas à Europa, as garotas são deixadas em prostíbulos ou cabarés. A foto é de imagem de um vídeo da Holanda, publicada na revista Cláudia

MORTES POR OVERDOSE

Aí, já não servem mais. Mas não são libertadas. Elas são mortas, mas não com armas, e sim com uma superdose de drogsa. Há corrupção policial envolvida, mas também desinteresse por parte dos agentes europeus.

Quando faz palestras na América Latina, Kitty contou que já viu policiais chorarem, porque têm um filho, uma irmã na Europa e não podem fazer nada. Mas, “se você envia a denúncia com evidências à Interpol, isso não lhes impressiona, porque é informação proveniente da América Latina”.

Como Kitty Sanders se tornou especialista? Em 2007, quando terminava o curso de jornalismo em São Petersburgo, na Rússia, escolheu para sua tese uma investigação sobre o tráfico de pessoas. O professor lhe disse para fazer “algo mais light”, mas ela acabou se envolvendo no tema a tal ponto que sofreu como sofrem as vítimas do tráfico.

Kitty Sanders, infiltrada entre as mulheres forçadas a se prostituir, tinha que fazer shows em uma boate.

“Me infiltrei e no final passei oito anos entre elas (as vítimas do tráfico). Sofri o indescritível na Rússia, na Ucrânia. Fui maltratada, abusada, fechada no porta-malas de um carro… Por fim, tive que muar de look uma infinidade de vezes para não ser reconhecida”, narrou. Disse ainda que percorreu vários países da América Latina e hoje mora na Argentina.

Com suas palestras a policiais, “temos tido bastante êxito no resgate de adolescentes e meninas dos bordéis. Há muitas paraguaias e isso me fez fixar também no Paraguai”.

Disse que já participou do resgate de paraguaias em Iquique, no Chile, onde elas foram ante promessas de que poderiam ganhar dinheiro rápido e fácil. Quando chegaram, retiraram seus documentos, agrediram-nos e as obrigaram a prostituir-se. Uma das paraguaias teve um bebê, que lhe foi tomado das mãos. Passaram então a ameaçar de morte o bebê, caso ela fosse fazer denúncia à embaixada ou à polícia.

Em muitos casos, depois de resgatadas, as garotas não querem voltar para suas casas, por vergonha dos pais e familiares.

Meu trabalho é ajudá-las e encaminhá-las. Não cobro nada por isso. É minha tese”, concluiu Kitty Sanders.

Imagem: Pixabay

Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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