Pandemia na fronteira: um vírus, três países, três realidades

Guilherme Wojciechowski – Opinião 

A emergência sanitária provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) é global, mas a forma como os países vêm lidando com ela é a mais variada possível. Um exemplo bem claro pode ser visto aqui, no nosso quintal de três nações, formado pela fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

Se para o enfrentamento a doenças como a dengue ou a gripe H1N1 havia pelo menos um mínimo de integração, que era feita por meio de grupos trinacionais de trabalho e outras ferramentas de intercâmbio e apoio logístico, desta vez não foi bem assim, com os protagonistas locais sendo rifados para escanteio.

As decisões de maior impacto, desde o princípio, foram tomadas em Buenos Aires (fechamento das fronteiras argentinas, em 16/3/20), Assunção (primeiro bloqueio da Ponte da Amizade, em 18/3/20) e Brasília, com pouca ou nenhuma consulta aos representantes da região.

Em Foz do Iguaçu, enquanto a rodoviária (de competência municipal) era fechada, o aeroporto (federal) só parou quando houve falta de voos, revelando descompasso. Nos primeiros dias, paraguaios ainda podiam vir à cidade (não havia proibição de entrada), mas brasileiros estavam impedidos de ir a Ciudad del Este.

Com o correr das semanas, algumas das distorções foram revistas, porém outras surgiram. Paraguaios que perdiam o emprego em outras partes do Brasil (ou que apenas queriam voltar para casa) chegavam em caravanas e eram “amontoados” no alto da ponte, enquanto aguardavam autorização para retornar ao país.

Para “controlar melhor o fluxo” (leia-se: impedir o acesso à aduana de Ciudad del Este), a Marinha do Paraguai instalou um portão. Quem registrava a saída do Brasil já não podia voltar para Foz (a entrada de estrangeiros tinha sido recém-proibida) nem entrar no Paraguai, ficando preso em um limbo legal.

Os acampamentos (se é que podemos chamá-los assim) foram marcados por intensa aglomeração de pessoas por metro quadrado, precárias condições de higiene e espera de alguns dias, amenizada apenas por voluntários que levavam refeições, água e itens para que houvesse um mínimo de dignidade.

Não por acaso, quando os viajantes foram transferidos para quarentena obrigatória em albergues montados às pressas no Paraguai e submetidos a testes, mais de 400, de uma tacada só, deram positivo para o novo coronavírus, expondo a gravidade do ocorrido, fruto da mais pura falta de diálogo e coordenação.

Já na fronteira com a Argentina, a Ponte Tancredo Neves amanheceu, em 29/3/20, com grades no meio da pista e passagem permitida apenas para caminhões, situação que se mantém até hoje, sem previsão de data para a retomada do fluxo habitual entre as cidades vizinhas.

Para chegar a Puerto Iguazú, um morador que ainda estivesse no Brasil precisaria ir para Uruguaiana (RS), atravessar até Paso de los Libres e tentar uma licença especial, já que a divisa interna entre as províncias de Corrientes e Misiones também estava fechada e os ônibus de longa distância tinham sido suspensos.

Com tantas dificuldades, não foram poucos os que se arriscaram nas travessias ilegais, com estratégias que foram desde fundos falsos em caminhões a canoas e boias nas corredeiras dos rios. Na maior seca dos últimos tempos, houve até quem tenha tentado (e conseguido) atravessar os rios Iguaçu e Paraná a nado.

A primeira vítima da covid-19 na província argentina de Misiones foi um caminhoneiro que se infectou em viagem ao Brasil. Em Puerto Iguazú, no extremo norte da província, motoristas brasileiros foram denunciados, em inúmeras ocasiões, por violação ao cordão sanitário montado no pátio de caminhões.

Estratégias de contenção

A Argentina apostou em um isolamento radical, com proibição quase total de sair de casa. A “quarentena mais longa do mundo” funcionou no primeiro momento, mas foi perdendo força. Ainda assim, Misiones é um caso de sucesso, ao ter “apenas” 10,2 mil infectados e 185 mortos entre uma população de 1,1 milhão.

O Paraguai, pressionado pela dificuldade em ampliar a rede hospitalar, trilhou caminho similar ao argentino, entretanto com tropeços e mudanças de planos. A atual crise política foi gerada, precisamente, por denúncias de má gestão. O país tem 180 mil casos, com 3.476 falecidos (414 em Ciudad del Este e área metropolitana).

Quanto ao Brasil, bem… é um capítulo à parte. Diferentemente dos vizinhos, a linha central de ação, capitaneada pelo governo federal, foi a ausência de linha central. Estados e municípios atuam como podem. Foz do Iguaçu, felizmente, contou e ainda conta com o apoio da Itaipu Binacional, que tem papel decisivo.

A Terra das Cataratas, porém, tem os piores registros na fronteira trinacional, mesmo não sendo a cidade mais populosa (258.248 habitantes, conforme a estimativa oficial). Até 14 de março, data da redação deste artigo, eram 29.659 infectados, dos quais 487 perderam a vida e 673 permaneciam na fase ativa da doença.

Estrutura de atendimento

Cinco dias após a reabertura da Ponte da Amizade, ocorrida em 15/10/20, Foz do Iguaçu teve nova disparada de casos positivos. O principal fator apontado (embora relutantemente admitido nas primeiras explicações oficiais) foi a demanda gerada por brasileiros e paraguaios residentes do lado de lá da fronteira.

Em fevereiro, a prefeitura informou que até 30% dos exames, atendimentos e internamentos por quadros de covid-19 nos hospitais da cidade eram de pessoas vindas do Paraguai. Em março, medidas polêmicas, como a proibição da entrada de ambulâncias paraguaias na cidade, foram adotadas pelo poder público local.

No somatório das redes pública e privada, Foz tem, atualmente, 125 leitos de terapia intensiva e 89 de enfermaria, exclusivos para pacientes com o Sars-CoV-2. Em Ciudad del Este e Alto Paraná, existe apenas uma unidade específica (Hospital Integrado Respiratorio), com 34 leitos de UTI, para bem mais moradores.

Em Puerto Iguazú, foi feita a adaptação de leitos no Hospital Marta Schwarz para suprimento da porção norte de Misiones, pouco afetada até o momento. O governo argentino está construindo, próximo à aduana, com possível entrega até abril, um “Hospital Modular” para atendimento a futuros viajantes fronteiriços.

Corrida das vacinas

Se divergiram nas estratégias de contenção, Brasil, Argentina e Paraguai também vêm divergindo nas rotas para a imunização de seus cidadãos. A russa Sputnik V é a principal aposta argentina. No Brasil, ainda que por linhas tortas, a largada foi dada pela chinesa CoronaVac. A estratégia paraguaia ainda é incerta.

Entre as cidades da fronteira, a primeira a receber doses foi Puerto Iguazú, na última semana de dezembro. Em Foz do Iguaçu, a dose inaugural, de um total de menos de 20 mil entregues até o momento, foi aplicada em 20 de janeiro. Ciudad del Este recebeu vacinas somente para imunizar 150 profissionais da linha de frente.

Argentina e Brasil esperam vacinar pelo menos 70% da população ainda em 2021, embora os cronogramas mudem mais do que o vírus. O Paraguai, que recebeu nessa sexta-feira (12) um novo lote com três mil doses do imunizante da chinesa Sinopharm, não sabe quando será capaz de concluir o processo.

Envolvimento da população

Alguns leitores dirão que estou “politizando”, mas não é essa a intenção. No Brasil, o mau exemplo dado por líderes que perderam tempo precioso divulgando tratamentos ineficazes e combatendo máscaras, distanciamento social e vacinas fez estragos irreparáveis nos campos da saúde, economia e coesão social.

Hoje por hoje, são comuns os relatos de quem perdeu familiares e amigos que preferiram crer no que recebiam via WhatsApp ou redes sociais, em vez de se protegerem com aquilo que realmente funciona. Médicos enviesados e farmácias que lucraram com duvidosos “kits covid” apenas complementam o panorama.

No Paraguai e na Argentina, onde as máquinas de desinformação também estão presentes, porém com alcance menor, o engajamento da população foi e vem sendo maior, por mais que existam discordâncias. Da base ao topo, o enfrentamento ao novo coronavírus é uma ação coletiva – e isso precisa ser entendido por todos.

*Guilherme Wojciechowski é radialista e atua, desde março de 2020, na coleta e difusão de informações sobre o contexto local da pandemia. É neto de Thadeu Wojciechowski, 12ª vítima da covid-19 no Paraná.

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