Autismo: concluir o Ensino Médio deve ser apenas mais uma etapa

Universidades também devem ser a direção dos estudantes com TEA que concluem o Ensino Médio.

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Aida Franco de Lima – OPINIÃO

As últimas colações de grau do ensino médio estão acontecendo no Brasil todo. Momento de celebrar uma jornada marcante na vida de quem deixa a adolescência para entrar no mundo adulto. Muitos desses estudantes sonham em ampliar a estatística que diz que no máximo 20% da população brasileira tem curso superior. E quantos são autistas?

De acordo com a Agência Brasil, “dados mais recentes do Censo da Educação Superior, de 2021, no Brasil, estão matriculadas em cursos de graduação presenciais e a distância 4.018 pessoas com transtorno global do desenvolvimento (TGD). O transtorno do espectro autista (TEA) é um dos cinco tipos do TGD”.

O ensino médio é uma fase delicada, porque a pessoa está em pleno período de transição – de idade, hormônios, decisões, largando a “tribo” na qual ela esteve inserida talvez desde os primeiros anos escolares. É muito jovem para escolher uma profissão e dar de cara com o mundo e já é velha para ser tratada como uma criança. Se esses desafios já não são fáceis para as pessoas consideradas típicas, como é que as atípicas estão sendo recebidas “lá fora”?

As escolas ainda estão começando a adaptar-se para atender os estudantes que se enquadram no TEA, colocando em prática a legislação que lhes garante direito básico, como professor de apoio educacional especializado (PAEE). Mas ainda há uma longa jornada a ser percorrida.

Na noite desta sexta, pouco antes do Natal, na cidade de Cianorte, Paraná, familiares e amigos ovacionaram as três turmas de formandos do ensino médio do Colégio Igléa Grollman, que participaram da cerimônia de formatura. O colégio é conhecido pelo trabalho que desenvolve há 13 anos para combater o bullying e promover a inclusão escolar. E entre os formandos, um grupo de cinco estudantes com espectro autista diagnosticados e quatro com indicativos do TEA.

Para os estudantes, de modo geral, chegar àquele momento foi uma trajetória cheia de desafios, alegrias, ansiedade e tudo mais que marca essa fase. E naquele instante, a ansiedade – que toma conta de todos – não poderia deixar de bater forte nesses formandos com TEA. Mas tudo transcorreu bem. Eles tinham o apoio da professora Ana Floripes, que os acompanha desde o sexto ano como PAEE.

Para estarem ali, diante de um auditório repleto de estímulos: muitas pessoas desconhecidas e movimentação, flashes, muito barulho, a própria emoção individual, o alto nível de ansiedade e tudo mais que um cerimonial exige, foi outro desafio vencido. O que pode parecer ‘frescura’, para quem desconhece os efeitos do excesso de estímulos sensoriais, pode ser exaustivo e desencadear crises.

O momento que marcou e refletiu o modo como a escola atingiu seu objetivo ao adaptar-se aos estudantes com TEA foi na parte final. Os estudantes foram convidados a sentar de costas para a plateia e de frente a um telão, onde seriam exibidas algumas fotos das turmas. Em vez daquele alvoroço de todos movimentando-se, a professora apenas sinalizou para que dessem a vez aos colegas para que se acomodassem com calma.

Aqueles formandos já estão acostumados na escola a respeitar a questão prioritária referente aos atendimentos. Ficou claro o resultado do trabalho coletivo dos profissionais da educação, naquele palco. Uma atitude simples, que faz toda a diferença. Assim como o de um aluno que fez reverência à professora Ana. Em 40 anos de carreira, ela nunca havia presenciado esse gesto nobre de respeito.

A sociedade precisa aprender a adaptar-se às necessidades de quem, até então, esteve mantido à margem dela. Precisamos garantir que os alunos que saem do ensino médio continuem a jornada. Que tenham não apenas vontade, mas lhes sejam oferecidas condições para que possam cursar a graduação que escolherem. E que o mercado de trabalho abra as portas às pessoas no espectro autista, pois elas têm muita potencialidade.

Que venham mais formaturas, seja lá no maternal, seja no pós-doc. Uma nação se desenvolve de acordo com o seu nível de educação e, naturalmente, a forma como ela respeita a sua diversidade. Que as políticas públicas sejam realmente executadas.

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