O “tio Paulo” e nossa sociedade adoentada

Os idosos pobres, acamados e as crianças que sofrem bullying só ganham visibilidade depois das tragédias.

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Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Talvez o leitor não saiba da vida de Paulo Roberto Braga, mas certamente soube da morte de “tio Paulo”.  As imagens que viralizaram dentro e fora do Brasil mostram o idoso, em uma cadeira de rodas, já falecido, em uma agência bancária. A sobrinha, que cuidava dele, tentava realizar um empréstimo.

Com o passar dos dias e com a história sendo esmiuçada, muitos detalhes vieram à tona, como sua trajetória familiar, o ambiente simples em que vivia. Sua sobrinha, Erika de Souza Vieira Nunes, é acusada pelo delegado do caso de querer tentar sacar o dinheiro, R$ 17 mil, mesmo sabendo que ele já estava morto. A defesa alega que o idoso morreu dentro da agência bancária e que Erika tem laudos psiquiátricos que comprovam seus problemas. Ela está presa e tem sido agredida pelas outras detentas. O dinheiro seria para reformar o quartinho onde Paulo morava.

Mas onde estava a sociedade que não enxergou “tio Paulo” e tantos outros por aí, que completam 65 anos e não recebem, compulsoriamente, ao menos o Benefício de Prestação Continuada, o BPC?

Por todos os cantos do Brasil temos um “tio Paulo” que vive de favor na casa de alguém e que não tem assegurados seus direitos, mesmo que durante a vida toda tenha contribuído direta ou indiretamente no pagamento de impostos.

De outro modo, por mais que não tivéssemos laudos psiquiátricos, por mais que nem saibamos da história de vida de Erika, precisamos tocar nessa delicada ferida que é a vida de cuidador de idoso. Mas de idoso pobre, porque quando é idoso rico todos são herdeiros. Porém, quando esse não tem nada de material para deixar, sua vida vale pouco ou quase nada.

Também é bastante assustador como um caso desses gera mais memes que reflexões. E muito triste, porque vivemos em uma sociedade que não se conforma com o envelhecimento, cujo culto ao corpo, à aparência jovial, brinca com a vida dos outros. E se fosse alguém da família, brincar-se-ia? Se fosse algo relacionado a algum comediante famoso, pedir-se-ia respeito à privacidade?

A nossa sociedade anda muito doente e não se dá conta disso. Doente no sentido de não ter sensibilidade à dor do outro, que sofre e morre em silêncio. O caso de Paulo Roberto Braga aconteceu em 16 de abril e tomou conta do noticiário. Naquele mesmo dia, Carlos Teixeira, um garoto de 13 anos, também perdia a vida, depois de ter apanhado na escola. Carlos sofria bullying e dias antes “colegas” de sala o agrediram pelas costas.

O garoto Carlos não teve seu direito de ir e vir respeitado, e o Estado, no caso a escola, não assegurou sua integridade. Os assassinos, mesmo que sejam menores, não são isentos de culpa, porque eles sabiam que o que faziam era algo errado e mesmo criminoso. Mas quem é que vai trazer a vida de Carlos de volta? Quantos outros meninos e meninas estão com receio de ir para a escola, com medo das lições de violência que vivenciam nos corredores, banheiros e portões?

Carlos sofria bullying, e ninguém tomou atitude alguma para protegê-lo, mesmo com seu pai comunicando oficialmente o ocorrido à escola. Outra mãe se pronunciou denunciando que seu filho também sofre bullying. Mas na sociedade anestesiada em que vivemos parece mesmo que bater e matar não passa de brincadeira de criança. Daqui uns dias vem outra novidade, outro viral, e “tio Paulo” e Carlos voltarão ao anonimato.

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