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Grafite ganha projeção internacional com artistas da cena local

Selecionada para festival no Reino Unido, Mavi Gualtieri integra movimento que fortalece o grafite, os murais urbanos e os coletivos artísticos em Foz do Iguaçu

7 min de leitura
Grafite ganha projeção internacional com artistas da cena local
Grafiteiras iguaçuenses Mavi Gualtieri e Emi Wenzel se destacam dentre artistas da fronteira.

A trajetória recente da grafiteira e muralista Mavi Gualtieri ajuda a dimensionar um movimento que vai além do percurso individual. Selecionada para a edição de 2026 do Meeting of Styles, no Reino Unido, a artista de Foz do Iguaçu leva para o exterior uma produção que já vinha se expandindo por festivais internacionais. Ao mesmo tempo, revela a consolidação de uma cena local que se organiza a partir dos próprios artistas.

A participação no evento, que acontece entre os dias 3 e 5 de julho em Cardiff, marca a terceira inserção de Mavi no circuito global do festival. Antes disso, em 2025, a artista esteve em edições realizadas na Indonésia e nas Filipinas, além de integrar encontros no Brasil. Mais do que circulação, esses espaços funcionam como pontos de troca e aprendizado.

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Mavi Gualtieri no Meetinf Of Styles Indonésia/Foto: Arquivo da artista

Beco dos Sonhos transforma praça em galeria urbana

Apesar do reconhecimento crescente, a circulação internacional ainda depende, em grande parte, do esforço individual. Sem uma política estruturada de financiamento, a artista já recorreu a rifas e parcerias para viabilizar viagens. Foi nesse contexto que organizou iniciativas importantes no município. Entre elas está o Festival de Graffiti Beco dos Sonhos, realizado no Jardim Ipê, entre 21 e 24 de agosto de 2025.

O evento reuniu 45 artistas do Brasil e de outros países da América Latina e transformou muros da praça localizada entre as travessas Cascavel e Missal em uma galeria a céu aberto. Ao todo, foram produzidos 14 murais com temática voltada à preservação da Mata Atlântica, sob o lema “Onde sonhos e a floresta se encontram”.

Artista transformando vivência em arte em Foz do Iguaçu/Foto: Mavi Gualtieri

Participaram grafiteiros de cidades como Curitiba, Londrina, Rio de Janeiro, São Paulo e Toledo, além de artistas do Paraguai, Argentina e Colômbia. Em outubro do mesmo ano, uma segunda edição do projeto ocorreu dentro do festival Iguassu Inova, no Itaipu Parquetec, com três novos murais produzidos por nove artistas convidados.

Integrantes da cena tradicional na cidade também organizam o Domingo do Graffiti, iniciativa em que artistas se reúnem periodicamente para revitalizar muros em diferentes regiões da fronteira. O encontro reúne dezenas de artistas de bairros diversos do município e chega a durar o dia inteiro.

Mural feito apenas por mulheres na segunda edição do Beco dos Sonhos no Parquetec. /Foto: Mavi Gualtieri

Wo Loko relembra as origens do hip-hop e do grafite em Foz

Em Foz do Iguaçu, outros artistas também constroem trajetórias a partir de iniciativas independentes, alguns com mais de duas décadas de história. É o caso de Tiago Santiago, uma das assinaturas mais antigas do grafite na região.

Ele relembra que sua entrada no movimento aconteceu no início dos anos 2000, quando teve contato com o Cartel do Rap e com a cultura hip-hop na cidade. “Essa galera se reunia no Jardim Belvedere, na casa do mano Zeu, que compartilhava seus toca-discos e microfones pra galera ensaiar sons autorais e conhecer novidades que chegavam por revistas como a Rap Nacional e o Livro Negro do Graffiti”, conta.

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Segundo ele, aquele era um momento de formação do movimento local. “Quando cheguei, já tinha muita gente rimando, desenhando, discotecando e ensaiando os primeiros passos de dança.”

Encontro de integrantes da Banca C.D.R do hip-hop de Foz do Iguaçu com grafite na pista/ Foto: Wo loko

Com o tempo, o hip-hop iguaçuense se expandiu e se descentralizou. A partir de coletivos como a Banca Forte, surgiram novos núcleos, ampliando o acesso à cultura periférica na cidade.

No grafite, Tiago destaca iniciativas recentes que ajudam a movimentar a cena, como o já citado Beco dos Sonhos e mutirões realizados pelas crews locais Pé Vermeio e Vandalizando Toda City.

Apesar das mudanças tecnológicas e estéticas, ele reforça que a essência do movimento precisa ser preservada. “O hip-hop é orgânico, revolucionário, feito pelo povo para o povo. O que não pode mudar são as raízes e a história.”

Registro de grafite produzido em14 de novembro de 2004/Foto: Wo Loco

Natureza e fronteira inspiram obras de Emi Wenzel

Entre os nomes que ajudam a entender a diversidade da cena local está a artista Emi Wenzel. O contato com o grafite veio por meio de uma relação pessoal, mas rapidamente se transformou em linguagem própria. “Quando tive meu primeiro contato com o grafitti, me apaixonei e nunca mais parei”, conta.

Realização de mural no municipio/Foto: Emi Wenzel

Com uma produção marcada pela paixão por fauna e flora, Emi constrói imagens que dialogam com elementos orgânicos e com a natureza da região. A influência da fronteira aparece menos como tema direto e mais como ambiente que atravessa o processo criativo. “Tem uma energia diferente, um fluxo de gente, de histórias… e também a própria natureza da região pesa muito”, explica.

Obra realizada com inspiração na mãe natureza/Foto: Emi Wenzel

Nos últimos anos, Emi participou de diferentes ações e festivais, entre eles o Beco dos Sonhos, o Nuances Rythmes, ação de intercâmbio entre Brasil e França, além de eventos como o Street of Styles, em Curitiba, e o Colorindo a Rua, em Cianorte. Também atuou em projetos de formação e intervenções locais, como a revitalização da Associação Campus do Iguaçu e uma intervenção artística na horta comunitária da cidade.

A grafiteira também aponta desafios, especialmente na ampliação de espaços e oportunidades. Para ela, é necessário fortalecer iniciativas que valorizem a arte urbana de forma contínua. “Faltam mais espaços abertos, projetos e incentivos. Tem muita gente produzindo coisa boa que só precisa de mais oportunidade pra aparecer.”

Grafiteiras e grafiteiros se unem em eventos especiais/Foto: Emi Wenzel

Arte urbana segue em expansão

Com uma nova edição do Beco dos Sonhos prevista para 2026 e a continuidade de ações coletivas, a arte urbana em Foz do Iguaçu segue em expansão, conectando território, circulação e produção autoral.

A seguir, você poderá observar uma galeria com diversas artes feitas no município e por artistas iguaçuenses em outras cidades, reunindo assinaturas, tags, letras e diferentes ilustrações que marcam as ruas da fronteira.

O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a cena de arte urbana e cultura de rua em Foz do Iguaçu e na região. Artistas, coletivos e projetos podem ser indicados para futuras matérias e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).

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    Lufe Sahn

    Lufe Sahn é jornalista em Foz do Iguaçu, colabora com o H2FOZ na editoria de cultura e arte das Três Fronteiras.

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