Nos labirintos das Três Fronteiras, muitas histórias se entrelaçam e ajudam a contar os 112 anos de Foz do Iguaçu, comemorados neste dia 10. E a da dona Zelina é uma delas. Ela chegou à cidade em 1965, pouco tempo depois da inauguração da Ponte da Amizade. Saiu de Toledo com o marido, colocou a mudança no caminhão e veio para a Terra das Cataratas para “ver o que poderia fazer”.
Depois de acompanhar várias fases de Foz do Iguaçu, a construção das pontes e da Itaipu, o auge da muamba, o primeiro aeroporto, no Gresfi, Zelina de Coelho, 88 anos, agora teve o prazer de ver de perto a arte imitando o que ela viveu.
A casa dela, na Vila Brasília, um ponto cheio de memórias e histórias, pertinho da fronteira com o Paraguai, foi um dos sets de gravação do longa-metragem Vila Pérola, que retrata o ciclo econômico dos sacoleiros e da muamba na região.
No filme, a residência serve de cenário para a casa da mãe do protagonista da trama, que é um sacoleiro. A produção fez adaptações para deixar o lugar com um ambiente típico de uma família que sobrevive da muamba e permaneceu lá por mais de um mês. “Fiquei só com meu quarto, o resto ficou com eles”, diz. Ela revela ter ficado feliz com a movimentação e não teve incômodo algum.
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A rotina da equipe, que tinha mais de 200 pessoas, entre elenco, técnicos e figuração, mudou por um tempo a vida da moradora, a qual se tornou uma observadora especial e acompanhava atentamente a gravação das cenas.
Agora, ela está na expectativa de ver a casa no cinema. O filme, dirigido por Felipe Lovo, tem lançamento previsto para 2027. O longa é uma produção da Três Margens, com coprodução da Viola Filmes, de São Paulo, e da Átomo Produtora, do Paraguai.

Terra de muitas oportunidades
Quando chegou a Foz, Zelina encontrou um lugar de muitas oportunidades. A Ponte da Amizade estava recém-construída, o comércio do Paraguai começava a despontar e o movimento na fronteira aumentava com a construção da BR-277.
Trabalho não faltava. “Terminava uma coisa, pegava outra, dava para fazer tudo, porque não tinha gente”, conta. Não era difícil arrumar uma ocupação. Zelina começou trabalhando com a venda de galinhas, depois plantou grama, inclusive para o prefeito da época, e mais tarde se arrumou ganhando comissão pela venda de terras no Paraguai e fazendo mudanças de colonos.
Era década de 1970 e uma legião de brasileiros começava a cruzar a fronteira para o Paraguai em busca de terras baratas. Sobre esse trabalho, Zelina tem muito a contar. Ela viajava por toda a região — Toledo, Cascavel… — para buscar mudança dos colonos.
“Era engraçado, eu precisava levar a vaca. Eles [fiscais na aduana] não deixavam, e vinha os colonos e falavam: ‘Dona Zelina, eu queria levar a vaca. Como vou dar leite para as crianças?’.”
Segundo ela, após muita resistência da fiscalização, a passagem das vaquinhas foi liberada. “Fizemos uma afronta para a ponte para os colonos levar as vaquinhas”, comenta.
A aposentada também se lembra do impacto da construção da Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu e da chegada dos milhares de trabalhadores à cidade. “Quando a Itaipu veio, deu aquele empurrão.”
Hoje, Zelina é viúva e mora com o filho na Vila Brasília, bairro próximo à fronteira entre Brasil e Paraguai.
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