De onde surgiu a ideia de que podemos descartar pessoas com tanta facilidade? Em tempos de hiperconexão e hipercomunicação, parece que as nossas exigências por concordância se tornaram cada vez mais rígidas — e, na mesma proporção, nossa tolerância ao diferente parece diminuir. Divergir passou a ser, muitas vezes, motivo suficiente para romper vínculos.
Esse fenômeno se torna ainda mais evidente em períodos eleitorais. Grupos de WhatsApp são desfeitos, amizades são rompidas, pessoas são bloqueadas nas redes sociais e relações de longa data são abaladas por discussões políticas e ideológicas. O desacordo deixa de ser parte natural da convivência humana e passa a ser interpretado como motivo para exclusão.
Mas o que temos a perder com essa dinâmica?
Nesta semana, o quadro Quem foi que disse trouxe essa reflexão por meio de um vídeo que simula uma situação cotidiana: um diálogo que revela a impaciência diante das escolhas políticas do outro. Em tom leve, mas provocativo, a produção evidencia um comportamento cada vez mais comum — a tendência de reduzir o outro ao seu posicionamento político, ignorando sua complexidade como indivíduo.
Quando isso acontece, pessoas dotadas de múltiplas experiências, histórias, valores e qualidades passam a ser resumidas a uma única opinião. A divergência deixa de ser apenas um ponto de diferença e passa a definir toda a identidade do outro. Esse movimento revela não somente intolerância, mas também uma certa imaturidade relacional: a dificuldade de sustentar o convívio com aquilo que nos desafia ou nos confronta.
O problema é que, ao restringirmos alguém a uma posição isolada, empobrecemos o diálogo e fragilizamos o tecido social. Relações são interrompidas, espaços de troca desaparecem e a possibilidade de aprendizado mútuo se reduz. O resultado é uma sociedade mais fragmentada, menos aberta à escuta e mais inclinada à polarização.
Todos perdem com isso.
Generalizar uma pessoa a partir de um único ponto de divergência significa abrir mão da complexidade humana em nome da simplificação. Significa substituir o encontro pelo julgamento, a curiosidade pela rejeição e o diálogo pelo afastamento.
Esta reportagem propõe justamente refletir sobre este prejuízo coletivo: o custo de transformar discordâncias em rupturas definitivas e de permitir que diferenças pontuais se sobreponham à riqueza das relações humanas.
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