H2FOZ
Início » Saúde » Mas é só um cachorro. Será?

Saúde

Quem foi que disse?

Mas é só um cachorro. Será?

Por que algumas relações com os animais de quatro patas dizem tanto sobre quem somos?

4 min de leitura
Mas é só um cachorro. Será?

Há mais um quadro do Quem foi que disse? no ar — e, desta vez, tomei a liberdade de fazer a reflexão em primeira pessoa.

Tudo começou com uma imagem aparentemente simples: de um dia para o outro, percebi que meu cachorro estava coberto de pelos brancos.

Publicidade

Aquela mudança me fez parar.

Olhei para ele e pensei no dia em que o resgatei, no reencontro que nos trouxe até aqui, nos momentos de transição da minha própria vida nos quais a presença de um animal ganhou um significado especial. Pensei no quanto essas trocas foram — e continuam sendo — importantes para mim.

Os pelos brancos também me fizeram pensar na passagem do tempo. Na finitude. Na constatação silenciosa de que aqueles que caminham conosco também envelhecem.

E aí vem a pergunta que dá nome ao quadro desta semana: mas é só um cachorro. Será?

Talvez existam olhares que sempre estarão presentes. Principalmente de quem ainda não teve a experiência de construir uma relação profunda com um animal de companhia. Afinal, é difícil dimensionar uma troca que ainda não experimentamos.

Resgatar ou adotar um animal pode representar muito mais do que levar um novo companheiro para casa. Pode acontecer justamente em momentos de mudança e transição. Na minha história, essas adoções atravessaram diferentes fases: da infância para a adolescência, da adolescência para a vida adulta e, mais tarde, em momentos em que eu já conseguia olhar para essa relação de maneira mais madura.

Publicidade

E foi justamente ao olhar para essas diferentes experiências que uma coisa ficou cada vez mais clara para mim: a nossa linguagem é extremamente rústica diante da riqueza das trocas que estabelecemos com os animais.

A palavra, tão importante na nossa comunicação cotidiana e tão valorizada também na psicologia, parece pequena quando tentamos utilizá-la para explicar determinadas experiências. Porque, com os amigos de quatro patas, muitas vezes não estamos trocando palavras. Estamos trocando sentimentos.

Há comunicação no olhar, na presença, na aproximação, na espera, no reconhecimento, nos silêncios, nos gestos e em tantas outras manifestações que não dependem da palavra para acontecer. E talvez seja justamente essa dimensão não verbal que torne essa relação tão potente.

Também por isso, este quadro não fala apenas da minha experiência. Ele é uma lembrança das centenas de milhares de animais abandonados mundo afora e, de maneira muito concreta, dos tantos animais abandonados pelas ruas de Foz do Iguaçu, cidade onde realizamos o Quem foi que disse?.

Assista ao novo episódio:

Despertar para essa amizade com os animais de quatro patas também pode ser um exercício de olhar. De não fechar os olhos para aquilo que está diante de nós. Porque a maneira como reagimos ao sofrimento e ao abandono de outras formas de vida também diz alguma coisa sobre nós.

Quando existe uma história compartilhada, uma presença que acompanha fases da vida, uma relação construída ao longo dos anos e uma troca de sentimentos que nem sempre precisa de palavras, talvez “só um cachorro” seja uma expressão pequena demais para dar conta do que realmente está acontecendo.

E os pelos brancos que me fizeram parar diante do meu próprio cachorro acabaram lembrando-me disto: o tempo passa, nós mudamos, eles mudam conosco — e algumas amizades nos transformam de maneiras que a palavra, por mais importante que seja, nem sempre consegue alcançar.

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    [cf7sr-recaptcha]

    Você lê o H2 diariamente?
    A partir de R$5,00 por mês. Cancele quando quiser.
    Isabela Collares

    Isabela Collares

    Isabela Collares é jornalista em Foz do Iguaçu e apresentadora do quadro "Quem foi que te disse?".

    Deixe um comentário