A relação entre o ser humano e os cães é uma das mais antigas da nossa história. Estudos indicam que a convivência entre o Homo sapiens e os ancestrais dos cães começou há pelo menos 15 mil anos — antes da agricultura, antes das cidades, antes mesmo da ideia de civilização como a conhecemos hoje.
Desde então, os cães ocuparam diferentes lugares: ajudaram na caça, na proteção, no pastoreio, na sobrevivência. Mas, sobretudo, aprenderam a viver conosco. Desenvolveram uma capacidade singular de leitura emocional, de vínculo, de presença. Não por acaso, hoje são reconhecidos também como aliados na promoção da saúde mental, no cuidado emocional e na redução do estresse e da solidão.
Essa relação histórica, no entanto, também escancara algo menos confortável: a maneira como tratamos aqueles que dependem de nós.
Assista ao novo episódio:
O recente caso do cachorro Orelha, em Florianópolis — morto de forma violenta por quatro adolescentes —, provocou uma reação intensa e dividida. De um lado, pessoas profundamente sensibilizadas, pedindo justiça, responsabilização e refletindo sobre os limites da violência. De outro, manifestações de incômodo ou tentativas de minimizar o ocorrido, defendendo que “há assuntos mais importantes” a serem discutidos.
Essa divisão não é aleatória. Ela diz menos sobre o caso em si e mais sobre o nosso funcionamento psíquico enquanto coletividade.
Tragédias como essa funcionam como espelhos. Elas nos obrigam a olhar para temas que preferimos evitar: empatia, violência, banalização do sofrimento e, principalmente, a forma como lidamos com os mais vulneráveis.
Animais não têm linguagem discursiva, não possuem recursos jurídicos, não conseguem pedir ajuda, não conseguem defender-se. Quanto menor o poder de discernimento e de autoproteção, maior é a vulnerabilidade. Esse é um critério que não vale apenas para os animais, mas também para crianças, idosos, pessoas adoecidas, pessoas em sofrimento psíquico.
Quando a violência contra um ser vulnerável não nos afeta — ou quando tentamos silenciá-la rapidamente —, talvez não seja porque “há temas mais importantes”, e sim porque nos falta escuta. Falta-nos tempo psíquico para sustentar o desconforto que certas realidades provocam.
O caso do Orelha e este episódio do Quem foi que disse nos convidam, portanto, a uma pergunta que vai além da indignação momentânea: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de enxergar o outro?
Seja ele da mesma espécie ou de outra, reconhecer a vulnerabilidade alheia é um dos pilares da saúde mental coletiva. Uma sociedade que naturaliza ou relativiza a violência contra quem não pode defender-se precisa, urgentemente, refletir sobre seus próprios limites éticos, emocionais e simbólicos.
Talvez o maior legado dessa tragédia não esteja apenas no pedido por justiça, mas na oportunidade de repensarmos nossa capacidade de escuta, de cuidado e de responsabilização — valores que não se restringem à causa animal, dizem respeito a quem somos enquanto grupo.
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