Se alguém perguntar quem você é, provavelmente a resposta virá rápido: seu nome, sua profissão, talvez sua idade, o lugar onde mora ou algum papel que desempenha na vida. “Sou professora.” “Sou médico.” “Sou mãe.” “Sou empresário.” “Sou aposentada.”
São respostas corretas. Mas será que são suficientes?
A pergunta “quem é você?” parece simples justamente porque estamos acostumados a respondê-la com informações objetivas. O problema é que saber o nome de alguém não significa conhecer essa pessoa. Saber sua profissão também não. Afinal, existe uma diferença importante entre o que fazemos, os papéis que desempenhamos e quem somos.
A psicologia oferece diferentes caminhos para pensar essa questão. A identidade não é construída apenas a partir de características isoladas, mas também da maneira como a pessoa se percebe, interpreta sua própria história, estabelece valores, constrói vínculos e atribui significado às experiências que vive.
Isso significa que existe um “eu” que vai muito além do currículo.
E talvez uma das perguntas mais interessantes seja justamente esta: quanto daquilo que você chama de “eu” é realmente você e quanto é resultado das expectativas que aprendeu a atender?
Desde cedo, somos identificados por categorias: menino ou menina, filho ou filha, bom aluno ou aluno difícil… Depois vêm profissão, estado civil, maternidade, paternidade, cargo, status, desempenho, patrimônio… Aos poucos, podemos construir uma identidade tão apoiada nos papéis que desempenhamos que fica difícil perceber quem somos quando nenhum desses papéis está em funcionamento.
A filosofia já se ocupa dessa inquietação há muito tempo. Pensadores de diferentes épocas perguntaram o que constitui a identidade pessoal, o que significa existir e o que permanece de nós enquanto mudamos ao longo da vida.
A pergunta, portanto, não é somente “qual é a minha profissão?”. É também: de onde vim?, o que me constitui?, o que considero importante?, por que faço determinadas escolhas? e para onde estou levando a minha própria existência?
Imagine, por alguns instantes, observar a própria vida como se você estivesse distante da Terra. De longe, aquela reunião que parecia urgente perde tamanho. A discussão de ontem já não ocupa tanto espaço. A preocupação com a opinião de determinada pessoa parece menor. A agenda continua existindo, porém deixa de ser o centro absoluto da experiência.
Esse exercício imaginativo pode produzir uma mudança interessante de perspectiva.
Porque passamos boa parte do dia perguntando: o que vamos fazer?, o que vamos comer?, onde precisamos ir?, quem precisamos encontrar?, o que precisamos resolver?, qual tarefa vem depois?
Contudo, com que frequência paramos para perguntar quem está fazendo tudo isso?
Não se trata de encontrar uma definição definitiva para a própria identidade. Talvez ela nem exista de maneira completamente acabada. Somos atravessados por histórias, relações, escolhas, mudanças e contradições. A pessoa que somos hoje não é exatamente a mesma que fomos 10, 20 ou 30 anos atrás.
Ainda assim, existe valor em observar esse processo.
Perguntar “quem sou eu?” pode ajudar a perceber se estamos vivendo de acordo com aquilo que realmente valorizamos ou só reproduzindo expectativas. Pode revelar papéis que já não fazem sentido, escolhas que precisam ser revistas e características que incorporamos sem nunca questionar.
Quem estou tornando-se?
Provavelmente esta seja uma das melhores maneiras de lidar com a questão da identidade: em vez de procurar uma resposta definitiva, observar o processo.
Quem você é aparece, em parte, naquilo que você escolhe repetir. Mas também naquilo que decide transformar.
No fim, a pergunta “quem sou eu?” não é um problema que precisamos solucionar.
Pode ser uma pergunta que precisamos aprender a sustentar.
Quando deixamos de responder automaticamente, começamos a prestar atenção na própria existência.
E isso já muda alguma coisa.
Faz sentido?
Assista ao novo episódio:
O Quem foi que disse? é uma realização do H2FOZ em parceria com o Instituto Polo Iguassu.

