Vivemos a era do “eu mereço”. Depois de um dia estressante, muita gente se autoriza um doce, uma bebida a mais, algumas horas nas redes sociais ou uma compra por impulso. O discurso parece inofensivo — afinal, cuidar de si é importante. Mas é justamente nesse ponto que surge uma confusão cada vez mais comum: o que é autocuidado de verdade e o que é apenas uma forma sofisticada de autoengano?
O Quem Foi Que Disse desta semana debate justamente isto: talvez o problema não esteja no prazer em si, mas na lógica que o sustenta. Quando o merecimento passa a ser sempre imediato, ele pode deixar de ser reconhecimento por esforço real e transformar-se em dependência da descarga rápida de dopamina — aquele alívio momentâneo que vem do açúcar, do álcool, das telas, das compras ou do consumo excessivo de estímulos. A sensação é boa na hora, porém curta. E, muitas vezes, vem acompanhada de cansaço, culpa ou frustração logo depois.
Assista o novo episódio:
Nesse contexto, muitas pessoas acreditam estar cuidando-se, quando na verdade estão apenas mimando-se. E não por acaso o verbo mimar ganhou tanto espaço no vocabulário contemporâneo. Ele remete ao universo infantil, à ideia de recompensa sem critério, à dificuldade de lidar com frustração e limite. O adulto que se mima constantemente tende a banalizar a própria trajetória: alivia o desconforto do presente, contudo compromete planos de médio e longo prazo — seja na saúde, na vida financeira, nos projetos pessoais ou profissionais.
O resultado costuma aparecer com o tempo. A vida segue, os dias passam, e os resultados mais consistentes não chegam. Não por falta de capacidade, mas porque o caminho foi constantemente interrompido por atalhos de prazer imediato. O autocuidado, quando confundido com indulgência contínua, pode tornar-se uma forma sutil de autocorrupção: a pessoa negocia consigo mesma o tempo todo e quase sempre perde no longo prazo.
Cuidar de si, de fato, nem sempre é confortável. Às vezes, autocuidado é dormir mais cedo em vez de rolar a tela sem fim. É dizer não a mais um estímulo. É abrir mão, temporariamente, de algo que dá prazer imediato para sustentar algo maior adiante. Abster-se também é cuidado. Discernir limites, tolerar pequenos desconfortos e sustentar escolhas alinhadas a objetivos mais amplos faz parte de uma relação madura consigo mesmo.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “o que eu mereço agora?”, e sim: “Isso que estou chamando de autocuidado está fortalecendo-me ou apenas anestesiando-me?” A resposta costuma revelar se estamos realmente cuidando-nos ou somente mimando-nos.
Boas reflexões!
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