Lacunas no planejamento e construção da Perimetral Leste e na duplicação da Rodovia das Cataratas (BR-469) foram debatidas em audiência pública realizada na noite dessa terça-feira, 26, na Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu. O debate contou com a presença de moradores, lideranças de bairros, engenheiros e urbanistas.
Falhas graves em ambos os projetos foram apontadas, principalmente pelo fato de o planejamento ter priorizado veículos em vez das pessoas e desconsiderar o ambiente urbano. Na Rodovia das Cataratas, pedestres são obrigados a pular muretas para cruzar a via, e na Perimetral Leste a falta de acesso faz com que os motoristas precisem transitar por longas distâncias.
Presidente da Associação de Moradores do Novo Horizonte, Cleuza Bazé disse que a Rodovia das Cataratas vem trazendo insegurança, isolamento e risco para os moradores da Vila Carimã, Novo Horizonte, Anita Garibaldi, Mata Verde, Arroio Dourado e Buenos Aires.
“As pessoas são obrigadas a correr entre veículos e pular as muretas. Foi uma obra planejada sem garantir o básico: segurança e dignidade.”
Presidente da Associação de Moradores do Bairro Buenos Aires, Rafael Cabanha reconheceu que imóveis da região estão sendo valorizados, contudo a população local sofre diariamente e há idosos que precisam fazer longas caminhadas. “Hoje, levamos o dobro do tempo para sair do bairro.”
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Moradora do Jardim Alvorada, Alessandra Soares disse não há acessos para chegar aos postos de saúde na região do Três Lagoas. “Eu, como mãe, levo meus filhos ao Morumbi porque não me sinto segura em passar pela BR-277. Não tem iluminação, faltam placas, a velocidade é grande”.
Vias de alta velocidade em perímetro urbano
Professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), conselheira do Concidades-Foz e moradora da Mata Verde, Patrícia Zandonadi questionou os projetos de vias de alta velocidade em perímetro urbano.
“Ainda em 2026, a gente está pensando em vias na cidade para carro com cabeça rodoviarista. Um projeto deste, tanto da avenida das Cataratas quanto da perimetral, teria que ser refeito na minha disciplina”, mencionou.
Para ela, tanto a Perimetral Leste quanto a Rodovia das Cataratas foram projetadas dentro de perímetro urbano. Por isso, não podem ter o mesmo desempenho de uma rodovia fora do perímetro.

Ela também apontou que o projeto foi feito sem via exclusiva de transporte público e sem pensar em pontos de ônibus decentes. Para Patrícia, é preciso readequar as rodovias para o funcionamento urbano.
Sobre a solução de passarelas, a professora ainda observou que essa alternativa já vem sendo estudada no meio urbanístico, porém estudos mostram que não funcionam porque o objetivo é a circulação de veículos. Ela perguntou: “Como reconectar a cidade, que foi fragmentada por esses grandes eixos de deslocamentos de mercadorias?” Também pontuou que banhados na região da Rodovia das Cataratas estão sendo drenados e futuramente haverá inundações.
Morador do Três Lagoas, Luiz Carlos Wandscheer questionou a falta de participação popular nos projetos. “Em 2026, a gente está tendo problemas como esses por falta de conversar. Nada da coisa pública tem razão de ser se não ouvir a raiz, que são os moradores das localidades.”
Presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Diogo Marcel disse que houve discussões sobre projetos via Comtur e Conselho do Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu (Codefoz), assim como pareceres do ICMBio, principalmente em relação à BR-469, condenando o projeto. Porém, as sugestões não foram ouvidas.
Caminhões pelos bairros e riscos para os moradores
Moradores da região do Três Lagoas relataram diversos transtornos em razão do aumento de circulação de caminhões em algumas áreas do bairro e o risco de atropelamentos. Também indicaram a necessidade de fazer contornos longos para acessar certos locais.
Morador do Alvorada, Luiz Fernando Bazanela pediu para que a rua Leopoldo Calegario ou a rua Urano, com acesso à Perimetral Leste, sejam reabertas, para desafogar o fluxo de caminhões.
Outra reclamação foi o estabelecimento do fluxo de mão única nas vias marginais na entrada da cidade na região da Perimetral Leste.
Chefe local do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), Marcos Soares da Costa informou que se optou pelo estabelecimento da mão única por questões de segurança.

Em relação aos bloqueios estabelecidos ao longo da Perimetral Leste, ele também justificou a medida por questão de segurança. Um dos locais fechados, citou, tem acesso da rodovia para a marginal e da marginal para a rodovia. Pelo fato de esses acessos estarem de frente para outro, motoristas estavam cruzando de um lado para outro. Em outros pontos, havia trânsito na contramão.
Nos pontos mais próximos à República Argentina, a empresa se dispôs a implantar uma solução e comentou que a questão está sendo tratada com urgência. Também foram lembrados mortes já registradas na Perimetral, a exemplo de um adolescente atropelado.
Projeto sem passarelas
Engenheiro do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR), Charles Urbano admitiu a necessidade de fazer passarelas na rodovia.
“Quando a gente olha o projeto rodoviário, a gente olha com olhar rodoviário, não olhar urbano. A gente quer resolver a solução da rodovia. Se a gente for olhar tudo, não consegue fazer tudo.” Por isso, completou, é necessário ajuda da população, do município e das secretarias de Planejamento e Obras.
Em relação às passarelas da Rodovia das Cataratas, ele reconheceu que não estavam previstas no projeto original.
Segundo Costa, o DNIT local tem brigado pela priorização da demanda. Os projetos, realçou, estão em fase final da adaptação para pista dupla. Ele prevê que, até o final de junho, devam estar finalizados.

