Bosque dos Macacos: tombado pelo descaso

O desmatamento de área junto do Bosque dos Macacos vai repercutir negativamente na qualidade de vida do entorno, interferindo no microclima. Foto: Marcos Labanca

Aida Franco de Lima – ARTIGO

“Patrimônio histórico de Foz já tem 11 imóveis para tombamento” divulgou a Prefeitura de Foz do Iguaçu há cerca de um ano, mais exatamente em 24 de maio de 2021. E no rol de bens a serem preservados estava o Bosque dos Macacos. Porém, o tempo dos meandros burocráticos é muito diferente do mercado imobiliário e da vida dos animais ditos irracionais. Assim, enquanto o processo de tombamento para fins de preservação ocorre em ritmo de um simpático bicho preguiça, o verbo tombar, na perspectiva de levar por terra, é tão rápido como um guepardo.

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Mas, por essa ótica, só o fato de o Bosque dos Macacos estar listado como bem a ser preservado, deveria haver um cuidado especial em relação à autorização de quaisquer intervenções que pudessem impactá-lo. Aliás, desde o momento que é feito o pedido de tombamento para fins preservacionista, não é permitido derrubar mais nada!

E mais, há um dispositivo legal que diz que o entorno de um bem tombado requer especial atenção para que não interfiram na visibilidade do mesmo. Mesmo ladeado de normas jurídicas que, teoricamente o protegeriam, o Bosque dos Macacos, já sofreu um grande strike, aquela jogada no boliche em que em uma tacada só todos os pinos caem. Porém, no lugar dos pinos, macacos e árvores; e da bola, a motosserra! Tombam todos, inclusive eu que escrevo, você que lê, concordando ou não.

O local que antes era protegido por árvores deu lugar a um amontado de terra nua, por onde os macacos transitam indo do nada a lugar algum. Vídeo: José Luiz Pereira

Como tratei no artigo Bosque dos Macacos: faltou combinar com os bichos animal não sabe que um lado da mata é de propriedade pública e do outro particular. Pelo visto nem quem ‘caneteou’ e nem quem derrubou a mata sabe! Tanto é que precisou a derrubada começar, a população se manifestar para a obra ser embargada temporariamente, a fim de que sejam delimitados o que é de quem, para que cada macaco fique no seu galho, com exceção dos legítimos moradores, os primatas. Só agora que vai ser feita uma análise para verificar o dano provocado com as árvores que, ao serem cortadas, tombaram para dentro da mata que restou. É como se fosse um strike, de novo.

Tem uma frase do Millôr Fernandez que diz: “O homem é o único animal que ri e rindo, mostra o animal que é”. O único animal que ri é o único que ameaça a vida de todos os demais, do Planeta inteiro. O único animal que mata por prazer, não por instinto de sobrevivência. O prazer em acumular riquezas está destruindo nosso único habitat: a Terra. O único habitat dos macacos do Bosque dos Macacos é justamente o Bosque dos Macacos! Que riso mais triste, não tem graça nenhuma!

O vídeo que segue, diferente do que um internauta provocou na postagem original, não se trata apenas de macacos passeando. São animais vagando na terra que antes era tomada de árvores, onde se abrigavam. É como chegar em casa e não haver telhado, entrar no prédio e não encontrar apartamento. Só desolação. Há macacos, mas não há galhos.

Derrubada de árvores abriu uma fenda bem no meio da área verde – Foto: Marcos Labanca

O potencial destruidor de uma retroescavadeira engole em minutos aquilo que a natureza leva décadas para desenvolver. E é muito vergonhoso que, muitas vezes, a mata que foi destruída pra dar lugar a imóveis, tem seu resto usado como marketing verde. Nas campanhas de venda, os novos inquilinos serão convidados a residir vizinhos de uma área verde, sem lembrar que na verdade são intrusos.

E agora José? Adianta chorar sob a mata tombada? Claro que sim. Devemos usar esse vergonhoso exemplo para que tal erro não seja mais repetido. O Poder Púbico, ou quem sabe pessoas deveria tomar conta da área, fechar tudo, plantar espécies nativas adultas, enxertadas, ou o que for. Reunir todos os responsáveis para dar aval a um ato insano como esse.

Colocar essa imagem da destruição em destaque na sala de quem assina autorizações de desmatamento justificadas pelo replantio de espécies que nem sabemos se irão vingar, florescer. Deixar essa imagem como lição de casa para que os (ir) responsáveis compreendam os significados do termo ‘tombar’.

Do contrário, estaremos tombando a cada dia o bem mais sagrado que as demais espécies, com exceção do homem, valorizam: a vida. Se assim não for, a natureza que não vinga e floresce, se vinga e pede a conta, e essa costuma doer na parte mais sensível do homem: o bol$o.

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Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo da autora.