Só nesses dois ônibus, havia R$ 200 mil em mercadorias trazidas ilegalmente do Paraguai. Foto RF

Muamba em alta. Sacoleiros em peso. E aumentam as apreensões

Só ontem, terça-feira,  as equipes de fiscalização da Receita Federal apreenderam quatro carros e três ônibus.

Dentro de todos eles, muita muamba. No total, avaliada em R$ 290 mil. Eram eletrônicos e vestuários, entre outros itens.

ADIÓS?

“Adiós, sacoleiros”, decretou a revista Veja, em edição de novembro do ano passado.

E explicava, entre outros problemas, o que causava o fim dos chamados sacoleiros.

Entre outros motivos, aperto na fiscalização, dólar alto e concorrência direta com importados no centro de São Paulo.

Afirmações corretas. Mas nada como o tempo para dissipar verdades absolutas. E criar outras.

E a outra realidade está na Ponte da Amizade e nas rodovias que ligam Foz ao Paraná e ao Brasil.

AS APREENSÕES

Antes de falar desta outra realidade, vamos ao que a Receita Federal informou sobre as últimas apreensões.

Na terça-feira, pouco antes das 10h, foi retido um ônibus no posto da Polícia Rodoviária Federal em Santa Terezinha de Itaipu.

No bagageiro, havia mercadoria importada que estava sendo levada ilegalmente para Maringá. Na maioria, eletrônicos, avaliados em R$ 60 mil.

Duas horas depois, próximo ao Castelinho, na BR-277, foram abordados dois veículos, carregados de vestuários, que seriam vendidos em Mamborê.

Nos dois carros, vestuários vindos do Paraguai. Foto RF

À noite, por volta das 20h, no posto da PRF em Céu Azul, mais dois ônibus retidos.

A fiscalização localizou nos bagageiros cerca de R$ 200 mil em mercadorias estrangeiras.

Os quatro carros e os três ônibus foram apreendidos, bem como as mercadorias. Mas ninguém foi preso.

Descaminho é um delito financeiro. Diferente de contrabando, que é crime por envolver produtos proibidos.

Por isso, como de praxe, haverá, representações ao Ministério Público, que irá apurar os ilícitos dos muambeiros.

“FORMIGUINHAS”

A RPC mostra reportagens, esta semana, dando uma dimensão do que é a vida do contrabandista, hoje, e dos fiscais.

Os primeiros são muitos, cheios de esquemas que se aperfeiçoam dia a dia.

Já a fiscalização, mesmo que pudesse, não conseguiria dar conta de tanta muamba que entra no Brasil.

Fora, claro, drogas, armas e munições.

O QUE MUDOU?

Não é preciso ser nenhum especialista para entender algumas das causas pra esse aumento do contrabando, do descaminho e do número de pessoas que se arriscam a perder dinheiro na atividade.

Qual é o maior problema? Ele se chama crise. Foi assim durante os anos 1980. Foi assim nos anos 1990.

E continuou ao longo dos anos 2000, até chegar a um ponto em que o dólar, alto, começou a tornar impossível a vida do sacoleiro.

Eles foram sumindo. E os ônibus “de turismo” quase desapareceram das rodovias que cortam o Estado.

Agora, veio a crise “dos 2020”, agravada pela pandemia, que deixou milhares de brasileiros à míngua.

De novo, comprar no Paraguai pra revender aqui tornou-se uma opção para ganhar algum dinheiro.

O dólar, sempre vilão, agora entrou em queda, talvez duradoura.

E o descaminho vai se multiplicar.

QUANTO POR CENTO?

Difícil estimar quanto do que entra ilegalmente no Brasil acaba em prejuízo pro contrabandista ou muambeiro.

Também é difícil estimar o prejuízo que sofrem os comerciantes brasileiros e o próprio fisco com a entrada de produtos sem pagamento de impostos e taxas.

Fácil é entender que a atividade é lucrativa, ou não haveria verdadeiras máfias em ação na fronteira, com depósitos e centenas de integrantes.

Até os mototaxistas estão nessa, como mostrou a reportagem da RPC.

Eles fazem o contrabando formiguinha. Cada um leva apenas um produto por vez. Em 10 viagens, por exemplo, passam 10 celulares caros.

Mas o pior nem é este tipo de esquema.

CIGARROS E DROGAS

Armas, drogas e cigarros, três flagelos para a segurança pública. Foto PRF

Grave mesmo é que no Brasil entra ilegalmente uma quantidade de cigarros que já respondem por quase metade do mercado nacional.

Neste caso, quem ganha dinheiro não é o “laranja”, o transportador. O contrabando de cigarros rende muito para o crime organizado.

O dinheiro obtido é mais uma forma de financiar outro esquema ainda mais lucrativo: o tráfico de drogas.

Que bom se a gente pudesse dizer: “adiós, cigarreiros”, “adiós, traficantes”.

Mas nem num “adeus, sacoleiros” a gente acredita.

Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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