Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Tive a infeliz experiência de trabalhar com narcisistas. Alguns eu nem sabia que eram, pois, há algum tempo, isso não era tão evidenciado. Também tive experiência no ensino médio, que me deixou com profundo bloqueio em Matemática — e já até falei disso aqui.
Depois de algum tempo, conheci o termo e vi muita gente próxima passando por isso também e comecei a ler relatos assustadores. Mas o que acontece quando o caso é judicializado? Em dois casos muito próximos, essa questão me chamou especialmente atenção. Em um deles, uma mãe faz de tudo para afastar o filho do pai. Em outro, um professor manipula um ex-aluno, autista, com altas habilidades. Nessa condição, o professor coordenou uma ação judicial para assegurar a seu tutor créditos de trabalho de terceiro. Mesmo que isso prejudicasse a coletividade, mesmo que o trabalho pronto lhe conferisse honras e benfeitorias.
Sabotar e manipular faz parte da trama narcisista. E como age o Judiciário em casos assim? Essa pergunta me inquieta, porque o Judiciário trabalha, necessariamente, com aquilo que chega aos autos. Documentos, depoimentos, perícias, testemunhos, petições. É preciso transformar uma história complexa em fatos que possam ser demonstrados. E é justamente aí que determinadas formas de manipulação podem encontrar terreno fértil.
- Quem manipula nem sempre grita, ameaça ou deixa provas explícitas. Pode, ao contrário, apresentar-se como alguém extremamente coerente, preocupado, organizado e até injustiçado. Pode selecionar fatos, omitir contextos, provocar reações e depois utilizar essas mesmas reações como prova contra o outro. É uma engenharia da narrativa em que o narcisista é um ótimo ator.
E o processo judicial também é construído por narrativas. Cada lado apresenta a sua versão dos acontecimentos e tenta sustentá-la com provas. O problema surge quando uma das partes possui grande habilidade para manipular pessoas, acontecimentos e percepções. Como distinguir um conflito comum de uma relação marcada pela manipulação? Como perceber quando alguém aparentemente está defendendo um direito, mas, na realidade, está utilizando o próprio sistema para controlar, punir ou prejudicar outra pessoa? E existe ainda uma questão mais delicada: pessoas vulneráveis podem ser utilizadas dentro dessas disputas. O narcisista que quer sempre ser a estrela principal em tudo, para atingir tal objetivo, atua nos bastidores. Um processo não leva necessariamente seu nome, mas pode ser todo construído por ele, incitando um “laranja” a seguir seu roteiro.
Uma criança envolvida no conflito entre os pais, por exemplo, não deveria transformar-se em instrumento de vingança entre adultos. Da mesma forma, uma pessoa autista ou com outras características que possam torná-la mais suscetível a determinadas relações de confiança não deveria ser tratada apenas como personagem secundário de uma disputa judicial. É necessário compreender o contexto em que suas decisões foram construídas, sem retirar sua autonomia. Isso exige muito cuidado.
Também não se trata de esperar que juízes façam diagnósticos psicológicos. “Narcisista” se tornou uma palavra extremamente popular e, muitas vezes, usada de maneira indiscriminada. Transtorno de personalidade narcisista é diagnóstico clínico e não deveria ser atribuído simplesmente porque alguém apresenta comportamento egoísta, controlador ou manipulador. Contudo, não é papel do Judiciário diagnosticar alguém para reconhecer comportamentos.
Não é necessário escrever em uma sentença que determinada pessoa é narcisista para perceber padrões de controle, contradições, tentativas de isolamento, apropriação do trabalho alheio, desqualificação sistemática de terceiros ou utilização instrumental de pessoas vulneráveis. É sobre os fatos que o olhar precisa estar atento.
Talvez esteja aí uma das questões mais importantes: o Judiciário não precisa julgar personalidades, precisa estar preparado para reconhecer comportamentos e suas consequências. E isso pressupõe ouvir mais do que a versão aparentemente mais convincente.
Pressupõe observar a cronologia dos acontecimentos, confrontar documentos, identificar contradições, compreender relações anteriores ao processo e, quando necessário, recorrer a profissionais especializados. Porque uma decisão judicial não encerra apenas um processo. Em determinadas situações, ela pode legitimar uma narrativa.
E, quando uma narrativa manipulada recebe a chancela institucional do Estado, suas consequências podem ser muito maiores do que uma vitória ou uma derrota dentro de um processo. Pode significar afastar definitivamente pessoas que deveriam conviver. Pode atribuir autoria, mérito ou responsabilidade a quem não corresponde aos fatos. Pode reforçar relações de poder que já eram desequilibradas antes mesmo de chegarem ao Judiciário.
Por isso, talvez a pergunta não seja somente “como o Judiciário lida com o narcisista?” A pergunta que considero mais importante é outra: como o Judiciário pode impedir que a Justiça se transforme em mais uma ferramenta nas mãos de quem sabe manipular? E você, já lidou com situações assim? Comparo narcisista com aqueles caminhões de carga tóxica e perigosa, cuja recomendação é: mantenha distância segura.
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