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Família Bolsonaro x Brasil: entre gols contra e bolas nas costas

Em época de Copa do Mundo e eleições, o que está em jogo é de fato a soberania do Brasil.

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Família Bolsonaro x Brasil: entre gols contra e bolas nas costas
Vídeo de Michele Bolsonaro e carta de Marcos Rúbio balançam as redes do jogo eleitoral. Foto: IA

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Pouco antes de a bola rolar para o Brasil, Michelle Bolsonaro entrou em campo. O cenário lembrava um pronunciamento presidencial, só faltavam a cadeira oficial e a Bandeira do Brasil. O restante do campo estava cuidadosamente marcado por símbolos destinados a conversar com os seus.

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O gesto do “eu te amo” em Libras — que muita gente ainda confunde, equivocadamente, com o do heavy metal —, a estrela de Israel, o mapa dos diretórios do PL (Partido Liberal) ao fundo, a camiseta estampada com palavras de amor, inúmeros diplomas estrategicamente posicionados, um colar que lembrava um rosário e tantos outros elementos compunham uma cenografia pensada nos mínimos detalhes. Inclusive a caneta Bic, para relembrar o “Mito” e dizer “sou igual a você”, afinal quem nunca usou uma Bic que jogue primeira bolinha de papel! Apesar de que se esqueceram de colocar o bloco de anotações.

A fala parecia espontânea, quase uma conversa de vestiário. Mas tinha o ritmo de uma jogada ensaiada. O teleprompter, equipamento que projeta o texto para que o orador leia olhando diretamente para a câmera, simulava conversa de pé de ouvido, sem demonstrar que está lendo. Um recurso comum na comunicação política, mas que, naquele contexto, reforçava a impressão de que cada palavra, cada pausa e cada símbolo haviam sido treinados “suadamente”, como um jogador em reabilitação e com sangue nos olhos.

Na política, assim como no futebol, há jogadas que parecem improviso, mas nasceram muito antes nas várzeas, nos jogos de conversa, nas jogadas sem VAR.

O uniforme sujo da família foi lavado em uma arena pública. O resultado foi curioso: torcida rival histórica da ex-primeira-dama ficou histérica e aplaudiu em pé, enquanto parte da organizada assistia silenciada, sem saber se pedia pausa para hidratar os neurônios.

Se o primeiro lance foi um bate-rebate na pequena área, o segundo atravessou o Atlântico. Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, pernas direita e esquerda de Trump, respondeu à carta enviada por Flávio Bolsonaro agradecendo o apoio, mas avisando que as tarifas contra produtos brasileiros continuam de pé.

Enumerou diferenças comerciais, citou o PIX, o nosso time nacional, etanol, propriedade intelectual e até desmatamento ilegal. Curioso ouvir lições ambientais de um governo que abandonou o Acordo de Paris e ressuscitou até os canudos plásticos como bandeira política. Ironias da geopolítica também costumam jogar pelas pontas.

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Contudo, a bola nas costas veio quase como nota de rodapé. Rubio agradeceu a “generosa oferta” de Flávio de disponibilizar uma equipe de transição aos Estados Unidos caso seja eleito presidente. A frase parece simples, porém abre uma cratera na arquibancada e se estende ao meio de campo. Desde quando equipes de transição são organizadas entre um candidato e outro país? Tradicionalmente, elas servem para a passagem de governo entre quem sai e quem entra dentro do próprio Estado brasileiro, preservando a continuidade institucional.

Em ano de Copa, enquanto a torcida espera dribles, estratégia e defesa do interesse nacional, alguns jogadores parecem ensaiar tabelas antes mesmo de conquistar a posse da bola. E, quando um secretário de Estado estrangeiro já agradece a oferta de futura equipe de transição de um candidato, a pergunta deixa de ser esportiva para tornar-se institucional: transição para qual governo, exatamente? Estaremos diante de uma jogada combinada, que não era para sair do treino sigiloso e vazou para a mídia?

Na política, como no futebol, nem sempre quem comemora primeiro vence a partida. Mas há um princípio que atravessa qualquer campeonato: camisa de seleção não se veste para marcar contra o próprio time. E, nesta semana, o placar da narrativa ficou menos importante do que a imagem do lance. Há gols que levantam estádios. Outros apenas deixam a torcida olhando para o telão, tentando entender quem, afinal, chutou contra qual gol.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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