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Não vem pra Caixa não!

A dificuldade para acessar os serviços da Caixa Econômica Federal penaliza ainda mais idosos e pessoas com deficiência motora.

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Não vem pra Caixa não!
Além da dificuldade para alcançar o caixa, há o problema do reflexo na tela que compromete a visão. Foto: Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Há dias em que a gente descobre que alguns dos obstáculos atuais para quem é idoso ou tem ou está com alguma deficiência motora ou está acamado não são somente a tecnologia, nem o aplicativo, nem a burocracia. É a indiferença.

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Entrei na Caixa Econômica Federal de Cianorte, agência nova, recém-inaugurada na área que no passado era ocupada por linhas de trem, acreditando que resolveria um problema simples da minha mãe, de 87 anos, que aguardava no carro, porque não pode permanecer muito tempo na mesma posição por recomendação médica. Saí de lá com a amarga sensação de que, para alguns, envelhecer é quase perder o direito de ser enxergado. O aplicativo não foi o único que travou. A empatia também estava fora do ar.

O cartão foi extraviado. E para instalar o aplicativo, este orientava a ir até o caixa eletrônico mais próximo. Não sabíamos que, mesmo estando diante, literalmente, da Caixa, as coisas pareceriam tão distantes.

Na entrada da agência, três atendentes. Três. Nenhuma delas demonstrou interesse em compreender o que eu dizia. Expliquei a mesma situação três vezes, porque a informação parecia uma bola quente: uma passava para a outra, a outra devolvia para a terceira, e ninguém realmente escutava. Não havia fila. Não havia tumulto. Não havia uma multidão implorando por atendimento. Havia apenas duas pessoas próximas à mesa. Faltava demanda? Não. Faltava vontade. E vontade, ao contrário da senha, não depende do sistema para ser emitida.

  • A solução encontrada foi a mais confortável para quem não queria resolver nada: “Pegue uma senha preferencial.” Preferencial… Como são curiosas algumas palavras. Há termos que brilham na placa, mas morrem na prática. Depois de quase 50 minutos de espera, perguntei quanto tempo ainda levaria, porque minha mãe estava aguardando do lado de fora. “Mais 40 minutos.” Preferencial para quem? Para o relógio? Porque, para a pessoa idosa que aguardava no carro, a preferência parecia ser somente assistir aos minutos envelhecerem ainda mais. Eu acredito que tenha sido erro ao entregarem a senha, só pode ser. Não é possível que achem normal tanta espera.

Minha mãe não foi atendida. Não porque lhe faltasse direito. Não porque o problema fosse impossível de resolver. Não porque a agência estivesse lotada. Ela não foi atendida porque, antes da burocracia, encontrou um muro invisível chamado desdém. Um muro construído sem cimento, apenas com ombros erguidos, olhares apressados e a confortável certeza de que sempre é mais fácil mandar alguém esperar do que oferecer cinco minutos de atenção. Ironia das ironias: em um banco criado para servir pessoas, foi justamente a humanidade que entrou no cheque especial.

Ela não poderia ficar mais 40 minutinhos no carro, pois, para quem teve trombose nas pernas, 90 minutos sentada na mesma posição faz muita diferença. Levei-a embora. Fim de tarde, voltamos, desta vez com cadeira de rodas, e a conduzi até o caixa eletrônico. Ficamos ali por mais meia hora, porque, além da dificuldade de passar a digital de todos os dedos, que nem sempre são aceitos, havia o problema da falta de acessibilidade. Da cadeira de rodas ela tinha dificuldade para alcançar o leitor. Para “ajudar”, o Sol batia nos vidros e atingia diretamente os caixas com reflexo que atrapalhava a leitura. Árvores ou película resolveriam o problema.

Mas quem se importa? Na sociedade hiperconectada, com as pessoas arcadas para a tela do celular, quem é que se importa com idoso, com acamado, com pessoa com deficiência que não consegue passar uma digital? Fomos em três, três pessoas, para ajudá-la. Duas para apoiá-la, para que ficasse em pé e alcançasse o leitor óptico, e outra para ajudar a passar as digitais.

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Não escrevo estas linhas porque um aplicativo apresentou defeito. Escrevo porque a sociedade anda apresentando defeitos muito mais graves. O idoso não precisa só de rampas, corrimãos e senhas preferenciais. Precisa ser tratado com respeito de quem construiu uma história ao longo da vida, e ela precisa ser valorizada. Precisa ser ouvido antes de ser encaminhado. Precisa ser respeitado antes de ser numerado.

Quando uma cidade pequena consegue transformar um atendimento simples em uma maratona de descaso, talvez o problema não esteja no tamanho da agência, e sim na dimensão da sensibilidade de quem esqueceu que todos nós, se tivermos o privilégio da vida, um dia estaremos do outro lado do balcão.

O slogan antigo dizia: “Vem pra Caixa você também. Vem!” Ir para ser tratado como um spam, que você nem olha direito e já deleta? É esse o tratamento dispensado a quem se obriga a buscar o saldo de uma vida inteira de trabalho em um banco que não percebe o cliente? Quantos outros passam por essa situação, contudo não conseguem expressar-se?

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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