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A insegurança na garupa. Motoboys são alvos de roubos na Vila C

Motoboys conhecem a cidade como ninguém, mas nunca sabem se objetivo final é entregar um objeto ou sua própria vida e bens pessoais.

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A insegurança na garupa. Motoboys são alvos de roubos na Vila C
Motoboys arriscam a vida, porque nunca sabem qual a finalidade da entrega, se a mercadoria ou seus bens. Foto: IA

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

O motoboy conhece a cidade como poucos. Conhece a rua que termina onde o mapa insiste que continua, o asfalto que vira buraco, a esquina escura, o cachorro que corre atrás da moto e o endereço que só existe depois de três explicações pelo telefone. Vai longe para que alguém só precise ir até o portão ou portaria, e ainda assim há quem reclame. Mas isso é papo para outra conversa. 

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Enquanto muitos estão protegidos no conforto de casa ou do trabalho esperando a comida, o remédio ou uma encomenda, o trabalhador atravessa bairros, corta avenidas e enfrenta a madrugada, não importa a condição do tempo. Porque sua condição é: só tem dinheiro no bolso se roda de moto. Sai de casa sabendo a hora em que começa a trabalhar, mas nem sempre sabe a hora em que vai voltar. E, diante da violência, o medo maior é não saber sequer se vai voltar.

Um relato recente deveria preocupar todos e exige providências tão rápidas quanto é a rotina deles: motoboys estariam recebendo pedidos para determinados endereços na região da Vila C e, ao chegarem para fazer a entrega, seriam rendidos e teriam suas motocicletas roubadas. A denúncia precisa ser apurada pelas autoridades, evidentemente, mas há nela uma ironia cruel: quem passa o dia levando pedidos pode estar precisando, urgentemente, que alguém atenda também a seu pedido de socorro.

E talvez seja hora de pensar nesses trabalhadores também como olhos e ouvidos privilegiados da cidade. Quem roda quilômetros todos os dias percebe mudanças de rotina, pontos escuros, movimentações estranhas e lugares onde o medo começa a criar endereço. As equipes de segurança de Foz do Iguaçu estão escutando o que eles têm a dizer?

Que tal, então, facilitar essa conversa? Os órgãos de segurança poderiam criar ou fortalecer canais simples, rápidos e seguros para receber informações de motoboys, motoristas e outros profissionais que vivem sobre o mapa da cidade. Não para transformá-los em policiais, muito menos para incentivá-los a enfrentar situações perigosas, mas para permitir que aquilo que eles naturalmente observam possa chegar a quem tem competência para agir.

Quem conhece tantas rotas também pode ajudar a apontar onde a segurança perdeu o caminho. E, quando houver registros reiterados de ocorrências em determinada região, rondas preventivas e operações orientadas por essas informações poderiam fazer a diferença. Denunciar precisa ser fácil e garantir o sigilo da fonte. Investigar e agir cabe às autoridades.

Mas segurança pública não começa apenas quando a sirene é ligada. Às vezes, ela inicia assim que uma lâmpada é trocada. Está na iluminação das ruas, na limpeza das vias, no mato cortado, nos terrenos baldios adequadamente fechados, nas calçadas que permitem circulação e nos espaços públicos ocupados e cuidados. Está também nas câmeras de segurança e na possibilidade de integrar, dentro da legalidade, imagens capazes de auxiliar investigações. A escuridão não está somente na ausência de postes acesos, ela também aparece onde o poder público deixa de enxergar.

Uma cidade cuidada não elimina o crime, porém pode reduzir esconderijos, melhorar a visibilidade e aumentar a capacidade de prevenção e resposta. Experimentos famosos comprovam que áreas violentas tiveram redução de criminalidade com ampliação da iluminação. Parece ficção enfrentar a violência com a luz, enquanto tantos crimes são cometidos à luz do dia. No entanto, não é. Tudo que puder ajudar a identificar o criminoso vai interferir nos gráficos que apontam os índices de violência. 

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No fim das contas, segurança pública é uma grande rede — e rede só protege quando não está cheia de buracos. Polícia, iluminação, zeladoria, tecnologia, rondas, denúncias e participação da comunidade são fios dessa mesma trama.

O motoboy sai para servir quem ficou. Leva o jantar de uma família, o lanche de quem trabalha até tarde, o remédio de quem não pode ir comprar, a encomenda de quem apertou alguns botões e esperou. Ele conhece como ninguém os caminhos da cidade; e a cidade, por sua vez, precisa conhecer melhor os perigos que existem nos caminhos dele. Porque nenhuma entrega vale uma vida, nenhuma motocicleta deveria custar uma emboscada, e ninguém deveria colocar na mochila, junto com os pedidos, a dúvida sobre conseguir voltar para casa.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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