Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Se os argentinos são nossos vizinhos, se amam passar temporadas de férias em nossas belas praias, assim como muitos brasileiros, que ostentam viagens até Bariloche e posam com esquis para as redes sociais, mesmo que não saibam nem andar de bicicleta, por que aqui no Brasil escutamos fogos, rojões e buzinaços quando a Espanha derrotou a Argentina na final da Copa do Mundo?
Existem várias respostas possíveis. A rivalidade no futebol é uma delas. Mas há outra, bem menos esportiva: o racismo praticado por alguns torcedores, que atravessa fronteiras, contamina arquibancadas e acaba manchando as cores da bandeira de nossos hermanos. Não são todos os argentinos, é lógico. Porém, quando uma minoria faz tanto barulho e a maioria permanece em silêncio, a sujeira aparece mais do que o azul e o branco.
Com muito atraso, o Brasil traçou um risco no campo demarcando o que é tolerável. E racismo não é. Nunca deveria ter sido, e sabemos das consequências do racismo velado. Daquele que não é comprovado, em que a vítima não consegue fazer o BO (Boletim de Ocorrência), mas que fica registrado em sua alma.
- As manchetes brasileiras há muito sinalizam nossos hermanos usufruindo as benesses do Brasil e pagando com gestos racistas. Em março deste ano, a influenciadora argentina Agostina Páez ficou bem conhecida dos brasileiros também por injúria racial contra funcionários de um bar em Ipanema, na zona sul da capital fluminense. Além das praias cariocas, conheceu a tornozeleira eletrônica. Deixou um caução de R$ 97 mil e responde o processo em seu país.
O episódio mais evidente desta Copa aconteceu em 3 de julho, durante Argentina e Cabo Verde, em Miami. O influenciador negro norte-americano IShowSpeed, que transmitia a partida, aproximou-se de uma torcedora vestida com a camisa argentina. Diante de milhões de espectadores, ela o mandou “chorar no zoológico”. Quando um homem negro é associado a zoológico, não é o idioma que cria dúvida, é o racismo que se apresenta sem nem precisar mostrar o passaporte.
Na partida seguinte, contra o Egito, novos relatos colocaram parte da torcida argentina sob atenção. Torcedores egípcios afirmaram que receberam cerveja, provocações e agressões depois dos gols argentinos; vídeos registraram a confusão. Torcedores de Cabo Verde também relataram que garrafas foram lançadas contra o pequeno grupo africano após os gols de sua seleção. É importante não colocar tudo no mesmo saco: jogar cerveja e garrafas é violência, mandar um negro de volta ao zoológico é racismo. Em comum, ambos os comportamentos mostram gente que, antes de ir pra arquibancada, deveria ler a Constituição.
Também não se pode alegar que tudo começou nesta Copa. Em 2024, jogadores argentinos foram filmados cantando uma música racista e homofóbica contra atletas da seleção francesa, fazendo referência à origem africana de parte da equipe. O episódio provocou críticas internacionais e pedidos de desculpas.
Durante a Copa de 2026, a mesma canção ofensiva continuou sendo entoada por alguns torcedores. Até um turista argentino foi filmado na Bahia imitando um macaco diante de um brasileiro negro, enquanto comemorava a vitória de sua seleção sobre a Inglaterra. Não é folclore esportivo, não é “jeito de torcer”, é uma velha doença que há muito já deveria ter sido expulsa dos estádios e vida em sociedade.
Mas será que na Argentina o racismo é permitido, para que no Brasil alguns infelizes sejam surpreendidos com a mão pesada da lei? Não é permitido. Racismo é crime, porém não é tipificado como no Brasil. O sistema penal argentino parece não ter um VAR para gestos que são, sim, racistas.
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