Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho devastou o país. E os dados oficiais, contabilizando os mortos, que passam de seis mil, chocam-se com os números avassaladores do site Desaparecidos Terremoto Venezuela, que apontam para mais de 40 mil pessoas desaparecidas. O site foi criado e é abastecido com dados de moradores que procuram familiares e amigos, numa espécie de imenso mural de ausências e esperança em meio aos escombros.
Somente no estado costeiro de La Guaira, mais de 800 edifícios foram danificados, sendo que 190 viraram ruínas. Se contabilizarmos 50 pessoas em cada prédio, em uma noite de quarta-feira, o número de óbitos pode chegar facilmente a 9.500. Países diversos mobilizaram esforços para socorrer os venezuelanos.
O mundo nem tinha se refeito do susto, e outro tremor abalou, desta vez, a Colômbia. No dia 10 de agosto, um tremor de magnitude 7,4, em uma escala com registros já identificados até 10, deixou, oficialmente, mais de 280 mortos. Já na sexta-feira, 14, os abalos atingiram a Indonésia, com magnitude de 7,7.
Mas outros terremotos também atingem diversos países, vitimando suas populações. Terremotos no campo da politicagem.
Recentemente, a mando de Trump, seus agentes secretos invadiram o espaço aéreo da Venezuela e a casa oficial da Presidência e sequestraram o presidente Nicolás Maduro, que hoje está em uma prisão de segurança máxima. No seu lugar, ficou a vice-presidente, Delcy Rodríguez. Se vai ser bom ou ruim, não está em discussão. A questão é que a soberania do país foi varrida para debaixo do tapete, como se fronteiras, leis e instituições pudessem ser removidas dos trilhos por uma única força política.
De outro modo, o presidente recém-empossado da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que tomou posse no dia 7 de agosto, parece que não se deu conta de seu papel. O terremoto sacudiu o chão, porém não abalou sua convicção política. Em vez de colocar em primeiro lugar o salvamento dos soterrados, priorizou escolher de quais países aceitaria ajuda: Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador. Adiou ajuda internacional, inclusive da ONU, aceitou apenas a de seus aliados políticos e, com a repercussão negativa, desmentiu que tivesse negado apoio.
Enquanto decisões políticas erguiam muros, sob os escombros havia uma população esperando socorro.
- O terremoto provocou danos em 448 municípios de 15 dos 32 departamentos do país. De acordo com o balanço da UNGRD, 54.008 famílias, ou 115.461 pessoas, foram afetadas. Pelo menos 14.493 casas foram destruídas, e outras 81.506 sofreram danos. Também foram registrados colapsos de 170 edifícios, principalmente em Cali, capital do Valle del Cauca, e Pereira, capital de Risaralda. (Fonte: Ópera Mundi)
Terremotos não podem ser previstos no mesmo padrão com que acontecem as tempestades, por exemplo. A terra não avisa exatamente quando vai tremer. Mas os políticos são previsíveis e, ainda assim, são eleitos. E, muitas vezes, causam mais abalos na sociedade do que qualquer outra força da natureza — natureza que, ironicamente, também acaba sendo vítima das decisões desses mesmos homens.
Talvez esteja aí a diferença mais inquietante: contra o movimento das placas tectônicas pouco podemos fazer antes que o chão comece a tremer. Já os terremotos políticos costumam dar sinais muito antes de derrubarem as primeiras estruturas que caem, justamente, sobre a população.
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