Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Há uma embarcação chamada Brasil navegando em águas revoltas. No convés superior está a tripulação. Nas melhores cabines, gente com poder e dinheiro. Mais abaixo, espremida, viaja a maioria da população. E no porão, quase invisíveis, ficam os animais, as florestas, os rios e tudo aquilo que chamamos de sustentabilidade. O problema é que quem deveria funcionar como água de lastro, dando equilíbrio e estabilidade à embarcação, agora briga pelo timão. E nessa disputa, parece haver novos furos no casco. E não estou falando do Corinthians.
- Durante muito tempo, o Supremo Tribunal Federal foi o fiel da balança da República, a última porta de quem ainda buscava a Justiça. Tinha tanto poder que decidiu, por exemplo, que jornalista não precisava de diploma — mas isso fica para outro artigo. Apesar disso, quase ninguém sabia o nome de seus ministros. Hoje, eles têm torcida: são heróis para uns e bandidos para outros. A discrição caiu em alto-mar. Recebem altos salários e dispõem de uma estrutura de Estado justamente para exercer suas funções com independência. Por isso, relações com poderosos, como banqueiros, viagens em jatos particulares ou outras proximidades precisam ser absolutamente transparentes. À mulher de César não basta ser honesta. É preciso parecer honesta. À mais alta Corte do país também.
Agora, STF e Polícia Federal estão no centro de uma tempestade que envolve afastamentos, relatórios contestados, acusações, suspeitas e gente poderosa. Um documento sem assinatura, sem timbre e sem autoria identificada acabou no coração dessa disputa. Mas seria ingênuo imaginar que existe apenas um tripulante sob suspeita. Quando investigadores, investigados e julgadores começam a aparecer próximos demais no mesmo enredo, a população tem o direito de perguntar quem está conduzindo o navio — e para onde. Enquanto isso, em ano eleitoral, candidatos à Presidência rondam o convés oferecendo-se para assumir o timão.
Só que o navio continua fazendo água. Quem está nas melhores cabines tem coletes, botes, dinheiro, influência, advogados e até outros portos onde desembarcar. A maioria dos passageiros não tem. E aqueles esquecidos no porão, menos ainda. Árvore não vota. Rio não contrata advogado. Animal não concede entrevista. Quando a disputa pelo poder ocupa todo o convés, são sempre os de baixo que descobrem primeiro que a água começou a entrar. O cidadão da última classe nem sonha quanto de dinheiro a tripulação tem assegurado em contas de paraísos fiscais de outros mares. Se o navio perder o vapor no meio do nada, eles têm para onde remar. O resto não.
Não importa se a ilegalidade veio da Polícia Federal, do Supremo ou de qualquer outro compartimento: que seja investigada e punida. Enquanto os homens do convés brigam para ver quem acumula mais poder e dinheiro, a segunda classe tem somente um mês para decidir a quem entregará o timão para enfrentar o mar revolto dos próximos anos. Se escolherá alguém preocupado primeiro em garantir os coletes da própria família, dos amigos e daqueles que ocupam as melhores cabines ou alguém capaz de olhar para os passageiros que viajam espremidos lá embaixo — inclusive para aqueles que sequer têm voz. Porque o Brasil não é inafundável. E desta vez não basta escolher quem sabe chegar ao convés. É preciso descobrir quem, diante da tempestade, não abandonará o navio levando consigo todos os botes.
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