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(Quase) Todos os homens e mulheres de Vorcaro de A a Z

Há cinquenta anos, um filme ensinou a seguir o dinheiro. Agora, é o dinheiro que nos manda seguir um filme. E, no roteiro, o STF sangra via Wi-Fi..

21 min de leitura
(Quase) Todos os homens e mulheres de Vorcaro de A a Z
Vorcaro usou dinheiro público para 'comprar' pessoas públicas e privadas. Foto:I A

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

No filme Todos os Homens do Presidente (1976), os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do The Washington Post, começam investigando um crime que parecia relativamente pequeno: em 1972, cinco homens foram presos após invadir a sede do Partido Democrata, instalada no complexo de edifícios Watergate, em Washington. O objetivo era instalar equipamentos de espionagem e obter informações sobre os adversários do então presidente republicano Richard Nixon. Ao investigar quem havia financiado e organizado a operação, os repórteres seguiram o rastro do dinheiro e descobriram conexões cada vez mais próximas da Casa Branca. O escândalo cresceu, revelou uma operação de espionagem política e uma tentativa de encobrir os fatos e terminou, dois anos depois, com Nixon renunciando à Presidência dos Estados Unidos para evitar um processo de impeachment. O filme custou US$ 8.500.000, faturou US$ 70,6 milhões, foi indicado a 8 Oscar e faturou 4.

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Mais de cinquenta anos depois, a lição de Watergate continua atual: siga o dinheiro. No caso Banco Master, porém, é preciso acrescentar outra pista: siga também os celulares de Daniel Vorcaro. As sucessivas quebras de sigilo começaram a revelar uma rede que atravessa bancos, Congresso, governos, partidos, Banco Central, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, Supremo Tribunal Federal, escritórios de advocacia e até veículos de comunicação e influenciadores.

E é justamente nesse caminho do dinheiro que aparece Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro que, até agora, nem sequer tem data definida para chegar aos cinemas. A PF identificou US$ 12,33 milhões — cerca de R$ 63 milhões — efetivamente transferidos em 2025 para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, embora o acordo encontrado no celular de Vorcaro previsse financiamento de US$ 24 milhões. Agora, os investigadores querem saber exatamente de onde veio, por onde passou e quem foram os beneficiários finais desse dinheiro. A própria PF aponta suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Resta saber se Dark Horse chegará às telas — e, principalmente, se era apenas um filme ou também uma engrenagem para fazer o dinheiro circular.

Hoje, 12 de setembro, dezenas de procedimentos já podem ser consultados, mas isso não significa que tudo esteja aberto. Mendonça mantém sob sigilo informações que, segundo ele, poderiam comprometer diligências atuais ou futuras, e permanece a disputa pelo acesso ao conteúdo integral dos celulares de Daniel Vorcaro. É justamente por isso que esta lista não pode ser considerada definitiva: cada novo sigilo derrubado pode trazer novas mensagens, pagamentos, encontros — e novos nomes.

Esta não é uma relação de culpados. Há pessoas investigadas, presas, acusadas, citadas em mensagens e outras que mantiveram relações comerciais ou profissionais aparentemente regulares com o Master. Pagamento ou encontro não é sinônimo de crime. Quando uma acusação decorre de proposta de delação rejeitada, isso também está explicitado. Apenas a título de curiosidade, documentos mostram que o Master pagou mais de R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025.

O que une os nomes abaixo é a existência de algum elo concreto divulgado até agora. E há uma certeza: esta lista pode aumentar a cada nova quebra de sigilo.

A

ACM Neto — ex-prefeito de Salvador, União Brasil – A A&M Consultoria, ligada a ACM Neto, recebeu cerca de R$ 5,45 milhões do Master. Vorcaro também relatou encontro com ele. Em proposta de delação rejeitada pela PF e pela PGR, o banqueiro afirmou ainda que ACM Neto e Antônio Rueda receberiam comissões sobre aportes de institutos previdenciários no banco. ACM Neto nega irregularidades e afirma que os serviços de consultoria foram efetivamente prestados.

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Alexandre de Moraes — ministro do STF – A PF encontrou dezenas de mensagens enviadas por Vorcaro relacionadas ao ministro e apura possível favorecimento e interferência. A relação ganhou dimensão adicional pelo contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Moraes nega irregularidades e contesta a forma como André Mendonça conduziu a investigação.

Altieris Santana — empresário e gestor do Havengate Development Fund – Ao lado do advogado Paulo Calixto, administra o Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas que recebeu milhões de dólares enviados a partir do Brasil para o financiamento de Dark Horse. Documentos apontam Calixto e Santana como controladores do fundo. O Havengate havia sido criado originalmente para captar recursos para um empreendimento imobiliário no Texas que não se concretizou e posteriormente passou a receber o dinheiro relacionado ao filme.

André Mendonça — ministro do STF e relator do caso Master – Confirmou ter recebido Daniel Vorcaro pessoalmente em março de 2025, antes de assumir a relatoria das investigações. A aproximação foi articulada por Ciro Rocha Soares e Cezinha de Madureira. Uma fotografia divulgada nas mensagens mostra Ciro ao lado de Mendonça — não Vorcaro e Mendonça juntos —, mas o encontro com o banqueiro foi admitido pelo próprio ministro. Mendonça afirma que a conversa tratou de precatórios e lembra que posteriormente decidiu contra interesse do Master.

Andrei Rodrigues — diretor-geral da Polícia Federal – Mensagens revelam que Vorcaro tentava chegar ao diretor-geral da PF por intermédio de outras autoridades e interlocutores. Também surgiram convites relacionados a eventos internacionais. Andrei Rodrigues rejeitou as versões de Vorcaro sobre uma suposta proximidade pessoal.

  • Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro — empresário e colaborador – Em delação premiada homologada pelo STF, Mineiro afirmou ter atuado como operador financeiro de Daniel Vorcaro e movimentado cerca de R$ 1,3 bilhão entre 2020 e 2025, inclusive em grandes quantidades de dinheiro vivo, transportadas em malas que, segundo seu relato, levavam geralmente entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão cada e eram entregues a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ou a motoristas indicados pelo grupo. Mineiro comprava tantas malas pela internet que a própria fabricante entrou em contato e ofereceu a possibilidade de adquiri-las diretamente, sem a intermediação da loja virtual. Ele apresentou às autoridades recibos das compras e afirmou possuir registros das entregas. Mineiro também aparece no caminho do dinheiro de Dark Horse: sua empresa realizou remessas milionárias ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, fundo utilizado no financiamento do filme. Ele não está preso e tornou-se colaborador da investigação.

Antônio Rueda — presidente nacional do União Brasil – Dois escritórios ligados a Rueda receberam cerca de R$ 6,4 milhões do Master. Na proposta de delação rejeitada, Vorcaro também afirmou que Rueda e ACM Neto teriam recebido comissões sobre captações previdenciárias. Rueda diz que os serviços advocatícios foram regulares e nega qualquer pagamento ilícito.

Augusto Ferreira Lima, o Guga — ex-sócio do Banco Master – A PF o acusa de ter criado carteiras de crédito fraudulentas que acabaram vendidas ao BRB. Foram R$ 12,2 bilhões em ativos considerados falsos, segundo a investigação. Foi preso em novembro de 2025, solto dias depois e usa tornozeleira eletrônica. Nega as acusações.

B

Belline Santana — ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central – É investigado sob suspeita de trabalhar em benefício de Vorcaro justamente dentro da estrutura encarregada de fiscalizar o Master. A investigação examina pagamentos e viagens. Foi afastado do BC e usa tornozeleira eletrônica. Nega irregularidades.

Bonnie Bonilha — empresária e nora de Jaques Wagner – A BN Financeira, de Bonnie Bonilha, recebeu valores milionários em operações com o Master entre 2022 e 2025. A empresa afirma que prestou serviços regulares de prospecção e operações de crédito, mediante emissão de notas fiscais.

C

Cezinha de Madureira — deputado federal – Aparece como um dos articuladores da aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça. A existência dessa intermediação é documentada; não significa, isoladamente, prática de crime.

Ciro Nogueira — senador (PP-PI) – É investigado no episódio da chamada “Emenda Master”, que aumentaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC. As investigações examinam a elaboração da proposta, pagamentos atribuídos a Vorcaro e outras vantagens supostamente associadas ao banqueiro. Ciro nega irregularidades.

Ciro Rocha Soares — advogado – É um dos principais intermediários entre Vorcaro e Brasília. Surge nas mensagens articulando encontros e contatos com André Mendonça e Paulo Gonet. Foi ele quem enviou a Vorcaro fotografia ao lado de Mendonça e mensagem dizendo que estava trabalhando pelo banqueiro.

Cláudio Castro — ex-governador do Rio de Janeiro (PL) – Foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo STF no âmbito das investigações do caso Master. A apuração envolve aplicações de mais de R$ 3 bilhões da RioPrevidência em produtos financeiros do Banco Master e investiga o suposto envolvimento de Castro e de ex-dirigentes do fundo. Sua defesa nega relação pessoal indevida com Vorcaro e irregularidades.

D

Daniel Monteiro — advogado e apontado pela PF como operador do Master – Descrito pela polícia como homem de confiança de Vorcaro, é suspeito de estruturar fundos para desviar dinheiro do banco e pagar propinas. Empresas ligadas a ele receberam R$ 109 milhões em serviços jurídicos do Master. Está preso preventivamente. Nega irregularidades.

Daniel Vorcaro — ex-controlador do Banco Master – É o centro da história. A PF investiga fraudes financeiras bilionárias, lavagem de dinheiro, corrupção e uma extensa rede de operadores e intermediários. Seus celulares acabaram se transformando no mapa de suas relações com o poder. Está preso preventivamente.

Dias Toffoli — ministro do STF – Relatório da PF sobre o caso Master apontou operações envolvendo R$ 35 milhões de Vorcaro e o fundo Arleen, ligado ao resort Tayayá, além de levantar suspeita sobre quem seria o beneficiário final desses recursos. Toffoli deixou a relatoria do caso e nega ter recebido dinheiro de Vorcaro. A arguição de suspeição contra ele foi posteriormente arquivada pelo próprio STF, sem julgamento do mérito das suspeitas levantadas pela PF.

E

Eduardo Bolsonaro — ex-deputado federal (PL) – A PF investiga sua participação na gestão dos recursos destinados a Dark Horse nos Estados Unidos. Parte do dinheiro enviado por Vorcaro teria passado por fundo ligado a advogado de seu círculo, e os investigadores apuram o destino desses valores. Eduardo nega irregularidades.

F

Fabiano Zettel — empresário e cunhado de Daniel Vorcaro – É apontado pela PF como um dos principais operadores financeiros do grupo. A Super Empreendimentos, associada a ele, aparece em diversas frentes da investigação. Movimentações do Coaf também identificaram dezenas de milhões de reais transitando por conta de igreja administrada por Zettel. Está preso preventivamente.

Fábio Faria — ex-ministro das Comunicações – As mensagens mostram que atuou como uma ponte importante entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, inclusive na aproximação que antecedeu o contrato do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes. Faria afirma que sua atuação foi lícita.

Fabio Wajngarten — ex-secretário de Comunicação da Presidência de Jair Bolsonaro – A WF Comunicação recebeu ao menos R$ 3,8 milhões do Banco Master em 2025. Wajngarten confirma que presta serviços para Vorcaro e integrou sua estratégia de defesa e comunicação.

Flávio Bolsonaro — senador (PL-RJ) – É formalmente investigado. Segundo a PF, negociou diretamente com Vorcaro financiamento de US$ 24 milhões para Dark Horse, dos quais parte teria sido efetivamente repassada. A investigação apura corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio admite ter procurado Vorcaro em busca de recursos privados para o filme, mas nega irregularidades.

G

Gilberto Kassab — presidente nacional do PSD – Em proposta de delação rejeitada pela PF e pela PGR, Vorcaro afirmou que doações eleitorais feitas às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas teriam funcionado como propina articulada por Kassab. Kassab classifica a história como fantasiosa. A acusação não foi comprovada.

Guido Mantega — ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma – A Pollaris Consultoria recebeu cerca de R$ 14 milhões do Master em 2024 e 2025. Mantega confirma que foi consultor econômico-financeiro do banco e afirma que desconhecia eventuais irregularidades.

H

Henrique Meirelles — ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda – Recebeu cerca de R$ 18,5 milhões do Master por serviços de consultoria em macroeconomia e mercado financeiro. Meirelles afirma que não tinha acesso às operações internas e encerrou o contrato em julho de 2025.

Henrique Vorcaro — pai de Daniel Vorcaro – Integra o núcleo empresarial da família. Em setembro, a CVM condenou Daniel, Henrique e outros envolvidos por práticas fraudulentas em operações realizadas ainda na época do Banco Máxima. Henrique e Daniel receberam multas milionárias.

I

Ibaneis Rocha — ex-governador do Distrito Federal (MDB) – As mensagens colocam Ibaneis perto da negociação Master-BRB. Vorcaro afirmou ter conversado com ele sobre a operação e relatou a Marta Graeff um encontro para acertar uma “estratégia de guerra” pouco antes de o Banco Central vetar a compra. Ibaneis confirma encontros com Vorcaro, mas nega ter tratado da aquisição.

Isaac Sidney — presidente da Febraban – Relatório do Coaf identificou depósito de R$ 700 mil de Sidney em empresa ligada a Vorcaro e Zettel. Sidney afirma que se tratou de compra lícita de direitos creditórios, declarada ao Fisco. Também teve empréstimo do Master para aquisição de imóvel. Não há imputação criminal contra ele por essas operações.

J

Jair Bolsonaro — ex-presidente da República (PL) – Em proposta de delação rejeitada, Vorcaro afirmou que parte das doações eleitorais feitas por seu círculo às campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 teria natureza de propina articulada com Kassab. Fabiano Zettel fez oficialmente doação milionária à campanha de Bolsonaro. A narrativa de Vorcaro não foi aceita pela PF nem pela PGR e não constitui prova de crime.

Jaques Wagner — senador (PT-BA) – As novas quebras de sigilo revelaram investigação envolvendo negócios, relações com integrantes do núcleo Master e outros elementos que a PF decidiu aprofundar. Documentos também registram pagamentos a empresa de sua nora. Wagner nega irregularidades.

K

Karina Ferreira da Gama — empresária e produtora de Dark Horse – É uma das principais personagens da frente audiovisual. Sua Go Up Entertainment é responsável pelo filme e Karina foi alvo da Operação Make Up, que investiga possíveis desvios de recursos públicos, lavagem de dinheiro, falsidade documental e outros crimes. Não está presa.

Kassio Nunes Marques — ministro do STF – Há registros de conversas entre Vorcaro e Nunes Marques. Além disso, escritório ligado a seu filho, Kevin de Carvalho Marques, recebeu cerca de R$ 281,6 mil de uma consultoria que havia recebido milhões do Banco Master. A empresa afirma que Kevin prestou serviços jurídicos. Não há, até agora, investigação criminal formal contra o ministro por esses fatos.

L

Léo Dias — jornalista e empresário de comunicação – A Leo Dias Comunicação recebeu R$ 9,9 milhões diretamente do Master e outros valores de empresa abastecida por recursos do banco. Léo Dias afirma que os pagamentos correspondem a publicidade do Will Bank. Mensagens também mostram Vorcaro reclamando com Thiago Miranda após o Portal LeoDias publicar notícia sobre Dark Horse; Miranda respondeu que pediria a retirada, e a matéria saiu do ar pouco depois. O portal sustenta que a retirada decorreu de dúvidas internas sobre a apuração.

Luiz Estevão — empresário, ex-senador e proprietário do Metrópoles – O Banco Master pagou cerca de R$ 27 milhões ao Metrópoles entre 2024 e 2025. Relatórios do Coaf consideraram parte das movimentações inusitadas porque recursos eram transferidos para outras empresas ligadas ao grupo. Luiz Estevão afirma que os valores correspondiam a publicidade, marketing e patrocínios regulares.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário” – Apontado pela PF como integrante de um núcleo que teria acessado informações sigilosas, monitorado pessoas e protegido interesses de Vorcaro. Morreu enquanto estava sob custódia.

M

Marconi Perillo — ex-governador de Goiás e ex-presidente do PSDB – A MV Projetos e Consultoria recebeu cerca de R$ 14,5 milhões do Master entre 2022 e 2025. Perillo afirma que prestou consultoria de análise de cenários e não tinha vínculo com a gestão do banco.

Marilson Roseno da Silva — ex-escrivão da Polícia Federal – Apontado como aliado de Vorcaro e suspeito de obtenção de informações sigilosas. Mensagens também o colocam em conversas relacionadas a negócios atribuídos ao círculo do banqueiro. Está preso preventivamente.

Mário Frias — deputado federal (PL-SP) – É investigado no núcleo de Dark Horse e na Operação Make Up. Foi alvo de busca e apreensão, teve o passaporte retido e é investigado por emendas destinadas a entidade ligada à produção do filme. Não está preso. Frias nega irregularidades.

Marta Graeff — empresária e ex-noiva de Daniel Vorcaro – Suas conversas com Vorcaro funcionam como um diário informal das relações do banqueiro. Ele relatava a ela encontros com políticos e autoridades, além de discussões patrimoniais. Não há indicação de que Marta seja acusada das fraudes do Master, mas as mensagens são importantes para reconstruir a rede de contatos.

Michel Temer — ex-presidente da República (MDB) – O escritório de Temer recebeu valores milionários do Master. Temer afirma que os pagamentos decorreram de serviços efetivamente prestados. Foi contratado para atuar na tentativa de destravar a operação entre Master e BRB, barrada pelo Banco Central.

N

Nikolas Ferreira — deputado federal (PL-MG) – Mensagens e áudios revelam contato direto com Vorcaro e pedido de ajuda envolvendo um ativo de minério e um ex-assessor. Vorcaro também afirmou a terceiro ter bancado voos do parlamentar. Nikolas nega ter recebido dinheiro do Master.

P

Paulo Calixto — advogado ligado a Eduardo Bolsonaro – Administra fundo norte-americano que recebeu recursos relacionados ao financiamento de Dark Horse. A PF investiga o caminho e o destino final desses valores.

Paulo Gonet — procurador-geral da República – Mensagens intermediadas por Ciro Soares mostram contatos e referências pessoais envolvendo Gonet e Vorcaro. O material foi extraído do telefone do banqueiro. Não há acusação criminal formal contra Gonet decorrente desses contatos.

Paulo Henrique Costa — ex-presidente do BRB – Está no núcleo das operações bilionárias entre BRB e Master. É investigado por supostas vantagens ligadas às compras de ativos do banco de Vorcaro. Está preso preventivamente.

Paulo Sérgio Neves de Souza — ex-diretor do Banco Central – Investigado por suspeita de favorecer o Master de dentro do BC. Declarou à PF que tinha conhecimento de indícios de fraude bilionária antes da comunicação formal às autoridades. Usa tornozeleira eletrônica.

Pedro Gonet — advogado e filho do procurador-geral – Mensagens indicam discussão sobre sua participação em viagem a Londres ligada ao círculo de Vorcaro, com despesas oferecidas pelo banqueiro. Não há imputação criminal conhecida contra Pedro decorrente do episódio.

R

Ratinho Junior — governador do Paraná (PSD) – A quebra de sigilo revelou que a Massa & Massa, empresa da qual Ratinho Junior e seu pai são sócios, recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master, em quatro parcelas de R$ 420 mil. O Grupo Massa afirma que eram pagamentos de contrato publicitário do CredCesta e que a relação foi encerrada após atrasos. Não há acusação criminal formal contra o governador decorrente desses pagamentos.

Ricardo Lewandowski — ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça — O escritório de advocacia de sua família foi contratado pelo Banco Master em 2023 e manteve serviços para o banco até agosto de 2025, período que alcançou parte de sua passagem pelo Ministério da Justiça, ao qual a Polícia Federal é subordinada. Lewandowski afirma que deixou formalmente a banca antes de assumir o ministério e que não participou dos serviços prestados posteriormente por sua mulher e seu filho. Não há acusação criminal contra ele decorrente desse contrato.

Rede de influenciadores

Os documentos do Projeto DV apontam contratos ou pagamentos associados a Luiz Bacci, Alfinetei, DeuBuzz, Paulo Cardoso/Cardoso Mundo, Marcelo Rennó, Charles Costa Oficial, Not Journal e GPS Brasília. A PF também identificou dezenas de outros perfis que publicaram conteúdos semelhantes, mas há uma ressalva importante: não existe prova de que todos os perfis mapeados tenham sido contratados ou pagos. Alguns dos citados dizem que os valores recebidos decorreram de relações comerciais regulares e negam participação em campanha coordenada.

Entre os valores divulgados estão contratos ou pagamentos atribuídos a Luiz Bacci, Alfinetei, DeuBuzz, Cardoso Mundo, Marcelo Rennó e Charles Costa Oficial. A presença neste núcleo não significa, por si só, participação em crime.

T

Tarcísio de Freitas — governador de São Paulo (Republicanos) – Também aparece na proposta de delação rejeitada de Vorcaro. O banqueiro afirmou que doações eleitorais a Tarcísio e Jair Bolsonaro teriam sido tratadas como contrapartida política articulada por Gilberto Kassab. Tarcísio afirma que sua campanha foi conduzida dentro da legislação. A acusação não foi comprovada.

Thiago Miranda — publicitário, dono da Mithi e ex-sócio/CEO do Grupo LeoDias – É peça-chave em dois núcleos: Dark Horse e a campanha de comunicação conhecida como Projeto DV. A PF o investiga por ter estruturado uma rede de influenciadores e veículos para defender Vorcaro e questionar decisões do Banco Central. Contratos do projeto chegavam a aproximadamente R$ 8 milhões. Miranda afirma que prestava serviço de gerenciamento de crise e nega ter sido contratado para atacar autoridades.

V

Viviane Barci de Moraes — advogada e esposa de Alexandre de Moraes – Seu escritório firmou contrato de aproximadamente R$ 131 milhões com o Master. Documentos indicam pagamentos milionários em 2024 e 2025. Uma segunda proposta milionária também veio à tona. O escritório sustenta a legalidade dos serviços. A existência de contrato e pagamentos não comprova crime, mas constitui um dos elos financeiros mais relevantes entre o Master e o círculo de um ministro do STF.

X

X da questão! Os nomes que ainda não conhecemos. Talvez esta seja a entrada mais importante. A primeira abertura dos sigilos não revelou tudo. A PGR apontou procedimentos que não haviam sido incluídos na primeira divulgação. André Mendonça depois ampliou a publicidade, mas manteve protegidas informações que, segundo ele, poderiam comprometer diligências atuais ou futuras.

Há ainda conteúdo de celulares de Vorcaro que permanece protegido. Há políticos mencionados por colaboradores cujos nomes continuam sob sigilo. Há investigações derivadas que ainda estão em andamento. Portanto, este A a Z não termina aqui. Esta lista pode aumentar — e provavelmente aumentará — à medida que ocorrerem novas quebras de sigilo. O mais impressionante talvez não seja a quantidade de nomes. É a diversidade.

Direita e esquerda. Governo e oposição. Banqueiros e governadores. Senadores e deputados. Ministros e ex-ministros. Banco Central, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal. Escritórios milionários, veículos de comunicação, influenciadores e produtores de cinema.

Nem todos cometeram crimes. Alguns talvez apenas tenham feito negócios. Outros são formalmente investigados. Alguns estão presos. Outros usam tornozeleira. Outros tocam a vida normalmente, com cara de paisagem. Mas todos ajudam a desenhar o tamanho da rede que cresceu ao redor de Daniel Vorcaro. Siga o dinheiro. Siga o celular. E siga os sigilos que ainda faltam cair.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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