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Trump mira nas taxas, mas quer acertar o PIX

Entre as alegações de Trump para sobretaxar mais uma vez o Brasil, está o Pix. Que o incomoda demais.

4 min de leitura
Trump mira nas taxas, mas quer acertar o PIX
Pix incomoda os EUA porque o brasileiro acaba se libertando dos cartões, de bandeiras americanas. Foto: Gemini

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

Já escrevi aqui e fui cancelada por muitos assinantes — Em relação ao Trump, crie galinhas, mas não expectativas. Mas não adianta. Donald Trump parece aqueles personagens de faroeste que entram no saloon chutando a porta, fazendo barulho com as esporas e atirando primeiro para perguntar depois.

O alvo declarado da vez são as tarifas, as taxas e os desequilíbrios comerciais. Porém, existe algo muito maior escondido atrás da fumaça desse revólver econômico: o PIX. Pode soar exagerado imaginar que um sistema brasileiro de transferências instantâneas incomode um bilionário acostumado a negociar petróleo, armas e guerras nos mercados globais. Só que o PIX não é apenas um aplicativo simpático que ajuda brasileiros a dividir conta de pastel na feira ou pagar o gás às pressas num domingo.

Esqueça o Velho Oeste e imagine um reinado feudal. O PIX é uma rachadura no castelo financeiro tradicional. E castelos não podem ter rachaduras. Reis também não gostam de perder seus feudos.

Durante décadas, os grandes sistemas financeiros internacionais funcionaram como pedágio obrigatório em fossos sem desvios. Ou paga, ou paga. Cada transferência, compra e pagamento eletrônico precisavam passar pelos senhores das cancelas. Bancos cobravam tarifas como os senhores feudais. Cartões de crédito mordiam porcentagens silenciosas.

Então, surgiu o PIX: gratuito para milhões, instantâneo, democrático e perigosamente eficiente. E gerenciado por um banco público, o BC (Banco Central). Perigosamente porque mostrou ao mundo que talvez o rei estivesse explorando demais pela travessia.

Enquanto isso, bandeiras americanas de cartões observavam milhões de consumidores abandonando pedaços de plástico magnetizado para mergulhar num rio digital mais rápido, barato e acessível, na tela do celular.

O sistema brasileiro fez algo que gigantes financeiros jamais imaginaram ver acontecer num país periférico: reduziu drasticamente a dependência de estruturas privadas internacionais. O dinheiro passou a circular como água rompendo barragens antigas, escorrendo por caminhos mais rápidos e populares.

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Para o pequeno comerciante, foi libertação. Para muita gente simples, inclusão. A bancarização colou. Quem nunca teve conta em banco abriu para ter uma chave PIX e chamar de sua.

Para os donos do velho moinho financeiro global, entretanto, foi um alarme tocando no porão. Trump entende de poder — talvez mais do que de economia. E o poder dos Estados Unidos sempre esteve profundamente ligado ao controle das engrenagens financeiras mundiais. Não é somente sobre dólar. É sobre quem controla os trilhos invisíveis por onde o dinheiro corre.

Quando um país cria uma tecnologia pública capaz de funcionar fora das engrenagens tradicionais, ele acende um fósforo perto de depósitos cheios de interesses econômicos. O PIX virou exemplo. E o velho ditado diz que a palavra convence, mas os exemplos arrastam! Outros países observam. Bancos centrais estudam modelos semelhantes. E se sistemas instantâneos começarem a brotar em diferentes países, como é que Trump vai impedir tal rebelião?

Por isso, quando discursos protecionistas aparecem vestidos apenas de “defesa econômica”, vale olhar o que acontece atrás da cortina. Nem sempre a guerra é contra aço, soja ou automóveis. Às vezes, o verdadeiro incômodo nasce quando um país encontra uma forma de movimentar dinheiro sem pedir licença aos antigos donos do cofre.

Trump mira nas taxas e até mesmo no crime organizado porque isso rende manchetes. Contudo, talvez o que realmente o incomode seja outra coisa: a possibilidade de que o futuro financeiro saia de baixo de seu manto. E nisso o PIX se transformou em algo muito maior do que um botão verde no celular. Virou símbolo. Um pequeno vaga-lume eletrônico iluminando em um reino, cuja coroa acreditava que a noite lhe pertencesse sozinha.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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