Por Pedro Louvain
Um esquadrão de guerreiros caaiguas, armados com porretes, arcos e flechas entrou caminhando sorrateiramente na periferia de Santa Maria do Iguaçu. Invadiram os ranchos produtores que “orbitavam” o núcleo urbano reducional, assustando seus moradores.
Quando finalmente chegaram na praça central do povoado, pegaram todos de surpresa, empunhando suas armas prontos para o ataque, causando grande alvoroço nos santamarianos. Apressado, veio o padre Cláudio Ruyer tentar acalmar os desafiantes. Ao constatar que eram caaiguas, falantes da língua jê, que ele não compreendia, mandou chamar um intérprete indígena, que dominava o espanhol, o guarani e o jê.
O padre então apresentou um conjunto de ossos, relíquias católicas, que afirmava serem os ossos de São Francisco Xavier. Com ajuda do intérprete, padre Cláudio argumentava enfaticamente que tais ossos possuíam mais poder que todos os padres da Companhia de Jesus reunidos.
O Poder da Música – “Esses homens ferozes e acostumados a rugir como feras, ao ouvir os acordes da música…”
A liderança caaigua apontou sua lança para o pé do padre, tentado entender o seu calçado. Acreditavam que eles já nasciam com o calçado no pé. O padre descalçou-se e entregou o par ao curioso guerreiro, que o pegou para si. As vestimentas dos santamarianos, feitas com a lã ovina de Santa Fé, utilizadas pelos padres para “cobrir as vergonhas” dos indígenas, também chamavam muito a atenção dos invasores.
Os missioneiros ofereceram uma refeição à tropa, que recusou, acreditando que podia estar envenenada devido a séculos de guerras com os guaranis. No entanto, os anfitriões comeram do mesmo manjar, motivando os visitantes a experimentar e até repetir.
Após a refeição, padre Cláudio teve uma ideia. Organizou a banda e o coral, e improvisou uma apresentação para os “atacantes”. Mais tarde, ele escreveria em suas cartas: “esses homens ferozes e acostumados a rugir como feras ao ouvir os acordes das músicas começaram a dançar descompassadamente, tentando imitar os cristãos, que acomodavam suas danças no som dos instrumentos”.
Após momentos de tensão e diversão, a tropa caaigua resolveu partir. Receberam de presente objetos de metal e o convite dos padres para se converterem ao cristianismo e virem morar com eles na redução, que já contava com mais de quatro mil pessoas. Prometeram que voltariam para se batizar. Nunca mais voltaram.
A guerra assombra Santa Maria – “Vinham os ditos Portugueses com ânimo de cativar aqueles índios”
Os colonos portugueses, vindos de São Paulo, começaram a atacar ferozmente as reduções dos outros afluentes do rio Paraná, a partir de 1627. As notícias dos ataques bandeirantes chegaram a Santa Maria, porém ainda era uma realidade muito distante para causar preocupação.
Em 1631, ao Norte, as missões de San Ignácio e Loreto, percebendo o risco iminente, decidiram organizar uma fuga de grande proporção. Dez mil pessoas, divididas em balsas e canoas, trazendo inclusive os restos mortais dos padres falecidos, embarcaram no rio Paranapanema, desceram o rio Paraná e se dividiram em quatro grandes grupos de refugiados.

Dois grupos refundaram as atuais missões argentinas de San Ignácio Mini e Loreto; um grupo foi recebido pela redução do rio Acarai; e o último grupo, cerca de duas mil pessoas, foi destinado ao refúgio em Santa Maria do Iguaçu.
Coordenando o último grupo, padre Pedro Alvarez ficou em uma situação tão extrema de fome que cozinhou as solas do próprio sapato para se alimentar, enquanto administrava os sacramentos aos moribundos, para que não partissem sem a extrema-unção. Em pouco tempo, morreram cerca de 500 pessoas e uma parte dos sobreviventes evadiu para as florestas.
Da redução do Acarai, chegaram mensageiros dizendo que os refugiados estavam acampados nas margens do rio Paraná, abaixo dos saltos das Sete Quedas, aguardando para serem conduzidos ao Iguaçu. Padre Andres Gallego saiu de Santa Maria e foi buscar o grupo do padre Pedro Alvarez.
Ao todo Santa Maria do Iguaçu recebeu cerca de 1.500 refugiados, pelo tempo de quatro meses, porém 500 deles morreram de peste logo após chegarem. Nessa época, sua população pode ter chegado ao máximo de oito mil pessoas batizadas, com muita instabilidade devido à alta mortalidade do impacto epidemiológico e das fugas.
A Decisão de Mudar – “Era evidente que não podia conservar esta redução e era necessária a emigração dos seus moradores”
Em 1632, a cidade colonial de Vila Rica do Espírito Santo ficou sitiada por três meses e seus moradores foram transferidos para a margem direita do rio Paraná.
Diante da notícia do cerco, Cidade Real de Guairá foi abandonada por seus habitantes antes mesmo da ocorrência de um ataque, porém os bandeirantes prosseguiram capturando indígenas na região, até o rio Uruguai. Temendo um ataque, a redução do rio Acarai decidiu evacuar e descer o rio Paraná, para se refugiar em San Ignacio Mini e Loreto.
Diante do cenário de incertezas, os padres reuniram os iguaçuenses e falaram da necessidade de se mudarem para um local mais seguro, a salvo da ameaça bandeirante. A decisão descontentou diversos moradores. Apegados à terra onde haviam criado laços afetivos, relutavam em abandoná-la para um lugar desconhecido.
Mesmo com esse apego, a comunidade começou a construir embarcações e a destruir suas chácaras, retirando todas as raízes e comida que nelas havia. As poucas vacas que possuíam foram repartidas entre os moradores indígenas.
Presságios Anti-mudança – “Quis o demônio evitar a emigração aparecendo de Santissima Virgem a um rapaz”
Na época da mudança, um jovem de até 18 anos certa manhã pediu para se confessar com o padre. No semblante do rapaz era possível ver sua aflição. Em sua confissão, contou que na noite passada havia visto a imagem de um ser muito bonito com asas resplandecentes, que lhe pedira para erguer um altar nesta redução, pois desejava habitar entre eles. Pedia também que trouxessem cera, pois já havia trazido suas coisas para que pudesse se assentar.
Diante do depoimento, o padre teria dito ao rapaz que se tratava do próprio demônio, que se transfigurava em anjo para enganar os homens. Entretanto, as visões do rapaz continuaram.
Em determinada situação, teria ocorrido a aparição da Virgem Maria com seu filho nos braços. Dizia para não se mudarem, que não passariam fome por causa dos rios e que faria a terra engolir os portugueses, se a comunidade rezasse diante dela, se os padres a levassem em procissão até a Igreja, acompanhados dos cantores, e os caciques viessem beijar seu pé. Caso não a obedecessem e quem se escondesse nos montes seria devorado pelos “tigres”.

Muitos passaram a acreditar no rapaz das visões, levando-lhe oferendas e fazendo pedidos. O padre foi até sua casa, para conhecer o tal “culto protestante”, onde ocorriam as visões, e encontrou uma cruz com outros elementos simbólicos cristãos. A interpretação jesuítica não tinha dúvidas: tudo se tratava de entidade diabólica. Mandaram queimar a cabana e punir o adolescente pela divulgação dos seus relatos.
O embarque da esperança – “Partiram de lá com toda a redução que seriam como duas mil e duzentas almas, na véspera dos gloriosos Apóstolos de S. Pedro e S. Paulo”
No dia 28 de junho de 1633, oito padres e diversos caciques organizaram o embarque de 2.200 pessoas, partindo do porto na região do baixo Cataratas, preparados para descer o rio Iguaçu até o rio Paraná e navegar até a redução de Encarnação.
Para evitar serem surpreendidos pelos portugueses enquanto faziam o translado, enviaram observadores para espionar o leito do Paraná e averiguar a segurança do trajeto. No entanto, tais observadores demoravam muito a retornar e os padres começaram a suspeitar que tivessem sido capturados pelos bandeirantes. Para seu alívio, logo chegou a notícia de que não havia portugueses na região, o que apressou ainda mais o início do deslocamento.
Cada padre ficou encarregado de um grupo diferente, com um contingente equivalente a quatro domicílios santamarianos, organizando duas refeições diárias.
Naipi e Tarobá da vida real – “Este mesmo índio se nos escondeu com sua mulher”

Legenda: Pintura de casal Tupi-guarani (Eckhout, 1641).
Na noite anterior ao embarque, um casal indígena fugiu do cais para o monte. Assim que perceberam a fuga, avisaram o padre Cláudio Ruyer, que os procurou da meia-noite às nove da manhã, sem encontrá-los. Pouco antes de embarcarem, foram encontrados e embarcados contra a própria vontade.
Quando desciam o rio Paraná, nas proximidades da redução de Corpus Christi, o rapaz ficou de pé na canoa, fez um discurso, pulou na água e nadou até a margem. O padre mandou a canoa dar meia-volta em direção à margem e desembarcou um grupo em perseguição ao “fugitivo”.
Foram feitas diversas diligências, mas não conseguiram capturá-lo. Mais tarde, ele foi visto resgatando a indígena no cais de uma das reduções. Padre Cláudio Ruyer passou mais uma noite inteira a procurá-los pelos montes, sem êxito. Escreveu ele: “este mesmo índio se nos escondeu com sua mulher, de sorte que nunca o podemos descobrir ainda que andasse quase toda noite pelo monte em busca”.
Em determinado momento, o casal foi capturado por um grupo de indígenas cristianizados liderados pelo padre Juan e trazido até o acampamento. Após lhe aplicarem uma série de sermões, o rapaz se escondeu, pulou no rio Paraná e fugiu mais uma vez.
No mito da Lenda das Cataratas, Naipi e Tarobá tentariam fugir do deus-cobra para serem livres e ficarem juntos. Na vida real, o casal indígena nativo das quedas do Iguaçu tentava apenas escapar do jugo jesuíta.
Epílogo – A Marcha pela Mesopotâmia Argentina
Após uma curta estadia na redução de Corpus Christi, onde foram recebidos com um churrasco bovino, continuaram navegando rumo à redução de Encarnação. Na entrada da baía do porto, algumas balsas naufragaram e seus passageiros tiveram que ser resgatados por outras embarcações.
Após um período de descanso em Encarnação, retomaram viagem por terra, marchando da margem esquerda do rio Paraná até a margem direita do rio Uruguai, onde encontraram um bom lugar para refundar seu povoado.
Porém, com um novo nome: “Santa Maria do Iguaçu” agora se chamaria “Santa Maria La Mayor”. Sua trajetória perduraria por anos a fio, mas essa já é uma outra história.

