Em tempos de fartura de informações, estamos vivendo uma era de conhecimento ou de ignorância? A indagação é de um dos mais renomados estudiosos da história cultura e social do conhecimento, o britânico Peter Burke. Para ele, o atual século, marcado pelo avanço digital, é também uma era de ignorância.
Professor emérito de História Cultural da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, Burke e a esposa, a também historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, estão em Foz do Iguaçu e, na quarta-feira, 14, ministraram palestras, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), sobre os temas Ignorância e Mulheres Polímatas na História Humana, para um auditório lotado com cerca de 240 pessoas.

Autor do livro Ignorância — uma história global, na obra o historiador de 89 anos aborda, entre tantas análises, as consequências do que ela chama de desastrosas da ignorância, em quatro áreas: negócios, política, epidemia e guerras.
Ele cita, por exemplo, a ignorância de consumidores que não conhecem defeitos dos produtos que compram; de pessoas que adquirem ações de determinada empresa só porque outras estão comprando — atitude que pode contribuir para criação de bolhas financeiras e, consequentemente, gerar uma crise.
No campo da política, Burke considera a ignorância nefasta para a democracia, pois, no entender dele, quando ignorantes, os eleitores escolhem candidatos imprudentes. O historiador cita pesquisas sobre o assunto realizadas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, as quais mostraram serem os eleitores ignorantes quanto às políticas de candidatos que apoiam e ignoram, principalmente, assuntos relativos à política internacional.
Em tal contexto, ele menciona o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que desconsidera o aumento do aquecimento global e a proteção trazida pelas vacinas.
Ele ainda ressalta que pessoas são mantidas na ignorância em razão de assuntos sensíveis que são suprimidos por governos e empresas.

Ignorância e desinformação
Paradoxalmente, na era da informação há ignorância, e muita. Para o historiador, há um descompasso entre a emissão e a recepção da informação. “Não há tempo suficiente para selecionar toda informação bruta, transformá-la em conhecimento e comunicá-la aos outros.”
No livro Ignorância, Burke vai além e trata de temas emergentes que moldam muito da comunicação atual, tais como: a desinformação, o negacionismo e a pós-verdade. A obra é imprescindível, não apenas para historiadores, mas para quem queira entender melhor os bastidores da política e da circulação de informações.

Mulheres polímatas
O apagamento do papel das mulheres na condição de protagonistas foi tratado na palestra da professora e historiadora Maria Lúcia. Ela recuperou importantes episódios que demonstram, pouco a pouco, a dificuldade de as mulheres ganharem espaço na sociedade, considerada patriarcal e machista.
Ao valorizar a mulher na história, ela trouxe o exemplo de algumas que tiveram papel relevante, entre elas a escritora Christine de Pizan (século 14), as cientistas Mary Somerville e Émile du Châtelet (século 19), Cristina da Suécia e a educadora e escritora brasileira Nísia Floresta (século 19).

Na condição de historiadora e interessada pela temática da circulação de ideias, Maria Lúcia deu ênfase a um estudo que fez sobre uma atribuição equivocada à tradução livre da obra A Vindication of the Rights of Woman, da feminista britânica Mary Wollstonecraft.
Em suas pesquisas, ela revelou que a tradução feita por Nísia Floresta, cuja obra é intitulada Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, é uma tradução literal de outro livro, Woman Not Inferior to Man, publicada em 1739 sob o nome de Shopia, a Person of Quality, autor ou autora cuja verdadeira identidade é até hoje desconhecida.
A professora Maria Lúcia Palhares-Burke e o professor Peter Burke vieram para Foz do Iguaçu a convite do Centro de Altos Estudos da Conscienciologia (Ceaec). A iniciativa partiu de um grupo de pesquisadores que estudam polimatia — capacidade que uma pessoa tem de adquirir conhecimentos em diferentes áreas do saber e conectá-los.
Na Unila a atividade foi coordenada pelos cursos de graduação e pós-graduação em História. Para a coordenadora do Centro Interdisciplinar de Antropologia, Educação e História da Unila, professora Juliana Pirola, a presença dos historiadores representou um momento histórico para a comunidade acadêmica. “Mais do que uma oportunidade de ouvir dois grandes historiadores, o encontro permitiu aproximar nossos estudantes de pesquisadores cujas obras fazem parte de sua própria formação”.
Mediadora do evento, a professora visitante da Unila na área de História, Andreya Seiffert destaca que os professores Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke são dois historiadores mundialmente renomados, cujas pesquisas têm contribuído para o campo historiográfico de maneira decisiva.
Serviço:
Nesta sexta-feira, 16, Burke ministrará uma aula magna gratuita e aberta no Ceaec, que poderá ser acompanhada online no seguinte endereço: Aula Magna Online História Cultural dos Polímatas, com Peter Burke — Atividade gratuita — online — Sympla.

