Um intelectual que viveu na Região Oeste do Paraná deixou um legado imensurável para a América Latina. Doutor em Ciências Sociais e mestre em Economia do Desenvolvimento, Marcelo Grondin (1926–2025) morou em Toledo. Publicou dez livros e falava dez idiomas.
O centenário de nascimento dele foi lembrado, no dia 16 de setembro, em uma roda de conversa na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), conduzida pela companheira de Marcelo, a escritora, socióloga e educadora popular Moema Viezzer.
A história do casal começou durante andanças pela América Latina. Ela, exilada na época da ditadura militar brasileira; ele, missionário canadense que viveu na Bolívia por 17 anos e percorreu vários países como professor e pesquisador.
A vida de Marcelo pode ser contada a partir das obras que ele escreveu. Por trás de cada livro, há uma história, uma vivência, um aprendizado, uma mão que apoiou, sejam os quechuas, aymaras, camponeses, haitianos ou dominicanos.
No Altiplano, Marcelo morou por um tempo com os quechuas e aymaras. Acompanhou a luta dos povos contra a colonização. Nas férias, aproveitou as horas vagas e aprendeu as duas línguas.

Mas fez muito mais. Tempos depois, publicou uma gramática quechua e outra aymara pensando em ajudar estrangeiros, missionários que viviam em torno dos indígenas: Runa Simi — método de quéchua (1980) e Quillajaqin Arupa — método de aymara (1983). “Ele dizia: ‘50% do meu coração está no Brasil, e 50%, na Bolívia’”, conta Moema.
No Haiti, lembra a companheira, coordenou um projeto rural e apoiou a construção de escolas com participação de camponeses durante trabalho de cooperação internacional realizado a partir do convite do Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas. Lá, falava o créole e surpreendia por ser branco e estrangeiro.
Na República Dominicana, onde também atuou em projeto semelhante ao do Haiti, saia de casa na segunda-feira e voltava na sexta, trabalhando junto a camponeses.
Ao deixar o Haiti, Marcelo e Moema viveram um tempo em São Paulo. Lá, ele trabalhou na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e fez pesquisa sobre o perfil dos sindicalistas, na qual constatou que a maior parte era originária de áreas rurais.
Após morar em São Paulo, o casal se fixou em Toledo, com as duas filhas, e não saiu mais. A mente inquieta de Marcelo também não parou. A imensa curiosidade em saber a origem das “coisas” o levou a escrever um livro sobre Toledo, a partir de entrevistas com pioneiros.
Ele costumava escrever em francês e sempre à mão, lembra Moema. Em uma parceria intelectual, ela digitava em fonte 14 as ideias dele, que resultaram nos últimos livros. Uma frase fixada em um quadro movia a vida de Marcelo: “A pessoa se torna velha à medida que deixa de aprender.”

Tupaj Katari
Latino-americanista, Marcelo Grondin publicou uma obra que analisa a insurreição indígena e camponesa ocorrida no Alto Peru, atual Bolívia, no final do século 18: Tupaj Katari e a Revolução Camponesa-Indígena na Bolívia de 1781–1783.
Publicado originalmente na década de 1970, o livro também circulou no Brasil em versão intitulada A rebelião camponesa na Bolívia, lançada pela Editora Brasiliense, em 1984, na coleção Tudo é História. Agora, uma edição atualizada será publicada pela Edunila — Editora da Unila e já foi entregue ao coordenador da editora, professor Julio Moreira que esteve no evento.

Na condição de professor, Marcelo deu aulas no Canadá, México, Haiti e Brasil e exerceu, durante três anos, a função de diretor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). A Unioeste mantém um projeto audiovisual no qual há registros da trajetória e produção intelectual dele.
Marcelo Grondin faleceu em setembro de 2025, aos 99 anos, deixando pesquisas e obras relacionadas a aspectos históricos, políticos, linguísticos e socioeconômicos latino-americanos.
Entre seus livros estão: Haiti: cultura, poder e desenvolvimento, A rebelião camponesa na Bolívia e O alvorecer de Toledo: na colonização do Oeste do Paraná, 1946–1949. Em conjunto com Moema Viezzer, publicou: Abya Yala!: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas.

