O dinheiro que o Congresso reserva e nem sempre entrega a Foz
Quanto chega, quem assina, para onde vai e por que tanto fica pelo caminho? Em reportagem especial, o H2FOZ dissecou 12 anos de emendas parlamentares destinadas a Foz do Iguaçu.
- 1Em 12 anos, Foz recebeu R$ 73,3 milhões em emendas federais, apenas R$ 248 por habitante, o que coloca a cidade em 28º entre 40 municípios de mesmo porte.
- 2Quase R$ 17,4 milhões empenhados nunca foram pagos: 19% de tudo o que foi reservado para a cidade não virou obra nem serviço.
- 3A saúde capta o maior bolo, mas é onde mais dinheiro se perde: três de cada quatro reais vão para custeio temporário, e a maior emenda da área está travada há nove anos.
- 4Foz não tem padrinho fixo: dos 37 autores, cinco concentram 56%. E mesmo o maior deles, o deputado Vermelho, destinou à cidade só 5,5% do que empenhou no país.
- 5Nem o tamanho da cidade nem os royalties de Itaipu explicam a baixa captação: cidades vizinhas e de mesmo porte captam muito mais. É escolha política.
Em um país no qual as emendas parlamentares viraram uma das principais moedas de troca da política nacional, o dinheiro escorre entre a promessa e a entrega. E, mesmo nesse jogo, Foz do Iguaçu joga em desvantagem. A cidade capta menos que a média das cidades do mesmo porte e está longe de converter representação política em recurso concreto.

Antes de entrar nos números, um esclarecimento. As emendas parlamentares são um instrumento legítimo e importante da atividade legislativa: permitem que deputados e senadores direcionem recursos federais a demandas locais que conhecem de perto. Esta reportagem não trata as emendas como favor ou moeda de troca, nem sugere que o parlamentar tenha obrigação de retribuir votos com verba.
O trabalho de um parlamentar é mais amplo do que a captação de recursos: envolve a proposição e a aprovação de leis, a fiscalização do Executivo e a representação de seus eleitores. O que este levantamento faz é medir uma dimensão específica desse trabalho, quanto dinheiro federal chegou de fato a Foz do Iguaçu por meio de emendas ao longo de 12 anos, e compará-la com a de outras cidades. É um recorte, não um julgamento sobre o conjunto da atuação de cada parlamentar.
Ao longo de 12 anos, entre 2014 e maio de 2026, a cidade recebeu, em tese, R$ 73,3 milhões em emendas parlamentares federais. Isolado, o número parece expressivo. Porém, diluído pela população e pelo tempo, encolhe: são menos de R$ 250 por morador em mais de uma década, ou cerca de R$ 20 por ano para cada habitante. Pouco mais que o preço de um lanche para bancar saúde, educação e obras.
O levantamento realizado pelo H2FOZ, com base em milhares de registros dos dados abertos do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU), mostra que, durante esses 12 anos, a cidade foi beneficiada com 113 emendas, distribuídas em 557 documentos de empenho, liquidação e pagamento.
Entenda: o que é uma emenda
As emendas parlamentares são parcelas do orçamento público que deputados e senadores indicam para financiar obras, projetos e serviços nos estados e municípios.
Empenhar é o primeiro passo orçamentário, uma promessa formal. Pagar é o último: o dinheiro precisa sair da União para a conta da prefeitura, do hospital ou da entidade favorecida.
Saúde lidera, turismo fica com migalhas
As emendas direcionadas a Foz se distribuem em dez áreas, com a saúde liderando com folga: R$ 22,18 milhões pagos ou 30,3% do total. Em seguida, vem a categoria Múltiplo, com R$ 13,56 milhões. Esse agrupamento é pouco transparente e reúne emendas não discriminadas por setor específico. Na sequência, os Encargos Especiais, as emendas PIX, somam R$ 12,8 milhões.
O segmento desporto e lazer ficou em quarto, com R$ 10,8 milhões. Logo depois, a educação veio em quinto, com R$ 4,96 milhões, seguida por assistência social, urbanismo, segurança pública e agricultura. O turismo, setor que move a economia local, recebeu apenas R$ 676 mil em 12 anos, pouco mais de R$ 2 por habitante.
Essa liderança da saúde, porém, não nasce de uma escolha dos parlamentares por Foz. Ela é, em boa medida, imposição legal. Desde a Emenda Constitucional 86, de 2015, a execução das emendas individuais virou obrigatória, e metade do valor de cada parlamentar precisa ir para a saúde. Depois, a Emenda Constitucional 126, de 2022, manteve a regra. Ou seja: a saúde lidera porque a Constituição manda, enquanto áreas sem piso garantido, como o turismo, disputam as sobras. Assim, o que move a economia de Foz depende da boa vontade de quem assina a emenda.

A saúde é a área que mais atrai emendas parlamentares em Foz do Iguaçu. Entre 2015 e abril de 2026, parlamentares e instâncias do Congresso empenharam R$ 37,66 milhões para o setor na cidade. Pagaram, porém, R$ 22,18 milhões. A execução fica em 58,9%, pouco mais da metade.
Todo o recurso entra pela via fundo a fundo, o trâmite mais ágil do SUS, em que o dinheiro desce do Fundo Nacional direto para o Fundo Municipal de Saúde, sem convênio. Portanto, é o caminho que deveria ser o mais simples de executar. Mesmo assim, trava.

Três quartos do dinheiro são remendo, não estrutura
O detalhe mais revelador aparece quando se abre o dinheiro por finalidade. Na prática, a maior parte não constrói nem equipa nada. Vai para custeio temporário, ou seja, para manter os serviços de pé. Somadas, as duas rubricas de incremento temporário ao custeio, uma para a assistência hospitalar, outra para a atenção primária, chegam a R$ 28,4 milhões, ou 75% de tudo o que a saúde captou.
Esse tipo de gasto tem prazo de validade. Ele paga plantão, compra insumo e cobre despesa do dia a dia, mas seca quando a emenda acaba. Em contrapartida, só uma fatia pequena vai para algo que permanece. A rubrica de estruturação de unidades especializadas soma R$ 4,07 milhões. E aqui há um contraste forte: enquanto a estruturação executou bem, a rubrica de apoio à manutenção de unidades, na qual está a maior emenda travada da cidade, pagou exatamente zero.


O caso mais antigo está parado há nove anos
O exemplo mais simbólico vem de 2016. Uma emenda do então deputado Fernando Giacobo empenhou R$ 4,49 milhões para apoio à manutenção de unidades de saúde em Foz. Dez anos depois, dois terços do dinheiro nunca chegaram: dos R$ 4,49 milhões prometidos, R$ 2,95 milhões continuam parados.
Giacobo, porém, é a exceção. Rastreadas pelo código da emenda, praticamente todas as outras emendas de saúde destinadas a Foz foram efetivamente pagas, inclusive as de valor alto: R$ 2,5 milhões de Flávio Arns e R$ 2 milhões do deputado Vermelho, ambas de 2023, saíram integralmente. O que ficou pelo caminho na saúde se concentra em uma única emenda, de quase dez anos atrás.
Atraso recente ou dinheiro perdido?
Antes de cravar que o dinheiro se perdeu, vale uma distinção. Considerando o ano de origem da emenda, a maior parte do valor parado é recente: R$ 14,1 milhões vêm de emendas de 2024 a 2026, ainda dentro do prazo normal de pagamento. Portanto, é recurso que ainda pode chegar. O dinheiro com prazo efetivamente vencido, de emendas de 2022 ou anteriores, soma R$ 1,23 milhão. Já esse é o que Foz provavelmente perdeu de vez.

Em resumo, a saúde de Foz vive de um fluxo instável e de curto prazo. Capta muito, executa pouco e raramente transforma emenda em estrutura permanente. Para fechar o quadro, a reportagem leva duas perguntas. Ao Ministério da Saúde: por que tantos repasses fundo a fundo travaram? E à Prefeitura: o município habilitou o recebimento e cumpriu as contrapartidas exigidas? Em emendas fundo a fundo, a trava muitas vezes está na ponta municipal.
A efetividade, no entanto, varia muito conforme o tipo de emenda. As chamadas “emendas PIX” são o melhor exemplo de dinheiro que sai rápido. Nessa modalidade, o parlamentar transfere o recurso direto para a conta da prefeitura, sem convênio nem prestação de contas prévia. Por isso, o resultado aparece nos números: R$ 12,8 milhões empenhados, R$ 12,8 milhões pagos. Ou seja, tudo o que foi prometido virou repasse.
No outro extremo estão as emendas de comissão. Elas nascem nos colegiados temáticos do Congresso, como as comissões de Educação, Saúde ou Meio Ambiente, e financiam áreas específicas ou projetos das próprias instituições. Aqui, porém, o problema é a execução. Dos R$ 27,89 milhões empenhados para Foz, só R$ 13,50 milhões foram pagos. Ou seja, uma taxa de 48,4%: menos da metade.
A lista dos casos mais críticos tem padrão claro: tudo concentrado em comissões setoriais, em valores médios a altos. Por exemplo, a Comissão de Desenvolvimento Urbano empenhou R$ 7,9 milhões em duas emendas para Foz (2024 e 2025) e pagou zero. Além disso, o mesmo aconteceu com as comissões de Turismo (R$ 1,8 milhão em 2025), de Agricultura (R$ 2,12 milhões em 2025) e a de Educação, Cultura e Esporte (R$ 670 mil).

As emendas de bancada também ficaram pelo caminho. Esse tipo reúne deputados e senadores de um mesmo estado em torno de uma proposta coletiva, geralmente para obras estruturantes. Na teoria, têm caráter impositivo, ou seja, o governo federal é obrigado a executá-las. Na prática, em Foz, foram R$ 5,19 milhões empenhados e R$ 4,31 milhões pagos, 83,0% de execução.
As emendas de relator contam outra história. Quem decide para onde vai o dinheiro é o relator-geral do Orçamento da União, sem identificação clara do parlamentar de origem, o que rendeu o apelido de “orçamento secreto”. Ainda assim, a execução chega a 99,8%. Por sua vez, as individuais, parcela que cada parlamentar tem direito de destinar a obras e serviços no seu reduto, ficaram em 93,4%.
Os cinco tipos, explicados
Clique em cada modalidade para ver como funciona e a taxa de execução em Foz.
Emenda PIX (Transferência Especial)
100%O parlamentar transfere o dinheiro direto para a conta da prefeitura, sem convênio nem prestação de contas prévia. É a mais rápida e a mais opaca. Em Foz: R$ 12,8 milhões empenhados, R$ 12,8 milhões pagos.
Emenda de Relator
99,8%Recursos cuja destinação é definida pelo relator-geral do Orçamento, sem identificação clara do autor. Por isso, ficou conhecida como “orçamento secreto”. Apesar da polêmica, é a de execução mais alta: R$ 13,38 milhões empenhados, quase tudo pago.
Emenda Individual
93,4%A cota que cada parlamentar destina ao seu reduto, com autoria e finalidade definidas. Em Foz, somou R$ 31,44 milhões empenhados e R$ 29,38 milhões pagos, com um saldo de R$ 2,07 milhões parado.
Emenda de Bancada
83,0%Propostas coletivas de deputados e senadores de um mesmo estado, para obras estruturantes. Também têm caráter impositivo. Na prática, em Foz, foram R$ 5,19 milhões empenhados e R$ 4,31 milhões pagos.
Emenda de Comissão
48,4%Nascem nos colegiados temáticos do Congresso. Na prática, são as que mais empacam. R$ 27,89 milhões empenhados, só R$ 13,50 milhões pagos. A Comissão de Desenvolvimento Urbano reservou R$ 7,9 milhões e pagou zero.
A situação já foi pior
Foz do Iguaçu passou anos com baixa captação de emendas federais. Em 2015, foram apenas R$ 925 mil, cerca de R$ 3 por habitante. Nos anos seguintes os valores seguiram baixos, com o pior resultado em 2019: R$ 284 mil, praticamente R$ 1 por morador no ano.
O cenário muda a partir de 2020, quando os repasses saltam para R$ 5,0 milhões, em meio ao auge da chamada Emenda de Relator. Desde então, o município mantém um novo patamar, com valores entre R$ 5,0 milhões e R$ 8,7 milhões anuais, à exceção dos picos de 2023 e 2025. O recorde foi 2023, com R$ 15,62 milhões pagos; em 2025, vieram R$ 13,90 milhões. Em 2026, os dados parciais já somam R$ 7,29 milhões até maio.
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Falta de articulação
As emendas de comissão e de bancada dependem de articulação coletiva e poderiam compensar a fraqueza individual. Entretanto, são justamente as que menos funcionam em Foz. As comissões empenharam R$ 27,89 milhões e pagaram só R$ 13,50 milhões. A Bancada do Paraná, em 12 anos, destinou nove emendas que somaram R$ 5,19 milhões, uma média de R$ 400 mil por ano. Em paralelo, o Orçamento Secreto empenhou e pagou R$ 13,4 milhões para Foz, com execução de 99,8%.
Quem assina as emendas para Foz tem nome e sobrenome, quando há informação. Ao todo, 37 autores diferentes destinaram recursos a favorecidos no município. A lista, porém, é curta no topo: os cinco primeiros respondem por 56% de tudo, e os dez maiores, por 77%.
O relator-geral lidera com folga. Foram R$ 13,35 milhões em 11 emendas, ou cerca de 18% do total captado pela cidade. Trata-se do antigo “orçamento secreto”, sem autor individual atribuído. Em segundo aparece a Comissão do Esporte, com R$ 9,22 milhões, 13% de tudo. E aqui há um dado revelador: essa fatia inteira veio de apenas duas emendas. O segundo maior padrinho de Foz, portanto, é pouco recorrente.
O deputado Vermelho fecha o pódio: R$ 9,63 milhões pagos em 12 emendas, de um total empenhado de R$ 10,7 milhões. Logo atrás vêm Giacobo, com R$ 6,11 milhões em cinco, e Sargento Fahur, com R$ 4 milhões em nove. Filipe Barros surge na sequência, com R$ 3,03 milhões concentrados em só duas emendas. A partir daí, os valores caem rapidamente.
A lista completa dos 37 autores. Busque por um nome ou ordene pelas colunas. P = parlamentar, C = coletivo, S = sem identificação.
| Autor | Tipo | Recebido (R$) | % | Emendas |
|---|
Os nomes improváveis que pingaram emendas
A cauda da lista guarda histórias curiosas. O caso mais simbólico é o de Jean Wyllys. O ex-deputado do PSOL renunciou ao mandato e deixou o Brasil em 2019, sob ameaças. Ainda assim, seu nome aparece com R$ 22,5 mil, em cinco repasses até 2020. É a execução tardia de emendas que ele havia empenhado antes de partir. Quase todo o valor foi para uma empresa de cursos de capacitação.
Tiririca é o oposto: o humorista mais votado do país destinou R$ 195 mil a Foz, tudo para o Senac, em capacitação profissional. A família Bolsonaro também aparece: Jair, ainda deputado, com R$ 10,4 mil para produtos ortopédicos; Eduardo, com R$ 2,9 mil para material médico.
A lista por favorecido rastreia quem recebeu o cheque, não quem o município quis beneficiar. Por isso, aparecem nomes como Sarney Filho, com R$ 95, ou o gaúcho Bohn Gass, com exatos R$ 2,57. Não são escolhas políticas. São migalhas de execução que pingaram numa empresa sediada na cidade.
Voto não vira emenda
A relação retorno-voto mais baixa do levantamento pertence a um senador. Sergio Moro fez 38.565 votos em Foz em 2022, quase 28% do total válido para o Senado na cidade, e foi eleito com 1,95 milhão de votos no Paraná. Em três anos de mandato, destinou R$ 1,79 milhão a Foz em emendas individuais, ou R$ 46 por voto recebido na cidade.
A leitura precisa de cautela: senadores têm mandato mais longo e um universo maior de distribuição. Ainda assim, Flávio Arns, eleito em 2018 e com mandato até 2027, destinou R$ 3,58 milhões a Foz desde 2022, quase o dobro de Moro em período mais longo. O início do mandato de Moro sugere outra prioridade: dos R$ 1,79 milhão, R$ 1,27 milhão vieram em 2024, e o restante está dividido entre 2025 e 2026, com R$ 300 mil ainda sem pagamento. Ademais, Foz não aparece como destino prioritário, mesmo tendo sido o segundo município com mais votos para o senador no estado.
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| Parlamentar | Votos 2018 | Emendas 20–23 | Votos 2022 | Emendas 24–26 |
|---|---|---|---|---|
| Filipe Barros (PL) | 319 | R$ 0 | 5.296 | R$ 3,50 mi |
| Vermelho (PL) | 20.001 | R$ 7,38 mi | 18.525 | R$ 3,30 mi |
| Sargento Fahur (PSD) | 5.000 | R$ 1,51 mi | 5.185 | R$ 2,14 mi |
| Carol Dartora (PT) | — | — | 1.743 | R$ 1,05 mi |
| Diego Garcia (Rep.) | 1.095 | R$ 860 mil | 1.616 | R$ 600 mil |
| Giacobo (PL) | 10.080 | R$ 1,40 mi | 7.370 | R$ 0 |
| Gleisi Hoffmann (PT) | 4.315 | R$ 1,35 mi | 10.020 | R$ 0 |
| Aroldo Martins (Rep.) | 989 | R$ 1,66 mi | — | — |
| Paulo E. Martins (PL) | 5.325 | R$ 1,00 mi | — | — |
Vermelho é o único nome que aparece nos dois ciclos. Filipe Barros saiu do zero, em 2018, para R$ 3,5 milhões no mandato atual. Na outra ponta, nomes evaporaram: Giacobo foi reeleito, mas zerou Foz; Gleisi saiu para ser ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais; Paulo Eduardo Martins foi disputar o Senado.
Duas formas de medir, dois números
Ao cruzar votos e emendas, um detalhe metodológico precisa ficar claro, porque ele muda os números. O dinheiro de uma emenda pode ser medido de duas formas, e cada uma conta uma história diferente.
A primeira é a ótica de aplicação. Ela pergunta: quanto foi empenhado para obras e serviços executados dentro de Foz do Iguaçu? É a lente que esta série adota como padrão. Por ela, o deputado Vermelho reservou R$ 10,7 milhões à cidade, o equivalente a 5,5% dos R$ 194 milhões que ele empenhou em todo o país.
A segunda é a ótica de favorecido. Ela segue o caminho do dinheiro até quem recebeu o cheque: quanto chegou a entidades sediadas em Foz? Por essa lente, o mesmo Vermelho aparece com R$ 7,15 milhões, ou 4,1% do total nacional.
Por que dois percentuais para o mesmo deputado
5,5%, ótica de aplicação: R$ 10,7 mi empenhados para Foz ÷ R$ 194 mi empenhados no país. É o que esta série usa.
4,1%, ótica de favorecido: R$ 7,15 mi recebidos por favorecidos em Foz ÷ R$ 174 mi recebidos no país. Mede o que de fato chegou.
Nenhuma está errada. São lentes diferentes sobre o mesmo parlamentar.
O que diz o deputado
Procurado pela reportagem, o gabinete do deputado Vermelho (PL) enviou nota de esclarecimento em que contesta o recorte de R$ 10,7 milhões. O valor, argumenta, cobre só as emendas empenhadas e deixa de fora o restante dos recursos que o mandato diz ter viabilizado. Pela conta do próprio gabinete, Foz recebeu R$ 92,9 milhões entre 2019 e 2026.
Esse total, porém, mistura emendas com repasses de outra natureza. Entram na soma R$ 29,9 milhões do Fundo Nacional de Saúde no combate à covid-19 e R$ 15 milhões articulados com a Itaipu Binacional. Juntos, são quase metade do valor. Nenhum dos dois passa pelo orçamento de emendas parlamentares, objeto deste levantamento. O período também é outro: a nota fala de 2019 a 2026; a reportagem cobre de 2014 a 2026.
Entre as entregas que reivindica, o gabinete cita a construção de quatro CMEIs, o Ginásio de Esportes Cidade Nova, repasses a 13 entidades assistenciais e a defesa do PERSE, programa de alívio fiscal que socorreu a hotelaria na pandemia.
No papel, entretanto, o recurso é emenda da comissão. O Portal da Transparência não registra quem está por trás desse tipo de repasse. A lacuna abre espaço para que mais de um político reivindique a mesma obra.
Clique aqui para ler a nota de esclarecimento do gabinete do deputado VermelhoEsclarecimento
As emendas parlamentares são um instrumento legítimo e importante da atividade legislativa: permitem que deputados e senadores direcionem recursos federais a demandas locais que conhecem de perto. Esta reportagem não trata as emendas como favor ou moeda de troca, nem sugere que o parlamentar tenha obrigação de retribuir votos com verba.
O trabalho de um parlamentar é mais amplo do que a captação de recursos: envolve a proposição e a aprovação de leis, a fiscalização do Executivo e a representação de seus eleitores. O que este levantamento faz é medir uma dimensão específica desse trabalho, quanto dinheiro federal chegou de fato a Foz do Iguaçu por meio de emendas ao longo de 12 anos, e compará-la com a de outras cidades. É um recorte, não um julgamento sobre o conjunto da atuação de cada parlamentar.
Quanto vale cada voto
A pergunta que fecha a conta é simples: quanto cada parlamentar devolveu a Foz por voto recebido na cidade? Pela ótica local, divide-se o que foi empenhado para Foz pelos votos do parlamentar na cidade. É uma forma de medir o retorno direto ao eleitor, mas, como toda razão, ela depende do tamanho dos dois lados da conta.
Esse número, porém, engana se lido sozinho. Aliel Machado aparece no topo porque teve só 205 votos em Foz e, ainda assim, uma emenda de R$ 550 mil. Basta dividir um valor grande por um número pequeno para o resultado disparar. O mesmo vale para Aroldo Martins e Diego Garcia: poucos votos, uma emenda relevante, e um “retorno por voto” alto que não significa fidelidade à cidade. Por isso a tabela abaixo mostra votos e emenda lado a lado: é a leitura conjunta, não o valor por voto isolado, que revela o quadro real.
Quando se olha para quem teve votação expressiva, o retorno por voto encolhe. Vermelho, com 38,5 mil votos somados nos dois pleitos, devolveu R$ 277 por voto. Sergio Moro, R$ 46. Oriovisto Guimarães, o senador mais votado de Foz em 2018, apenas R$ 11 por voto.
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A tabela abaixo traz, ao lado do retorno por voto, o total de emendas que cada parlamentar empenhou no país inteiro e o quanto desse bolo coube a Foz. A leitura desse percentual reforça a tese da série. Foz não tem um problema de votos, e sim de retorno. Os parlamentares mais votados na cidade são, em geral, os que menos devolvem por voto. E mesmo quem destinou mais recursos a Foz reservou à cidade apenas uma fração do que distribuiu pelo país: o Vermelho, que lidera em valor absoluto, destinou só 5,5% do que empenhou.
Votos e emendas, lado a lado. Os 25 parlamentares que tiveram votos em Foz e destinaram emendas à cidade. Busque por um nome ou ordene pelas colunas. D = deputado federal, S = senador. O retorno por voto só faz sentido lido junto da coluna de votos.
| Parlamentar | Votos em Foz | Empenhado p/ Foz (R$) | R$/voto |
|---|
Votos: votação nominal em Foz (deputado federal e senador, TSE 2018 e 2022, somando as zonas). Emendas: ótica de aplicação (empenhado), Portal da Transparência da CGU. R$/voto local = empenhado para Foz ÷ votos em Foz. Total de emendas = tudo que o parlamentar empenhou no país. % p/ Foz = empenhado para Foz ÷ total de emendas.
O maior “padrinho” destina só 5,5% do que tem
Em Foz, o parlamentar que mais destinou recursos é o deputado Vermelho (PL). Ele empenhou R$ 10,7 milhões à cidade, entretanto isso é somente 5,5% do total de R$ 194 milhões em emendas que ele empenhou pelo país. São 161 municípios atendidos.
Foz aparece em terceiro lugar, atrás de Umuarama (R$ 21,3 milhões) e Francisco Beltrão (R$ 12,6 milhões). A dispersão fica clara na cauda da lista. Das 161 cidades, 125 receberam entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão, quase sempre o piso de uma emenda individual fracionada. Apenas 35 municípios passaram de R$ 1 milhão. A média de fidelidade entre os parlamentares que destinam a Foz é de 2,1%, treze vezes menor que a média dos padrinhos das cidades-modelo (27,6%).
Questionado pelo H2FOZ sobre os critérios adotados para definir os municípios beneficiados por suas emendas, o deputado Vermelho, em nota, afirmou que as destinações seguem critérios de urgência, capacidade de execução e impacto do investimento. Os dados mostram, contudo, que Foz, maior base eleitoral do deputado, recebeu menos que Umuarama e Francisco Beltrão.
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As 161 cidades beneficiadas pelo Vermelho. A barra em cada linha mostra o tamanho do repasse: Umuarama lidera e Foz aparece só em terceiro. Busque ou ordene a lista completa.
| Município | Empenhado (R$) | % do total |
|---|
A comparação de Foz com a média nacional dificulta o entendimento. Afinal, são mais de quatro mil municípios brasileiros com menos de 30 mil habitantes, realidade muito diferente da observada em uma cidade fronteiriça com quase 300 mil moradores.
O recorte mais honesto é o das 40 cidades brasileiras com 250 mil a 350 mil habitantes, conforme a estimativa do IBGE para 2024. Entre esses 40 municípios, Foz é apenas o 28º no valor captado per capita. Pelo valor absoluto, fica em 27º lugar. A média do grupo é de R$ 433,51 por morador. Ou seja, Foz capta 57,2% disso.

Embu das Artes (SP) lidera com R$ 1.174,37 por habitante, 4,7 vezes o total de Foz. Logo atrás vêm Governador Valadares (MG), com R$ 949,28; Cotia (SP), com R$ 767,35; Imperatriz (MA), com R$ 790,05; e Petrópolis (RJ), com R$ 720,97. Petrópolis chama atenção: cidade turística, histórica, com população parecida, captou R$ 212,3 milhões em 12 anos, três vezes mais que Foz.
O mapa das cidades de mesmo porte
Onde está cada uma das 41 cidades do recorte. A cor do ponto indica a faixa de captação por morador: quanto mais escuro, mais a cidade capta. Foz aparece em destaque. Logo abaixo do mapa, a lista completa, pesquisável.
| # | Cidade | UF | População | R$/hab. |
|---|
Royalties não substituem a articulação
Foz do Iguaçu tem fontes de receita federal que outras cidades não têm. Os royalties de Itaipu chegam todo mês ao caixa do município. Somente em 2025, a hidrelétrica repassou quase R$ 145 milhões. A teoria mais simples diria que cidades com renda automática deveriam captar pouca emenda. Os dados desmentem a teoria pela metade.

Cinco municípios com royalty bilionário ou semi-bilionário aparecem acima de Foz no per capita de emendas: Campos dos Goytacazes (R$ 840/hab), Itabira (R$ 493), Saquarema (R$ 461), Maricá (R$ 442) e Niterói (R$ 305). Três cidades de royalty alto ficam abaixo de Foz: Canaã dos Carajás (R$ 165), Parauapebas (R$ 94) e Macaé (R$ 64).
| Cidade | UF | Pago (R$) | R$/hab. | Exec. | Royalty 2024 |
|---|
Campos: a campeã absoluta
Campos dos Goytacazes, 483 mil habitantes no norte fluminense, encabeça o ranking de captação por habitante entre as cidades com royalty bilionário. Em 12 anos somou R$ 436,1 milhões em emendas federais, metade em saúde. Por fim, a explicação cabe em uma lista de nomes: Clarissa Garotinho destinou R$ 46,4 milhões; Christino Aureo, R$ 30,9 milhões; Paulo Feijó, R$ 29,0 milhões. Somam-se R$ 48,2 milhões da Bancada do Rio e R$ 90,4 milhões do Relator Geral. Campos não tem um padrinho: tem vários.
Ainda no Rio, Maricá é o caso em que a articulação conta uma história em si. Fez deputado federal em 2018 (Fabiano Horta, PT), que voltou como prefeito, sucedido por Washington Quaquá, outro deputado do PT com base na cidade. Os R$ 93,8 milhões captados vieram de uma rede do PT carioca: Benedita da Silva, Jandira Feghali, Juninho do Pneu, o próprio Fabiano Horta, além da Comissão da Saúde. Niterói, com o segundo maior royalty fluminense, teve a segunda maior captação absoluta da lista: R$ 157,4 milhões, R$ 305 por habitante.
Itabira e o modelo Vale
Itabira é onde a regra do petróleo cede lugar à do minério. Cidade de 113 mil habitantes no centro-leste mineiro, sustenta as minas mais antigas da Vale. Captou R$ 58,1 milhões, o equivalente a R$ 493 por habitante, quase o dobro de Foz. A bancada de Minas é a base: sozinha aportou R$ 12,8 milhões em emendas de bancada, o triplo do que a Bancada do Paraná destinou a Foz no mesmo período.
Saquarema tem 95 mil habitantes e R$ 2,01 bilhões em royalties em 2024. Captou R$ 43,9 milhões, R$ 461 por habitante, sem um nome desproporcional. A execução é alta: 89% do empenhado virou pagamento, contra 81% de Foz. Saquarema mostra que articulação não precisa estar concentrada em um nome forte; pode estar distribuída, se a estrutura técnica municipal for boa em transformar emenda em projeto executado.
Macaé vive problema semelhante
Macaé é a capital do petróleo brasileiro. Em 2024, recebeu R$ 1,4 bilhão em royalties, 30% da receita municipal. A hipótese fácil teria que apostar tudo em Macaé. Não funciona. Em 12 anos, a cidade captou R$ 16,9 milhões em emendas federais, R$ 64 por habitante, três quartos a menos que Foz. Nenhuma cidade com royalty bilionário tem captação mais baixa.
E os vizinhos do Oeste?
Ao olhar para o lado, São Miguel do Iguaçu, Santa Helena e Itaipulândia, que também recebem royalties, captam mais por habitante que Foz. A receita extra não impediu que articulassem melhor a representação federal.
Entre as 16 cidades lindeiras de Itaipu (15 no Paraná e Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul), Foz fica em último lugar no per capita. Diamante D’Oeste lidera com R$ 2.399,79 por morador, quase dez vezes Foz. Além disso, Mercedes (R$ 1.529,60), Missal (R$ 1.562,90) e Pato Bragado (R$ 1.496,80) completam o topo. A média do grupo é de R$ 996,20 por habitante. Foz capta apenas 24,9% disso.
| # | Cidade | UF | População | R$/hab. |
|---|
As 16 lindeiras são as que tiveram território diretamente alagado pelo reservatório. Outras cidades da região também recebem repasses de Itaipu por critérios distintos, mas o recorte oficial das lindeiras é este.
Identificar e eleger parlamentares dispostos a concentrar boa parte das suas emendas em Foz, e cobrar entregas concretas durante o mandato. Sem isso, a curva de captação tende a se manter no patamar histórico, bem abaixo do que cidades comparáveis arrecadam.
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Como os dados foram extraídos
A reportagem combina três frentes: os registros do Portal da Transparência da CGU, as informações sobre royalties e CFEM (ANP e ANM) e os dados populacionais do Censo 2022 do IBGE. O recorte vai de janeiro de 2014 a abril de 2026.
Na apuração principal, foram considerados os recursos com Foz como local de aplicação, em documentos de empenho, liquidação e pagamento. Em alguns momentos, o texto usa a visão por favorecido, que acompanha o dinheiro até quem recebeu o repasse, o que explica diferenças entre valores agregados e rastreáveis dentro da cidade.
O cruzamento com o voto usa as eleições de 2018 e 2022 e apenas emendas individuais, as únicas que permitem identificar o autor de forma nominal. Emendas de bancada, comissão e relator ficam fora dessa comparação direta.
Recursos obtidos por articulação junto a ministérios, ao Fundo Nacional de Saúde ou à Itaipu Binacional não são emendas parlamentares. Por isso, ficam fora deste levantamento, ainda que gabinetes os contabilizem em seus balanços de mandato.
Fontes e dados
Esta reportagem é baseada em dados públicos. Confira as bases originais:
Portal da Transparência da CGU — Emendas parlamentares
ANEEL — Royalties de Itaipu (CFURH) · IBGE — Censo 2022

