O abandono de animais se tornou um problema de saúde pública em Foz do Iguaçu. Gatos e cachorros são deixados em diversas regiões da cidade, muitas vezes porque estão doentes ou são idosos. Quando a sorte aparece, são amparados por protetores, porém nem todas as histórias têm um final feliz.
Animais abandonados estão por toda parte, contudo é mais comum encontrá-los em áreas rurais, nas proximidades do Cemitério São João Batista, do Monsenhor Guilherme, região central de Foz do Iguaçu, e próximo ao Parque Nacional do Iguaçu.
O problema é crítico principalmente com gatos. Muitos desses animais, quando portadores da esporotricose, acabam deixados nas ruas e transmitindo a doença para outros gatos.
A médica-veterinária Mayla Joara da Silva tem acolhido os felinos para tratar. Ela diz que muitos animais vivem soltos em residências que não têm terrenos fechados ou são cercados por muros baixos. Com isso, ficam em contato com gatos errantes, que transmitem a doença.
“É algo bem grave e sério. Às vezes, quando conseguimos pegar um animal arisco, ele chega em um estágio que não tem o que fazer”, frisa.
Ela também alerta que, em razão da disseminação da esporotricose, muitas pessoas passam a ver o gato como vilão pelo fato de o animal ser mais atingido pela doença. Por isso, os gatos acabam sofrendo com maus-tratos.

Na análise da profissional, a maioria das doenças ocorre por falta de políticas públicas, incluindo programas de educação e informação à população, porque muita gente desconhece a doença.
Protetora de animais, Elisa Vartha reafirma que o abandono ocorre principalmente com cães e gatos acometidos pela esporotricose e leishmaniose. Há pessoas que estão abandonando de três a quatro animais de uma só vez ou ninhadas.
Ela conta que muitos tutores pegam o animal sem manter os cuidados necessários, ou seja, alimentam-nos com restos de comida, não os vacinam e acabam abandonando-os. Também é comum encontrar muitos cães amarrados dentro de casa, sem água e doentes. “As pessoas ainda veem o animal como objeto inanimado”, lamenta.
Abandono na beira-parque
A equipe do Projeto Onças do Iguaçu está atenta ao movimento de abandono na área próxima ao Parque Nacional do Iguaçu. A maior parte dos animais deixados no local são cães, e a prática ocorre em todos os municípios do entorno, incluindo Santa Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Serranópolis do Iguaçu e Céu Azul, relata a médica-veterinária do Projeto Onças do Iguaçu, Patrícia Gomes.
O problema do abandono ganha amplitude porque, quando as pessoas descartam os animais à beira-parque, por questões de sobrevivência muitos acabam entrando no Parque Nacional do Iguaçu para buscar comida e abrigo, vindo a caçar animais silvestres e podendo transmitir doenças.

A questão das doenças se torna séria porque algumas patologias, a exemplo da parvovirose e da cinomose, podem atingir a fauna do parque, principalmente as onças-pintadas, e ser letais. “Coloca-se, assim, uma espécie que está extremamente vulnerável a risco de extinção no local”, observa.
A veterinária chama atenção para a disseminação de outras doenças zoonóticas, como leishmaniose e leptospirose, capazes de contagiar pessoas daquela região e tornar-se um problema de saúde pública.
Outro fruto da presença de cães e gatos na região é o aparecimento de predadores. Por serem presas fáceis, os animais abandonados acabam atraindo carnívoros como as onças para fora da área de conservação, o que faz com que elas estejam ainda mais vulneráveis aos caçadores.
Segundo Patrícia, como há muitas propriedades naquela região, alguns desses animais vão parar na casa das pessoas, as quais, por verem o sofrimento deles, acabam acolhendo-os. No entanto, muitas dessas famílias não têm recursos suficientes para abrigar tantos animais que aparecem.
Por isso, as pessoas recorrem ao Projeto Onças do Iguaçu, na tentativa de doar os bichos, porque não conseguem cuidar deles. Porém, Patrícia revela não existir um local para resguardar os animais abandonados, pois “todos os abrigos estão lotados e, infelizmente, poucos recebem recurso público para mantê-los”.
A médica-veterinária ainda destaca que Foz do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu e Matelândia adotaram o controle populacional com castrações a baixo custo, mas o abandono continua ocorrendo com muita frequência nessas cidades.
Fortalecimento de políticas públicas é saída
Em decisão de julho deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou ser dever dos municípios oferecer estrutura para acolher, tratar e proteger cães e gatos em situação de abandono ou vítimas de maus-tratos. Nesse caso, não cabe passar tal tarefa para a sociedade civil.
Para isso, é preciso fortalecer as políticas públicas, dizem protetores e médicos-veterinários. Um dos gargalos está justamente no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), que não consegue atender às demandas das protetoras e alegam ter equipe reduzida.

Para a protetora Elisa Vartha, a aplicação de multas aos tutores pode ser uma saída para responsabilização. Ela também acredita ser preciso ampliar a oferta de castração para fêmeas, porque hoje a prioridade é para machos, sejam gatos ou cachorros.
Outra decisão recente foi a aprovação, no plenário da Câmara dos Deputados, da carteira de motorista de que abandonam animais na rua. A proposta agora será enviada ao Senado.
Estimativas da Diretoria de Bem-Estar Animal (DIBA) indicam que atualmente Foz do Iguaçu concentra uma população 90 a 105 mil animais, dos quais 60 mil cachorros e aproximadamente 35 a 45 mil gatos.
O que diz o município
Em nota, a Prefeitura de Foz do Iguaçu informa que ações estão sendo tomadas. Leia na íntegra:
A Diretoria de Bem-Estar Animal (DIBA) informa que a esporotricose é uma zoonose cujo acompanhamento e manejo são de responsabilidade do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).
Diante da situação, foi instituído um comitê de crise para acompanhar a evolução dos casos, definir estratégias e coordenar as ações necessárias para o enfrentamento da doença.
A DIBA atua de forma integrada com o CCZ, monitorando a situação e fortalecendo as orientações aos tutores, à medida que os casos são identificados e comunicados aos órgãos responsáveis. O objetivo é ampliar a conscientização sobre a prevenção, a identificação precoce da doença e os cuidados necessários para reduzir o risco de transmissão, além de apoiar as ações voltadas ao enfrentamento da esporotricose.

