Foz do Iguaçu deve ter o ano mais movimentado da história no seu aeroporto. De janeiro a junho de 2026, o terminal registrou quase 1,4 milhão de passageiros, entre embarques e desembarques, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). É o melhor primeiro semestre já contabilizado na cidade. O volume supera em 28,3% o mesmo período de 2025.
Para bater o recorde, Foz precisa passar dos 2,3 milhões de passageiros de 2018, a maior marca anual até hoje. A conta joga a favor. O segundo semestre costuma superar o primeiro na cidade, puxado pelas férias de julho e pela alta temporada de dezembro. Num cenário conservador, com a segunda metade do ano apenas repetindo o volume de 2025, o terminal chegaria a cerca de 2,6 milhões. Já seriam 11% acima do recorde. Se o ritmo atual continuar, o número se aproximará de 2,9 milhões.
No ranking nacional do primeiro semestre, Foz do Iguaçu ocupou a 19.ª posição entre os aeroportos brasileiros. Dentro do Paraná, só ficou atrás de Curitiba, que aparece em 11.º lugar. No período, o terminal passou à frente de destinos turísticos tradicionais como Natal (RN) e Porto Seguro (BA).
Melhor primeiro semestre da história do aeroporto
Os 20 maiores aeroportos do BrasilMovimento total de passageiros (embarques + desembarques) no 1º semestre de 2026.1São Paulo/Guarulhos23,1 mi2São Paulo/Congonhas12,3 mi3Rio de Janeiro/Galeão9,52 mi4Brasília8,37 mi5Belo Horizonte/Confins6,28 mi6Campinas/Viracopos6,13 mi7Recife4,98 mi8Salvador4,19 mi9Porto Alegre3,95 mi10Rio de Janeiro/Santos Dumont3,13 mi11Curitiba2,99 mi12Fortaleza2,95 mi13Florianópolis2,78 mi14Belém1,93 mi15Goiânia1,80 mi16Vitória1,78 mi17Maceió1,55 mi18Manaus1,52 mi19Foz do Iguaçu1,39 mi20Natal1,37 miFoz do Iguaçu aparece em 19º, à frente de Natal, mesmo com apenas uma rota internacional regular.
| Posição | Aeroporto | Passageiros |
|---|---|---|
| 1 | São Paulo/Guarulhos | 23121130 |
| 2 | São Paulo/Congonhas | 12252125 |
| 3 | Rio de Janeiro/Galeão | 9522970 |
| 4 | Brasília | 8367564 |
| 5 | Belo Horizonte/Confins | 6284775 |
| 6 | Campinas/Viracopos | 6134622 |
| 7 | Recife | 4979402 |
| 8 | Salvador | 4186779 |
| 9 | Porto Alegre | 3947588 |
| 10 | Rio de Janeiro/Santos Dumont | 3132268 |
| 11 | Curitiba | 2987982 |
| 12 | Fortaleza | 2950137 |
| 13 | Florianópolis | 2783568 |
| 14 | Belém | 1928234 |
| 15 | Goiânia | 1801818 |
| 16 | Vitória | 1776056 |
| 17 | Maceió | 1549576 |
| 18 | Manaus | 1517889 |
| 19 | Foz do Iguaçu | 1390218 |
| 20 | Natal | 1369775 |
Como julho costuma ser o pico do ano em Foz, por causa das férias de inverno, se a temporada confirmar a tendência dos seis primeiros meses, o recorde de 2018 deverá cair bem antes de dezembro. Para 2026 bater a marca anual de 2018 (2,3 milhões), o segundo semestre precisa somar pouco mais de 940 mil passageiros. Só que o segundo semestre de 2025, sozinho, teve 1,2 milhão. Ou seja, mesmo um segundo semestre bem mais fraco que o do ano passado já garante o recorde.
Três companhias dividem quase todo o movimento
Liderança nacional em crescimento
O Aeroporto de Foz do Iguaçu foi o que mais cresceu entre os grandes terminais do país na comparação entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo período de 2025. Nenhum outro aeródromo de porte semelhante, com volume superior a um milhão de passageiros no semestre, chegou perto desse ritmo. Porto Alegre, o segundo colocado, avançou 18,9%, seguido por Natal, com 18,4%. A distância deixa claro o tamanho do salto de Foz, que somou mais de 306 mil passageiros em apenas seis meses.
O desempenho ganha ainda mais relevância diante da média nacional, enquanto os maiores aeroportos do país cresceram em ritmo de um dígito. Guarulhos avançou 3,6%, e Congonhas, 4%. Alguns até recuaram, como Viracopos (−4,4%) e Confins (−1,4%).
Foz lidera o crescimento entre os grandes aeroportos
LATAM é a 1ª. entre as companhias
Três companhias dividem a maior parte do movimento em Foz. A LATAM lidera os embarques, com 43,6%, seguida de perto pela GOL, com 34,9%. A Azul fica com 20%. A chilena JetSMART, única na operação internacional regular, responde pelo 1,5% restante.
O dado mais forte é a ocupação. Os aviões saem de Foz quase cheios: 88,2% dos assentos ocupados, na média. A Azul lidera nesse quesito, com 91,4%, fruto de aeronaves menores, jatos Embraer de cerca de 146 lugares, e boa demanda. LATAM e GOL voam com aviões maiores, na faixa de 183 a 191 assentos, e mantêm a ocupação entre 87% e 88%.
O eixo São Paulo domina a malha de Foz. Somadas, as ligações com Guarulhos, Congonhas e Campinas (Viracopos) responderam por 60,8% de todo o movimento do terminal no semestre. A rota para Guarulhos, sozinha, moveu 444 mil passageiros. Na sequência aparecem o Galeão, no Rio de Janeiro (RJ), e Congonhas, também em São Paulo.
Três companhias dividem quase todo o movimento
Maior oferta de voos
Entre 2024 e 2025, as companhias mexeram pouco na oferta de voos, mas encheram mais os aviões: a ocupação saltou de 83,8% para 88,4%. Chegou perto do teto. Para crescer em 2026, só restava um caminho: mais voos. Foi o que aconteceu. As decolagens subiram 27% num ano, de 3.497 para 4.434, e a oferta de assentos cresceu no mesmo ritmo. A demanda acompanhou e segurou a ocupação em 88%. Na prática, Foz saltou de cerca de 20 partidas por dia em 2025 para quase 25 em 2026.
Por trás das negociações por mais voos existe um arranjo de governança. A Gestão Integrada do Turismo de Foz do Iguaçu reúne cinco instituições em torno de metas comuns. O grupo, formado pela Secretaria Municipal de Turismo, Itaipu Binacional, Itaipu Parquetec, Visit Iguassu e Fundo Iguaçu, não tem orçamento próprio. Dessa forma, cada integrante mantém suas fontes de recurso e competências, mas atua de forma coordenada. Assim, alinha investimentos em promoção, inteligência de mercado, qualificação, infraestrutura e conectividade aérea.
Motiva: aviões cheios pressionam por mais voos
Para a Motiva, concessionária que administra o aeroporto, a ocupação alta manda um recado claro. “Os elevados índices de ocupação demonstram, sim, que existe demanda para ampliar a conectividade de Foz do Iguaçu”, afirma Graziella Delicato, gerente-executiva de Negócios Aéreos da empresa. Ademais, ela lembra que aproximadamente 40% dos passageiros dos voos domésticos ainda fazem conexão em outro aeroporto para chegar ao destino final. Ou seja, sobra espaço para novas rotas diretas.
Nos últimos 12 meses, Foz recuperou a ligação com Brasília e, depois, com Porto Alegre. A concessionária também vê potencial para transformar em voos regulares destinos que hoje só operam na alta temporada, como Recife, Belo Horizonte e Salvador. A palavra final, porém, fica com as companhias. “A decisão sobre abertura de rotas, frequências e tipo de aeronave é sempre das empresas aéreas”, pondera a executiva.
Os aviões saem de Foz quase cheios
A infraestrutura acompanha o ritmo. A Motiva investiu mais de R$ 350 milhões na modernização do terminal, que dobrou a capacidade para quatro milhões de passageiros por ano. “A infraestrutura atualmente disponível oferece margem significativa para absorver o crescimento projetado”, diz Graziella. Sobre a pista, a Motiva informa que o aeroporto “está preparado para atender diferentes perfis de operação”, contudo ressalva que o uso de aviões maiores depende do planejamento de cada companhia.
Por ser empresa de capital aberto, a Motiva não divulga projeções de movimentação. Mesmo assim, a executiva se mostra otimista: a malha já publicada indica cerca de 25% mais assentos no segundo semestre de 2026 ante 2025.

Fundo Iguaçu desenha a malha aérea
A estratégia por trás das rotas também nasce de um trabalho técnico. O Fundo Iguaçu contratou o consultor Gianfranco “Panda” Beting para diagnosticar a conectividade de Foz. O estudo mapeou, sobretudo, a malha atual, apontou oportunidades de mercado e passou a orientar as negociações com as companhias.
Mais do que uma consultoria pontual, o material virou uma base de inteligência permanente. A articulação envolve ainda a concessionária, o Governo do Estado e a Embratur, no caso das rotas internacionais. Ainda assim, a palavra final segue com as empresas aéreas, que pesam demanda, frota, custos e estratégia de mercado.
Uma década de altos e baixos
A trajetória do Aeroporto de Foz do Iguaçu tem quatro capítulos. Primeiro, o salto do início da década: entre 2010 e 2012, o terminal quase dobrou de tamanho, puxado pela expansão das companhias de baixo custo. Depois, o platô no topo, com o pico de 2018. Em seguida, o tombo da pandemia, que derrubou o movimento em 64,6% em 2020. Por fim, a retomada, que devolveu Foz ao patamar recorde em 2025 e agora aponta para uma marca inédita em 2026.
Olhar apenas para os primeiros semestres deixa a força de 2026 ainda mais nítida. Nenhum janeiro a junho havia passado de 1,2 milhão. Foz saltou para quase 1,4 milhão de uma vez, 17,4% acima do antigo recorde de meio de ano, que era de 2018.
Por fim, nesta série, há um detalhe curioso. O pior primeiro semestre recente não foi o de 2020, e sim o de 2021, quando a segunda onda da pandemia derrubou o movimento a 343 mil passageiros.
Foz caminha para o ano mais movimentado da história
Como as rotas mudaram ao longo dos anos
A malha de Foz passou por uma virada silenciosa na última década. Guarulhos virou a espinha dorsal do terminal e nunca saiu do topo. Curitiba seguiu o caminho oposto. Era a maior rota em 2015, com 443 mil passageiros, e caiu para 236 mil em 2025. Entretanto, no período, Foz ganhou voos diretos para São Paulo e Rio de Janeiro.
O eixo São Paulo domina a malha de Foz
O Conselho Municipal de Turismo (Comtur) enxerga a virada com naturalidade. “A evolução da malha aérea reflete as mudanças no comportamento do mercado e da demanda”, avalia o conselho. Curitiba, por ser capital e concentrar mais passageiros, ficou mais atrativa para as companhias. Foz, por sua vez, passou a caçar conexões com aeroportos que recebem voos internacionais e mais rotas diretas.
Para o Comtur, o reforço das ligações com São Paulo e Rio amplia o acesso, inclusive para o turista estrangeiro. O conselho defende uma malha equilibrada e aposta nos dois mercados ao mesmo tempo. “O crescimento sustentável da malha aérea passa pelo fortalecimento simultâneo dos mercados doméstico e internacional”, afirma, citando a posição de Foz na Tríplice Fronteira como trunfo para ligações de longa distância.
No plano internacional, Foz tem só uma rota regular: Santiago, no Chile, operada pela JetSMART, com 20,4 mil passageiros no semestre. Contudo, é pouco para uma cidade turística de fronteira.

A aposta internacional e a chegada da ASUR
Ampliar as conexões internacionais é a frente que a Motiva trata como prioritária. A estratégia mira os hubs da América Latina, como Santiago, Lima, Bogotá, Panamá e Manaus, que distribuem voos para América do Norte, Europa e Ásia. “O turista internacional, normalmente, não visita apenas um destino quando vem à América do Sul”, explica Graziella Delicato.
A Gestão Integrada do Turismo trabalha na mesma direção, entretanto busca equilíbrio entre os mercados. No doméstico, o foco recai sobre os principais centros emissores e hubs de distribuição. No internacional, a meta é ampliar voos diretos e fortalecer mercados estratégicos: América Latina, Estados Unidos, Europa e, cada vez mais, Ásia. Mesmo com a concentração em grandes hubs, o grupo garante que a diversificação da malha continua no radar, sempre a partir de estudos técnicos e da leitura de demanda.
As negociações com as companhias existem, todavia ocorrem sob sigilo comercial. A decisão final depende, sobretudo, de fatores como a disponibilidade de aeronaves e a estratégia de malha de cada empresa.
Há ainda uma troca de comando no radar. A ANAC aprovou a transferência da concessão para o grupo mexicano ASUR, com conclusão prevista para 2026. Ainda assim, a operadora garante que a mudança não mexerá nos investimentos nem no foco em conectividade. “Foz do Iguaçu continuará sendo um ativo estratégico dentro do portfólio da companhia”, diz a executiva. A experiência do grupo com destinos turísticos, caso de Cancún, reforçaria a confiança no potencial da cidade.
O desafio de fazer o turista ficar mais
No fim, o recorde no aeroporto só vira economia se o visitante desembarca e fica. É a leitura do Comtur. Para o conselho, mesmo com parte do fluxo usando o terminal como passagem na fronteira, “Foz do Iguaçu ainda é, predominantemente, um destino final de lazer, negócios e eventos”. Isso aparece, sobretudo, na ocupação dos hotéis, na visita aos atrativos e no consumo em bares e restaurantes.
O próximo passo, conforme o conselho, é “transformar esse crescimento em maior permanência média e maior gasto por visitante”. Ademais, a rede hoteleira e o trade têm dado conta da demanda, segundo o Comtur, graças a investimentos contínuos em infraestrutura e qualificação.
Mais gente chegando também acende um alerta sobre a capacidade dos atrativos. O conselho afirma monitorar a visitação de perto, com atenção às Cataratas do Iguaçu, que já estudam melhorias para a nova demanda. A régua é conciliar preservação ambiental e crescimento sem estragar a experiência de quem visita.

A Gestão Integrada do Turismo detalha que os principais atrativos já operam com protocolos de monitoramento e gestão de capacidade, principalmente no Parque Nacional do Iguaçu. Além disso, o contrato de concessão do parque prevê um projeto de reestruturação e modernização dos serviços de visitação, a cargo da Urbia+Cataratas.
A estratégia, porém, não se resume a receber mais gente. O grupo quer distribuir melhor os fluxos ao longo do ano, estimular novos atrativos e ampliar o tempo de permanência do turista. Dessa forma, tenta conciliar crescimento econômico, qualidade da experiência e preservação do patrimônio natural.

