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Reportagem Especial

Julho Amarelo

Casos de Hepatite C batem recorde em Foz do Iguaçu

Silenciosas, doenças podem passar anos sem sintomas; testes rápidos e gratuitos saem em 20 minutos nas UBS e no CTA.

6 min de leitura
Casos de Hepatite C batem recorde em Foz do Iguaçu
Teste rápido de hepatite B e C - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom (Agência Brasil)

Os casos de hepatite C atingiram o maior patamar da série histórica em Foz do Iguaçu. Em 2025, o município confirmou 57 diagnósticos da doença, o maior número desde 2019, quando a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) iniciou a contagem. O total representa um aumento de 72,7% em relação aos 33 casos de 2024.

O crescimento acende um alerta durante o Julho Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre as hepatites virais. Apesar do avanço das notificações, especialistas destacam que o aumento não significa, necessariamente, maior transmissão recente da doença.

Campanha Julho Amarelo reforça a importância de testar, tratar, curar e prevenir as hepatites virais. Imagem: IA
Campanha Julho Amarelo reforça a importância de testar, tratar, curar e prevenir as hepatites virais. Imagem: IA

As hepatites virais são inflamações que os vírus provocam no fígado. As formas B e C preocupam mais porque podem evoluir de forma silenciosa durante anos. O contato com sangue contaminado transmite a doença, que costuma aparecer apenas quando já causou complicações graves, como cirrose ou câncer de fígado.

Entre 2019 e 2025, Foz do Iguaçu registrou 635 casos confirmados de hepatites B e C. Enquanto a hepatite C cresceu e alcançou o maior número da série histórica em 2025, a hepatite B seguiu trajetória oposta e caiu de 90 casos em 2019 para 54 neste ano.

Os motivos

A Coordenação do Programa Municipal de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) pede cautela na leitura do recorde. Como a hepatite C pode permanecer assintomática por décadas, muitos diagnósticos atuais correspondem a infecções que as pessoas adquiriram anos atrás. “Parte dos casos diagnosticados atualmente pode corresponder a infecções adquiridas há muitos anos, identificadas somente agora em razão do acesso aos serviços de saúde e da realização de testes”, explica a coordenação.

Segundo o programa, o crescimento das notificações resulta de um conjunto de fatores: a ampliação da oferta de testes rápidos, o fortalecimento da vigilância epidemiológica e a identificação de infecções antigas. Em outras palavras, mais pessoas descobrem a doença porque mais pessoas fazem o teste.

Perfil dos pacientes

Em Foz do Iguaçu, a hepatite C atinge principalmente homens com mais de 40 anos, especialmente aqueles entre 55 e 59 anos. O município classifica cerca de 75% dos casos como crônicos, reforçando que muitos diagnósticos revelam infecções antigas.

A condição de cidade de fronteira também exige atenção permanente. A intensa circulação de pessoas amplia, sobretudo, a necessidade de manter ações contínuas de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Testagem cresce no município

Nos últimos cinco anos, Foz do Iguaçu realizou quase 130 mil testes rápidos para hepatites virais: foram 64.388 exames para hepatite B e 65.274 para hepatite C.

Todas as unidades básicas de saúde (UBSs) e o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) oferecem os testes gratuitamente. O CTA fica na Avenida JK, n.º 2.826, e atende de segunda a sexta-feira, das 7h às 16h.

O exame é simples: basta uma pequena punção na ponta do dedo para coletar gotas de sangue. O resultado fica pronto em cerca de 20 minutos e garante um diagnóstico rápido e seguro. O CTA realiza aproximadamente 20 testes por dia, o equivalente a cerca de cem por semana.

Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), na Avenida JK, oferece testes rápidos e gratuitos para hepatites virais em Foz do Iguaçu, de segunda a sexta-feira. Foto: PMFI/divulgação
Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), na Avenida JK, oferece testes rápidos e gratuitos para hepatites virais em Foz do Iguaçu, de segunda a sexta-feira. Foto: PMFI/divulgação

Diagnóstico e tratamento

Após a avaliação médica e a confirmação do diagnóstico, a equipe encaminha o paciente, quando necessário, ao Ambulatório Especializado em Hepatites Virais, que funciona no mesmo endereço do CTA.

O serviço oferece acompanhamento por equipe multiprofissional e médico hepatologista, com exames periódicos e tratamento medicamentoso conforme os protocolos do Ministério da Saúde.

O maior desafio, entretanto, ainda é convencer as pessoas a fazer o teste. Como as hepatites B e C costumam permanecer assintomáticas por muitos anos, diversos pacientes só descobrem a infecção quando o fígado já apresenta lesões importantes. Em muitos casos, sintomas inespecíficos são, principalmente, confundidos com uma simples virose e atrasam a procura por atendimento.

Após o diagnóstico, o paciente recebe acompanhamento no Ambulatório Especializado em Hepatites Virais, com equipe multiprofissional e hepatologista. Imagem ilustrativa: IA
Após o diagnóstico, o paciente recebe acompanhamento no Ambulatório Especializado em Hepatites Virais, com equipe multiprofissional e hepatologista. Imagem ilustrativa: IA

Óbitos preocupam

As hepatites virais também seguem provocando mortes no município. Entre 2019 e 2025, Foz do Iguaçu registrou 35 óbitos relacionados à doença. Desse total, 27 mortes decorreram das hepatites crônicas, que a estatística classifica como “outras hepatites virais”. Somente em 2025, esse grupo respondeu por sete falecimentos, o maior número da série histórica.

A hepatite B provocou cerca de um óbito por ano em Foz do Iguaçu entre 2019 e 2025 e manteve estabilidade ao longo de todo o período.

Como prevenir

A vacinação segue como a principal estratégia para prevenir novos casos de hepatite B. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina gratuitamente para toda a população. Contra a hepatite C ainda não existe imunizante, o que torna ainda mais importantes medidas como o uso de preservativos, a realização de testes e o cuidado para evitar o contato com sangue contaminado.

Para proteger-se, a população deve tomar a vacina contra a hepatite B, usar preservativos, evitar compartilhar objetos que possam ter contato com sangue, como alicates de unha, lâminas de barbear e escovas de dente, e ainda higienizar bem as mãos e consumir água tratada.

Cuidados simples ajudam a prevenir a transmissão das hepatites virais. Imagem ilustrativa: IA
Cuidados simples ajudam a prevenir a transmissão das hepatites virais. Imagem ilustrativa: IA

Alguns grupos precisam redobrar os cuidados: quem recebeu transfusão de sangue antes dos testes obrigatórios, usuários e ex-usuários de drogas, profissionais que lidam com material biológico, pessoas com múltiplos parceiros sexuais e quem fez tatuagens ou outros procedimentos sem biossegurança adequada. A Secretaria de Saúde recomenda que essas pessoas procurem orientação médica e realizem a testagem.

O SUS oferece medicamentos que curam mais de 95% dos casos de hepatite C. Para a hepatite B, disponibiliza tratamento capaz de controlar a infecção e reduzir o risco de complicações. Em ambos os casos, o diagnóstico precoce aumenta muito as chances de sucesso do tratamento.

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    Vacy Álvaro

    Vacy Álvaro

    Vacy Alvaro é jornalista e coordenador do núcleo de Jornalismo de Dados/Infográficos do H2FOZ.

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