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Reportagem Especial

Economia

Quatro em cada dez moradores de Foz do Iguaçu estão com o nome sujo

O número de negativados cresceu 36,6% desde 2020, mas o valor devido avançou quase cinco vezes mais rápido no período.

20 min de leitura
Quatro em cada dez moradores de Foz do Iguaçu estão com o nome sujo
Em maio, os moradores de Foz do Iguaçu negativados na base da Serasa somavam mais de R$ 903 milhões em dívidas atrasadas. Foto: Marcos Labanca

Foz do Iguaçu tem hoje 116.845 moradores com o nome sujo, cerca de quatro em cada dez habitantes. Cruzando com o censo do IBGE, a proporção aumenta ainda mais e equivale a 56% da população acima de 19 anos. Os dados são do Mapa da Inadimplência, levantamento realizado pela Serasa.

Conforme o estudo, os iguaçuenses nunca deveram tanto. Em maio deste ano, os moradores negativados na base da Serasa somavam R$ 903.539.753 em dívidas atrasadas. É o maior valor de toda a série histórica, iniciada em janeiro de 2020. Desde essa data, o número de inadimplentes subiu 36,6%, de 85.509 para 116.845 pessoas. No mesmo período, a dívida acumulada avançou 174%, quase cinco vezes mais rápido.

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A inadimplência em Foz do Iguaçu em quatro números
Retrato de maio de 2026, com a variação acumulada desde janeiro de 2020.
R$ 903,5 mi
Dívida total (mai/2026)
+174% desde 2020
116.845
Moradores negativados
+36,6% desde 2020
4,62
Dívidas por CPF
+41,4% desde 2020
R$ 7.733
Dívida média por pessoa
+100,5% desde 2020

A diferença está no número de contas atrasadas por pessoa. Em janeiro de 2020, cada CPF negativado da cidade carregava, em média, 3,27 dívidas. Em maio deste ano, esse número chegou a 4,62, alta de 41,4%.

Contudo, corrigidos pela inflação, os valores individuais quase não mudaram. O tíquete médio por dívida era de R$ 1.181,23 em janeiro de 2020. Atualizado pelo IPCA, daria R$ 1.692,76 hoje. O valor registrado em maio de 2026 foi de R$ 1.675, ou seja, 1% abaixo do patamar inicial em termos reais. Por fim, o valor médio devido por pessoa saltou de R$ 3.856,99 para R$ 7.732,81. Descontada a inflação, portanto, o crescimento real é de 40%.

Foz do Iguaçu tem 116,8 mil moradores negativados
Número de pessoas com dívidas negativadas na Serasa em Foz do Iguaçu (em milhares), de janeiro de 2020 a maio de 2026.
Negativados (mil)
8090100110120’20’21’22’23’24’25’26’26
O número de devedores cresceu 36,6% desde 2020, passando de 85,5 mil para 116,8 mil pessoas.
Cada devedor acumula mais dívidas ao mesmo tempo
Média de dívidas negativadas por CPF em Foz do Iguaçu, de janeiro de 2020 a maio de 2026.
Dívidas por CPF negativado
3,03,54,04,55,0’20’21’22’23’24’25’26’26
A média subiu de 3,27 para 4,62 dívidas por pessoa (+41,4%). É o principal motor do endividamento: mais contas atrasadas por devedor, não dívidas maiores.

Nem toda conta atrasada entra na estatística

O Mapa da Inadimplência da Serasa considera apenas CPFs com dívidas efetivamente negativadas no sistema da instituição. Ou seja, uma conta somente em atraso não entra de forma automática no indicador.

Antes da inclusão, o credor precisa enviar um aviso ao consumidor. Depois disso, há em geral um prazo de 10 a 20 dias para regularização. Na média, a negativação ocorre de 30 a 90 dias após o vencimento, e cada credor define seus próprios critérios.

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Conforme a pesquisa, a base considera só dívidas em nome de pessoa física. Débitos de empresas e de microempreendedores individuais registrados em CNPJ ficam de fora, o que evita dupla contagem.

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A dívida média anual mais que dobrou em seis anos
Valor total médio das dívidas negativadas em Foz do Iguaçu por ano, em R$ milhões. 2026 considera os meses até maio.
02505007501.0003972020423202147720225642023615202474320258682026
A média anual saltou de cerca de R$ 400 milhões em 2020 para mais de R$ 870 milhões em 2026.

Custo de vida é um dos vilões

Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, o descompasso indica pressão sobre o orçamento familiar. O número de contas em atraso por CPF cresce mais rápido do que o total de devedores, e isso mostra que parte da população endividada assume vários compromissos ao mesmo tempo.

A especialista aponta o custo de vida como um dos fatores. Um levantamento da própria Serasa, de janeiro de 2026, calcula que o custo médio mensal de vida no Paraná é o segundo mais alto do país: cerca de R$ 4.300 por mês, montante 2,6 vezes superior ao salário mínimo. “Quando o custo de vida cresce em ritmo superior à renda, muitas famílias acabam recorrendo a parcelamentos, cartões, empréstimos ou atrasando contas básicas para fechar o mês. Isso pode fazer com que uma mesma pessoa acumule mais de uma dívida, em diferentes setores”, explica.

Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, o descompasso indica pressão sobre o orçamento familiar. Foto: Serasa/divulgação
Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, o descompasso indica pressão sobre o orçamento familiar. Foto: Serasa/divulgação

A Serasa não divulga a composição das dívidas por segmento em nível municipal. Para o Paraná, porém, o recorte de maio de 2026 ajuda a entender de onde vêm as pendências. Bancos e cartões lideram, com 25,05% do total. Somados às financeiras (17,77%), os credores do sistema financeiro respondem por quase 43% das dívidas negativadas no estado. Depois, aparecem as utilities — água, luz e gás —, com 16,20%, e o setor de serviços, com 12,65%.

Bets, crédito fácil e ostentação

Para o consultor financeiro Jorge Miguel, o custo de vida não é o único vilão. As casas de apostas, as bets, entraram para a lista: “Criaram a ilusão do dinheiro fácil na palma da mão. A pessoa acha que vai ganhar rápido e acaba se endividando. Hoje, recebo mensagens de empresários me pedindo para palestrar aos colaboradores justamente por causa disso.”

Outro gatilho é o crédito fácil, consignado ou não. “O empréstimo com desconto em folha passa a sensação de acesso fácil, mas faz a pessoa antecipar um ganho que ainda nem recebeu. Já vi trabalhadores pedirem demissão só para voltar a receber o salário cheio, sem o desconto do empréstimo. A pessoa se cadastra em vários bancos, tem vários cartões, cheque especial, crediário. No fim, faz uma compra que não faria, só para antecipar um objetivo.”

O rotativo do cartão agrava o quadro. “O cheque especial e o cartão de crédito impactam o dia a dia. Com a Selic a 14% e a inflação corroendo a renda, os juros sobre juros disparam. Uma dívida de R$ 1 mil pode se multiplicar muitas vezes, e a pessoa simplesmente não consegue mais pagar.”

Há ainda quem se endivide só para impressionar. “Muitos se perdem na busca pela vida perfeita: trocar de carro, de roupa, de casa, frequentar os restaurantes mais caros. A pessoa quer manter um padrão igual ao que ganha, e às vezes até acima disso. O que eu digo é para se manter sempre um ou dois degraus abaixo do padrão.”

Jorge Miguel - Consultor financeiro
Jorge Miguel, consultor financeiro: “muitos se perdem na busca pela vida perfeita”

Planejamento

Jorge Miguel também chama atenção para a conta que quase ninguém faz antes de assinar. “Antes de assinar um financiamento, é preciso avaliar o quanto ele compromete a renda. As pessoas não fazem essa relação entre a despesa e o comprometimento do orçamento. Aí, quando a renda cai, elas se endividam. E, ao longo do ano, o poder de compra não acompanha a inflação: o salário é o mesmo, mas compra cada vez menos.”

Ele fecha puxando o olhar para o país. “Vivemos num país endividado. Temos recorde de arrecadação de impostos, mas a dívida pública só cresce. Se o governo se endivida, as empresas se endividam, e as pessoas também. O que acontece lá em cima reflete na ponta.”

Serviço: como renegociar e limpar o nome

A Serasa mantém mutirões de renegociação com descontos que chegam a 90%, conforme o perfil da dívida. Mais de 11 milhões de brasileiros têm cupons de até R$ 500 de abatimento adicional, somados ao desconto já oferecido pelo credor.

O cupom vale para negociações à vista, pagas por PIX ou boleto, feitas pelo site ou aplicativo da Serasa. Quando o benefício está disponível, a opção “Adicionar cupom” aparece na etapa de confirmação do acordo e precisa ser ativada antes do fechamento.

Passo a passo:

  1. Acesse o site ou o aplicativo da Serasa;
  2. Faça login com CPF e senha;
  3. Clique em “Negociar dívidas”;
  4. Veja qual oferta tem cupom disponível e clique em “Negociar agora”;
  5. Escolha o pagamento à vista, por PIX ou boleto;
  6. Ative a opção “Adicionar cupom” e feche o acordo.

Desde este ano, a plataforma também reúne ofertas da Caixa. A parceria abrange 1,8 milhão de clientes em todo o país, começando por contratos de crédito comercial. Por fim, após o pagamento, o banco tem até cinco dias úteis para informar a quitação e retirar a negativação do CPF.

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    Vacy Álvaro

    Vacy Álvaro

    Vacy Alvaro é jornalista e coordenador do núcleo de Jornalismo de Dados/Infográficos do H2FOZ.

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