Dados coletados por meio de monitoramento geoespacial indicam que caçadores passaram a atuar nas bordas do Parque Nacional do Iguaçu, reserva de 170 mil hectares situada nos limites com a Argentina.
Por meio de imagens geradas por satélite, drones e informações de GPS, equipes técnicas de fiscalização conseguem observar o movimento dos caçadores. Há cerca de uma década, a caça era mais frequente na área intangível, ou seja, no coração do parque, região da Bacia do Rio Floriano.
Hoje, concentra-se mais nos limites de cidades lindeiras à reserva, explica a analista ambiental Patricia Kidricki Iwamoto, do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio). Já foram encontradas estruturas de caça a 50 metros da borda do parque.
O foco fica em uma área situada a cerca de 5 a 10 quilômetros do limite da unidade. Essa mudança, explica Patrícia, provavelmente ocorreu em razão da facilidade de acesso, deslocamento e permanência de menor tempo.
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As ações de combate à caça são feitas a partir de uma ação integrada de equipes do ICMBio, Polícia Federal e Polícia Militar Ambiental do Paraná. O trabalho conjunto já possibilitou a localização de 102 acampamentos clandestinos, a prisão em flagrante de 104 pessoas e a destruição de 1.483 estruturas utilizadas para caça decorrentes de investigações nos últimos 4 anos.
E o trabalho prossegue, entre 2025 e 2026 foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão.
Para combater a caça, os técnicos e equipe de segurança têm à disposição a plataforma EarthRanger, que permite analisar padrões espaciais e temporais de ameaças registradas na unidade, além do SMART, um sistema utilizado para registrar ocorrências, patrulhas e esforços operacionais.
Com o uso da tecnologia, as equipes anticaça registraram, no primeiro semestre de 2026, 122 ocorrências relacionadas a pressões antrópicas, ou seja, ações e atividades humanas que interferem, modificam ou exercem força sobre o meio ambiente e os seus ecossistemas.
O trabalho ainda será aprimorado com projetos que preveem a instalação de câmeras de monitoramento em tempo real e uso de drones que auxiliam na detecção da presença de caçadores.

Alvos e crueldade
Os principais alvos da caça são a paca, o veado, a anta e o porco-do-mato, considerados presas dos grandes felinos, a exemplo de onças. A falta desses animais na reserva causa um desequilíbrio no ecossistema e altera a ecologia da unidade, explica Patricia.
Ela ainda esclarece que, além da caça, contribuem para esse desequilíbrio o desmatamento e a criação de ovelhas.
Considerado um idiotismo cultural, a caça é uma prática que não tem relação com uma classe social específica e não está necessariamente ligada à subsistência. As equipes de fiscalização já flagraram caçando moradores do entorno do parque, políticos, empresários e servidores públicos da área de segurança.

As motivações para caçar são variadas. Há pessoas que praticam caça esportiva e são ligadas a clubes, como também é um hábito cultural que passa de pai para filho, bastante presente na região do parque. Outras caçam por lazer ou para venda ou consumo próprio. Alguns grupos ainda alugam propriedades próximas ao parque para caçar.
“É uma atividade voltada para o entretenimento, hobby, as pessoas já apreenderam com outra geração e era uma coisa aceita”, pontua.
Os animais vítimas da caça têm alto valor de ostentação, pois se sabe que são promovidos jantares nos quais a carne é oferecida como troféu.
A crueldade dos caçadores chama atenção das equipes de fiscalização. Eles agem com mais intensidade no período de inverno, época na qual a oferta de alimentos para os animais é mais escassa. Para atrair as presas, os caçadores preparam estruturas com ceva e comida em plena floresta. “Eles se aproveitam para ter mais resultado”, relata Patricia.

Alguns caçadores usam drones e equipamentos de visão noturna e contam com a astúcia dos olheiros para receber informações.
O Parque Nacional ainda sofre com a pesca predatória e a exploração vegetal. A pesca atinge espécies nativas do Rio Iguaçu, principalmente o surubim, que é uma espécie endêmica. Já na área da flora, o principal alvo é o palmito juçara que está ameaçado de extinção.
Além do ICMBio, apoiam a proteção do Parque Nacional do Iguaçu: Ibama, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar Ambiental, Polícia Civil, Exército Brasileiro, Receita Federal, Abin, Ministério Público Federal e diversos outros parceiros estratégicos.
Parque Nacional do Iguaçu e a Caça Clandestina
Por Roberto Leimig
O Parque Nacional do Iguaçu representa uma das mais importantes áreas remanescentes de Mata Atlântica de interior, constituindo uma verdadeira “ilha de biodiversidade” em meio à paisagem antropizada do oeste paranaense. Nesse contexto, a caça ilegal permanece como uma das principais pressões antrópicas sobre a fauna silvestre.
Os impactos incidem principalmente sobre mamíferos e aves cinegéticas de médio e grande porte (espécies tradicionalmente visadas para caça), promovendo a redução das populações naturais e comprometendo funções ecológicas essenciais, como a dispersão de sementes, a regeneração florestal e o equilíbrio das cadeias alimentares. A diminuição dessas espécies repercute sobre toda a comunidade biológica, alcançando inclusive grandes predadores, como a onça-pintada (Panthera onca) e a onça-parda (Puma concolor), que dependem da disponibilidade de presas para sua manutenção.
Embora as ações de fiscalização desenvolvidas pelo ICMBio e pelos órgãos parceiros tenham contribuído para reduzir essa prática ao longo das últimas décadas, a grande extensão da unidade de conservação (aproximadamente 185 mil hectares) e seu extenso perímetro em contato com propriedades rurais, estradas vicinais e outras áreas ocupadas tornam indispensável a manutenção de vigilância contínua e permanente.
A caça afeta especialmente espécies de crescimento lento, baixa taxa reprodutiva e maior porte corporal. Entre os mamíferos mais visados destacam-se a Cutia (Dasyprocta azarae), cuja carne é tradicionalmente apreciada pelo sabor; a Paca (Cuniculus paca), considerada uma das espécies de maior valor para a caça ilegal; o Veado-mateiro (Mazama americana); além dos tatus, como o Tatu-galinha (Dasypus novemcinctus) e o Tatu-peba (Euphractus sexcinctus), frequentemente capturados para consumo.
Entre as aves, destacam-se como principais alvos o Jacu (Penelope obscura), a Jacutinga (Aburria jacutinga), os mutuns (gênero Crax), os inhambus (Crypturellus spp.) e a Pomba Asa branca (Patagioenas picazuro). Dentre essas espécies, os representantes da família Cracidae (jacus, jacutingas e mutuns) são considerados particularmente vulneráveis à pressão de caça, em razão de sua baixa taxa reprodutiva e de sua elevada importância ecológica na função de dispersores de sementes de árvores de grande porte, desempenhando papel fundamental na manutenção da estrutura e da diversidade das florestas.
Roberto Leimig é biólogo e Mestre em Ecologia.

