Pequenos e grandes investimentos repaginam o setor de gastronomia em Foz do Iguaçu. Restaurantes, cafeterias, bistrôs e hamburguerias gourmet aguçam o paladar de turistas e de moradores e abrem novos caminhos para a cidade.
Conhecida pelos atrativos turísticos, Foz do Iguaçu começa a ganhar protagonismo gastronômico, antes delegado principalmente à vizinha Puerto Iguazú, na Argentina, famosa pelas carnes e massas. Turistas que costumavam cruzar a fronteira em busca de pratos diferenciados, hoje, têm muitos motivos para frequentar os restaurantes locais.
Dados do Sebrae indicam que os empreendimentos gastronômicos cresceram 40% em Foz do Iguaçu desde 2020. Para se ter uma ideia, entre 2020 e 2026, a cidade tinha 1.466 empresas ativas do setor. Atualmente, o número é de aproximadamente 2.050.
Consultora do Sebrae/PR, Maisa Silvestre ressalta que a cidade tem atraído investimentos regionais, nacionais e internacionais. Exemplos não faltam. Na lista estão o Grupo Quinta da Oliva, de Cascavel; Grupo Bendito, de Maringá; e Di Paolo, do Rio Grande do Sul. Também abriram as portas nos últimos anos os restaurantes Paris 6, Outback e KFC, os dois últimos com entrada em vários países.
O aumento populacional da cidade, que de 2020 a 2025 ganhou 40 mil moradores, o crescimento do turismo local e a popularização da gastronomia por meio de programas televisivos e redes sociais foram os combustíveis para turbinar o setor.

Na análise de Maisa, Foz do Iguaçu já se tornou um atrativo gastronômico para a região. Segundo ela, o diferencial para os empreendedores é pensar em experiência gastronômica focada no morador e no turista. “Os grupos gastronômicos daqui têm de contar nossa história”, salienta.
Maisa afirma que o boom do setor é puxado principalmente por empresas pequenas, incluindo lanchonetes e restaurantes. Muitos endereços novos também são de microempreendedores individuais (MEIs) e microempresas, que juntas, movimentam a economia e perfazem a maior parte das portas abertas nos setor (veja infográfico).
O potencial da cidade no segmento está tão evidente que o Sebrae está construindo um projeto para alavancar a gastronomia que será lançado em breve.
Estimativas do Sindicato dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade de Foz do Iguaçu – STTHFI indicam que atualmente cerca de 10.523 pessoas trabalham no setor, incluindo pelo menos 1.500 trabalhadores informais.
Foz do Iguaçu: onde o mundo se encontra
De Cascavel, o Grupo Quinta da Oliva chegou a Foz do Iguaçu em 2018 com a inauguração da Quinta da Oliva Pizzaria.
Visionária, à época, a empresária e CEO do grupo, Marilene Zenatti, via Foz do Iguaçu como uma cidade estagnada, abandonada e com pouca expressão gastronômica. Contudo, ela sabia que essa fase passaria. Por isso, mirando o futuro, apostou.
“As pessoas falavam que Foz era terra de ninguém. E tinha as várias nacionalidades. O meu sentimento era que aqui parecia que a gente encontrava o mundo, e isso era um atrativo forte”, frisa.
Filha de Marilene, a também empresária Luiza Zenatti Fadanelli Albuquerque revela que a família sempre teve um laço estreito com Foz do Iguaçu. O empreendimento do grupo começou com a Churrascaria Portal, na BR-277, em Cascavel.
Por lá, muitos ônibus de compristas paravam. “Nós alavancamos muito financeiramente por conta do Paraguai e de Foz do Iguaçu.”
Logo depois de abrir as portas da Quinta da Oliva, o grupo criou a Luigia Pizzeria. Inaugurada em novembro de 2019 em um lugar onde funcionava uma oficina mecânica, a pizzaria trouxe um novo conceito para Foz do Iguaçu, que é o da pizza napolitana.
Conforme Luiza, a ideia de criar a Luigia surgiu a partir de um intercâmbio em Portugal. “Surgiu o desejo de abrir um negócio que fosse minha cara. E eu, jovem na época, queria algo mais descolado, descontraído.”
Por isso, a pizzaria começou com um modelo de negócio diferente, com copos e pratos descartáveis. Com o tempo, Luiza foi entendendo melhor os clientes e fez adaptações, porque percebeu que casais e famílias começaram a frequentar o lugar.

A empresa passou pela pandemia sem perder o faturamento, e as vendas explodiram quando a Luigia ganhou o prêmio de melhor pizza no Brasil. De um dia para o outro, o faturamento aumentou 96% e se manteve assim por um ano. “Foi algo totalmente inesperado que mudou a realidade da empresa”, ressalta Luiza.
Crescendo com Foz do Iguaçu, o Grupo Quinta da Oliva voltou a investir na cidade. Recentemente, foram abertas a Quinta da Oliva Trattoria e a Quinta da Oliva Carni, na Vila Yolanda, em um investimento de R$ 10 milhões.
No mesmo endereço, os restaurantes estão em uma área construída de 1.135m² e têm capacidade para atender até 412 pessoas. Porém, possuem identidade e conceito diferentes.
Ali, uma casa antiga e abandonada se transformou em dois restaurantes de alta gastronomia. Com uma concepção de negócios certeira, Marilene e Luiza não têm fórmula mágica para empreender, no entanto não lhes faltam tino e um olhar certeiro.
Elas dizem que muitas empresas abrem e são “o mais do mesmo”. Por isso, quando pensam em investir, a ideia é sempre trazer um conceito novo para Foz do Iguaçu. “Quando a gente pensa em abrir uma casa, a gente pensa em olhar fora daqui ver o que está acontecendo em Londres, Nova York, na Itália, que tenha algo que pode dar certo em Foz e Cascavel.”
Com os investimentos, o Grupo Quinta da Oliva consolida cinco casas em Cascavel e cinco em Foz do Iguaçu,

Alta gastronomia para todos

Foi com a ideia de trazer um pouco da experiência gastronômica de um hotel resort para o centro da cidade que o Grupo Tarobá abriu o Óga Restaurante, em 2025. Com o selo da alta gastronomia, o empreendimento tem cardápio trinacional, com pratos típicos do Brasil, Paraguai e Argentina.
A aposta não parou por aí. No ano passado, o grupo inaugurou o Terrazzo Rooftop Bar, com teto retrátil, vista panorâmica e um estacionamento, ao lado do Hotel Tarobá. Os investimentos beiraram a cifra de R$ 7 milhões.
Mauro Sebastiani, CEO do Grupo Tarobá, avalia que a gastronomia tem potencial em Foz do Iguaçu e começou a crescer muito. Na condição de empresário, ele lembra o custo alto para manter a operação de um restaurante de alto padrão, que requer equipe, estrutura, treinamento, qualidade e higiene.

Café para conectar pessoas
Foi pensando em conectar pessoas que o empresário Thiago Barudi decidiu abrir a primeira cafeteria gourmet em Foz do Iguaçu em 2015. O Café com Passagem trouxe uma experiência inédita para a cidade.
Thiago conta que sempre gostou muito de cafeterias. Na época em que abriu o Café com Passagem, ele tinha uma agência de viagens, e havia um boom de vendas pela internet. Assim, surgiu a ideia de ter um espaço físico para fortalecer o relacionamento com os clientes.
Com esse intuito, ele abriu as portas, entretanto com um olhar diferente. A ideia foi colocar o café como protagonista do negócio, por isso tudo foi pensado para valorizar a experiência com a bebida.
A proposta foi crescendo, e a partir de 2018 Thiago investiu em cursos e qualificação da equipe com viagens para Minas Gerais, onde ela conheceu produtores e cafés de categoria superior.

“Mais do que simplesmente identificar um vazio, nós fomos acompanhando e antecipando uma transformação no consumo de café. Fomos pioneiros em Foz no trabalho com cafés especiais e também com diferentes métodos filtrados. Hoje, temos mais de 12 métodos de preparo, algo que continua sendo bastante diferente do modelo tradicional de cafeteria”, diz.
O tempo mostrou que Thiago estava no caminho certo, e a cafeteria deslanchou. O Café com Passagem se tornou referência, com atendentes preparados e que conhecem o café desde a extração correta de um espresso até a vaporização do leite, latte art, métodos de preparo e características de cada bebida, explica.
Ele ainda completa que na cafeteria não há a figura do atendente conhecido por “tirador de pedido”. “Temos baristas. A ideia é que eles consigam conversar com o cliente, explicar, recomendar e ajudá-lo a descobrir novos sabores.”
Para o empresário, uma cafeteria não é definida apenas pelo ambiente, é o conjunto entre bebida, conhecimento, atendimento e a cultura do café que se cria naquele espaço.
Além do café, Thiago agregou valor com um espaço coworking, motivado pela ideia de fazer com que as pessoas utilizem a cafeteria também como um ambiente de convivência e trabalho.
Os moradores e turistas, que antes costumavam tomar café em padarias de Foz do Iguaçu, hoje encontram inúmeras opções.
Gastronomia em números
Veja os números do setor em Foz do Iguaçu

