Como Amanda Audi denunciou um estupro e perdeu o direito à própria voz?

História da ex-jornalista do Intercept retrata a revitimização sistêmica que mulheres que denunciam violência sexual sofrem no Brasil

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por Jess Carvalho e Rosiane Correia de Freitas

Brasília, 29 de setembro de 2019. O clima era ameno, com direito a televisão ligada no Fantástico. A jornalista Amanda Audi e os colegas Rafael Neves e Rafael Moro Martins, ambos do The Intercept Brasil, onde ela também trabalhava, jogavam conversa fora na casa de Fábio Pupo, repórter da Folha de São Paulo. Tudo corria bem quando alguém tocou o interfone. Era o economista Alexandre Andrada, que, além de ser professor da Universidade de Brasília (UnB), mantinha uma coluna no Intercept. Ele entrou no apartamento visivelmente “alterado”, como define Fábio.

“Alterado” é o eufemismo que ele usa para explicar que Alexandre estava gritando, praguejando e tocando em Amanda sem consentimento. Fábio ficou tão incomodado que preferiu acabar com a reunião, mas, na saída, Alexandre teria pedido para subir no apartamento de Amanda para tomar um copo d’água, já que ela morava ali perto. “Ela disse que foi basicamente chegar em casa e ele a atacou. Quis forçar pra ficar, pra beijar… Acabou jogando ela no sofá e a agressão aconteceu. Ela falou não pra ele, mas ele não parou”, conta um amigo próximo da jornalista. No dia 6 de outubro de 2019, ela registrou um BO alegando ter sido estuprada. 

Começava aí aquilo que os amigos chamam de “o suplício na Justiça” que Amanda viveu após ter sido processada por Alexandre e obrigada a deixar de falar sobre o caso. É por isso que sua versão, nesta reportagem, é contada por três pessoas próximas que a ouviram antes que sua voz fosse silenciada. Todos preferiram não ser identificados e a justificativa é unânime: eles temem uma possível perseguição judicial de Alexandre.



Quanto à denúncia de estupro, apuramos que o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) arquivou porque parecia haver uma “confusão de sentimentos” entre as partes. O pedido de arquivamento foi feito pelo promotor de Justiça Fábio Barros de Matos. Às 14h37 do dia 9 de julho de 2020, o juiz Newton Mendes de Aragão Filho assinou embaixo. Procuramos pelos dois, mas eles não se manifestaram porque o caso tramitou em segredo de justiça, e falar dele seria contra a lei.

Esta é a síntese da narrativa que virou uma jornalista premiada de cabeça pra baixo. Não há texto nem publicação de rede social que dê conta de tudo o que ouvimos em mais de dois meses de investigação: o sentimento de impotência, as crises depressivas, os remédios, o pedido de demissão, a mudança de casa, a troca de sofá. Amanda foi sistematicamente revitimizada e sofreu as consequências. Alexandre perdeu sua coluna no Intercept, mas segue no mesmo emprego e ainda é casado com a mesma pessoa. Para ele, o que contamos a seguir é “assunto encerrado”.

Em 2019, Amanda venceu o Prêmio Comunique-se na categoria “mídia escrita”. Crédito: reprodução/Instagram

Esta reportagem é fruto de um trabalho em rede feito por jornalistas feministas. Originalmente, ela está publicada em oito veículos de seis estados diferentes: Plural e H2Foz (Paraná), Agência Saiba Mais (Rio Grande do Norte), Sul21 (Rio Grande do Sul), Maré de Notícias (Rio de Janeiro), BHAZ (Minas Gerais) e Escreva Lola Escreva e Eco Nordeste (Ceará). Você também pode publicá-la no seu espaço, desde que reproduza o texto na íntegra e com créditos.


As testemunhas

Antes de arquivar o processo, as autoridades ouviram apenas uma testemunha: Rafael Moro Martins. Ele teria dito à polícia que não presenciou os fatos relatados por Amanda, mas preferiu não dar entrevista sobre o assunto. Disse apenas: “Acredito e apoio incondicionalmente a Amanda nesta história”. 

Já Rafael Neves conta que não foi procurado pela polícia ou pelo Ministério Público em nenhum momento, mas também não se lembra do que aconteceu. “A gente estava reunido na casa do Fábio Pupo, só que naquele mesmo período eu fui outras três ou quatro vezes na casa dele, sempre com pessoas diferentes. Eu só fiquei sabendo mais de um ano depois do que tinha acontecido e não consigo, de memória, lembrar exatamente daquela noite.”

Fábio Pupo, a terceira testemunha, descreveu o que viu no Twitter e chegou a ser notificado pelo advogado de Alexandre, mas não tirou a publicação do ar. Ele também não foi ouvido pelos órgãos competentes nem pela imprensa, mas topou conversar conosco por telefone. Estava claramente nervoso quando nos atendeu – chegou a dizer que estava andando de um lado para o outro da casa e que era difícil falar do caso. Mas, com calma, avançamos.

 

 

Jess Carvalho: O Alexandre tentou te processar?

Fábio Pupo: Ele mandou, por meio do advogado dele, uma notificação extrajudicial para que eu apagasse a postagem que fiz. Só que eu não disse nada de errado. Falei de algo que aconteceu dentro da minha casa, com testemunhas. Não vi por que apagar. 

Crédito: reprodução/Twitter


Jess Carvalho:
Como é a relação de vocês? Você e a Amanda?

Fábio Pupo: A Amanda foi minha vizinha desde que chegou em Brasília. A gente é muito próximo, faz muita coisa juntos. Ela é muito amiga minha.

 

Jess Carvalho: Isso desde Curitiba, né? Vocês estudaram juntos?

Fábio Pupo: Sim, estudamos juntos em Curitiba. E ela já era muito minha amiga nessa época. Depois que eu me formei, fui pra São Paulo. Ela chegou a me visitar algumas vezes e ficou na minha casa. Sempre tivemos certa proximidade. Aí eu vim pra Brasília e, alguns anos depois, ela também veio e nos reencontramos, digamos assim. 


Jess Carvalho:
Tem um núcleo paranaense por aí, certo?

Fábio Pupo: Sim. Ela chegou em Brasília trabalhando para o Poder 360 e depois de algum tempo foi parar no Intercept. O Intercept começou a contratar muita gente do Paraná – como o Rafa Moro e o Rafa Neves – e eram pessoas que a gente conhecia, então a gente formou um certo grupo de amigos, ia sempre pro bar junto, frequentava a casa um do outro e assim por diante.


Jess Carvalho:
O Alexandre era uma figura presente nessas reuniões?

Fábio Pupo: Eu não encontrava tanto com ele… Talvez duas ou três vezes no bar. Não tinha conversado muito, não sabia em profundidade quem era, acho que só li dois ou três textos dele na vida. Mas sabia que era conhecido pelo grupo. Naquele dia, quando ele apareceu na minha casa, foi uma surpresa pra mim. 


Jess Carvalho:
Quem o convidou?

Fábio Pupo: Esses dias me perguntaram isso e eu não sei responder com quem ele estava falando antes, se foi o Rafa Moro ou a Amanda… Mas eu sei que… Vou narrar o dia, então, ok?

 

Jess Carvalho: Tá bem.

Fábio Pupo: Eu estava aqui em casa com os meus amigos, inclusive a Amanda. A gente estava jogando videogame, pra você ver como estava tranquilo. Daqui a pouco a gente cansou e começou a ver Fantástico. Na chamada, passou alguma matéria curiosa, alguma coisa envolvendo a Amazônia, e a gente quis assistir, só que não passava nunca… Aí a noite foi avançando e o Rafa Moro saiu de casa para encontrar o Alexandre. Ainda com o Rafa Moro fora de casa, tocou o interfone, eu atendi e era o Alexandre. Fiquei surpreso, mas disse que podia subir. Ele chegou em casa muito alterado, acho que é essa a palavra adequada. Ele estava falando muito alto e repetindo as frases. Por exemplo: eu lembro nitidamente de ele ter repetido duas ou três vezes “que honra estar aqui na casa do Fábio Pupo da Folha de São Paulo”. Uma hora eu falei: “Alexandre, tá bom, obrigado, mas você já disse isso, agora vamos mudar de assunto?”. E assim foi… Ele sentou no banco do lado da Amanda. Seguiu falando alto, em alguns momentos bateu na mesa e gritou com a televisão. Mas não era qualquer grito, não, era tipo um berro. Começou a passar uma propaganda da Federação Brasileira de Bancos e ele, economista, gritou com a televisão. “Ah, essa Febraban é uma filha da puta!!!”. Se não estava claro antes, ficou claro ali que tinha algo muito esquisito.


Jess Carvalho:
Mas o que parecia, que ele estava bêbado?

Fábio Pupo: Olha, eu prefiro nem falar. Eu acho que é melhor eu me ater aos fatos, porque os fatos que eu presenciei já demonstram muito. Ele estava muito esquisito. Eu até já tinha encontrado com ele duas ou três vezes antes e ele não tinha esse comportamento, era uma pessoa serena, que fazia piada, uma pessoa até agradável. Mas naquele dia ele estava alterado… Ele estava pegando fisicamente na Amanda, sentado ao lado dela. E eu lembro de ela ter falado algumas vezes: “Ô, para!”. Mas eu não entendi o que estava acontecendo, até porque – e isso usam contra a Amanda – eles já tinham tido um caso antes. Só sei que aquilo foi me incomodando tanto que uma hora eu falei pra gente deixar pra ver a matéria outro dia, porque estava ficando tarde. Todo mundo levantou e foi embora. Fiquei aliviado, sabe? Tomei um banho… Depois de um tempo eu fiquei pensando… Puta merda, mas e a Amanda? E aí vem uma sensação horrível pra mim, porque hoje em dia eu vejo claramente que não devia ter mandado todo mundo embora, só ele. Mas, enfim, não foi o que aconteceu e depoi