“Ilhas dentro das cidades”? Conheça os impactos que os condomínios fechados trazem à urbanização

Especialistas apontam que esse tipo de empreendimento pode criar algumas barreiras que vão além dos muros altos.

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Em busca de uma maior sensação de segurança, privacidade e até infraestrutura que muitas vezes os bairros não oferecem, disparou em Foz do Iguaçu o número de residências em condomínios fechados. Conforme dados do Censo 2022/IBGE, a quantidade de imóveis desse tipo cresceu 345% em 12 anos na cidade.

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Se, por um lado, esse tipo de empreendimento oferece uma série de vantagens aos seus moradores, por outro pode causar impactos importantes no processo de urbanização de uma cidade. Isso é o que alerta a professora Juliana Rammé, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

Ela explica que “a localização dos condomínios fechados muitas vezes causa a interrupção de vias públicas e influencia na mobilidade urbana dos moradores da cidade, que precisam aumentar seu trajeto para cumprir determinadas distâncias, com reflexo maior na vida das pessoas que executam parte ou todos os seus deslocamentos a pé”.

A conclusão é fruto de um trabalho de pesquisa que desenvolveu em 2022 no artigo intitulado “A morfologia urbana de Foz do Iguaçu sob a ótica da urbanidade: o caso dos condomínios horizontais fechados”, que também teve a participação da professora Mariana Barbosa de Souza e das acadêmicas Anna Beatriz Nascimento, Vitória Francescon Cittolin, Elisa Gonzales Pereira e Hong Shin.

De acordo com elas, moradias em condomínios tendem a criar barreiras físicas e simbólicas entre diferentes grupos sociais. Outros dois pontos importantes foram levantados durante a pesquisa: o crescimento desses empreendimentos em áreas periféricas aumenta a dependência do uso de veículos particulares; e grandes muros, apesar de significarem segurança para os moradores, geram insegurança para as pessoas que precisam deslocar-se a pé pelo seu entorno. “Diversos estudiosos da vida urbana afirmam que a segurança urbana depende de uma boa infraestrutura, como a iluminação noturna, mas também de ‘olhos para a rua’”, contextualiza Juliana.

Ou seja, cidades com mais diversidade de uso do solo (residencial, comercial, de serviços, entre outros), com maior relação entre os espaços públicos e privados (do interior do lote com a rua) e com mais densidade urbana tendem a ser mais seguras e inclusivas e a ter suas ruas e espaços públicos de lazer com mais vitalidade.

Impactos dos condomínios fechados horizontais foi tema de uma pesquisa desenvolvida na Unila pelas professoras Juliana Remmé e Mariana Barbosa de Souza, e pelas acadêmicas Anna Beatriz Nascimento, Vitória Francescon Cittolin, Elisa Gonzales Pereira e Hong Shin. Foto: Arquivo Pessoal

Outra explicação do crescimento: legislação flexível

Ao longo das últimas décadas, a Prefeitura de Foz do Iguaçu tem flexibilizado constantemente a legislação acerca da construção de condomínios fechados no município, fazendo com que esses empreendimentos se tornassem economicamente mais viáveis para diferentes classes sociais da população, bem como mais lucrativos para as construtoras e investidores imobiliários.

A pesquisadora menciona que “a legislação urbanística acaba por incentivar e perpetuar ainda mais a segregação socioespacial, quando prevê facilidades para a aprovação dos condomínios, muitas vezes, com índices urbanísticos mais interessantes ao empreendedor do que as demais formas de parcelamento do solo”.

Apesar das desvantagens citadas, Juliana compreende que os condomínios fechados são produtos da cidade contemporânea e não irão deixar de existir. “Cabe aos gestores públicos adequar as legislações urbanísticas para possibilitar um maior equilíbrio entre esses empreendimentos privados e a vida urbana, como a troca de muros altos por grades e a limitação no seu tamanho total, possibilitando um menor impacto na mobilidade urbana”, complementa.

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