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Árvore sem copa é casa sem telhado

Com raras exceções, a comunidade prefere árvores cujas folhas não caiam.

5 min de leitura
Árvore sem copa é casa sem telhado
Nas cidades, as copas das árvores são cada vez mais raras. Foto: Divulgação

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

­­­Outro dia, parei diante de uma árvore e tive a impressão de que ela estava pedindo desculpas por existir. Não porque estivesse doente ou oferecesse risco. Mas porque alguém resolveu que sua copa era grande demais. Cortaram seu céu. Restou um tronco envergonhado, alguns galhos amputados e um silêncio que só quem ama árvores consegue ouvir. Há pessoas que insistem em moldar a natureza como quem poda um bonsai, esquecendo que uma oiti nasceu para ser oiti, uma sete-copas nasceu para abrir sete abraços sobre quem passa, e não para virar um poste com folhas. Ah, os bonsais. Antes eu admirava, agora eu sinto pena, aflição. É como quando amamos tantos nossos filhos e sem querer dizemos: “Mas por que crescem?” E nos arrependemos, ou deveríamos, porque crescer também é o sentido da vida. E os bonsais, eu os vejo assim: amarrados, aniquilados, impedidos de atingir seu esplendor. Árvores engaioladas. Mas vamos voltar àquelas que insistem em (sobre)viver nas vias públicas. 

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Pra mim, sem copa é casa sem telhado. Uma pergunta cuja resposta é óbvia: você moraria numa casa sem cobertura, torrando ao sol, encharcando na chuva e vendo o vento levar embora tudo o que existe dentro dela? Pois é exatamente isso que fazemos com as árvores quando arrancamos sua copa e galhadas. Depois reclamamos que a cidade está mais quente, que os pássaros desapareceram, que as calçadas parecem um deserto de concreto. A culpa nunca é da poda, é sempre do clima. Como se o termômetro tivesse enlouquecido sozinho.

Em Cianorte, essa prática já virou paisagem. As oitis, conhecidas justamente por sua sombra generosa, arredondada, ficaram planas! Passam a faca em tudo, e os animais que ali se abrigavam que se virem! E a sete-copas… Ah, a sete-copas! Carrega no próprio nome a beleza de sua arquitetura natural, mas frequentemente termina parecendo um gato morto pendurado num tronco ou um “zap” sem validade: perdeu a função, perdeu a mensagem, perdeu o sentido. É o famoso “vale seis” do truco ambiental. Alguém grita “é poda técnica!”, bate na mesa e espera que todos aceitem a jogada sem olhar as cartas. Mas basta levantar os olhos para perceber que a árvore foi blefada.

É claro que árvores precisam de manejo. Galhos comprometidos devem ser retirados. Conflitos com a rede elétrica precisam ser resolvidos. Segurança pública não se discute. O que se discute é o exagero. Porque existe uma enorme diferença entre podar e mutilar. E vale perguntar: a quem interessa tanta galhada no chão? A situação é tão grave que o Núcleo Regional de Campo Mourão do Grupo de Atuação Especializado em Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo (GAEMA), do Ministério Público do Paraná, alerta para as intervenções excessivas na arborização urbana.

  • Cidades envolvidas — Dirigido aos prefeitos de todos os 32 municípios abrangidos pela Regional do GAEMA (que integram as comarcas de Campina da Lagoa, Campo Mourão, Cianorte, Engenheiro Beltrão, Goioerê, Iretama, Mamborê, Paraíso do Norte, Peabiru, Terra Boa e Ubiratã), o documento recomenda: “Que se abstenham imediatamente de realizar, autorizar ou tolerar a prática de ‘poda drástica’ (eliminação parcial ou total da copa ou de galhos principais) nas árvores que compõem a arborização urbana e logradouros públicos do município, salvo em casos de estrita e comprovada necessidade fitossanitária ou de segurança (risco iminente de queda), a qual deverá ser previamente atestada mediante laudo técnico e respectiva Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) assinada por profissional legalmente habilitado.” (Fonte: Ministério Público do Paraná)

As árvores não precisam ser domesticadas para caber na cidade. Somos nós que precisamos reaprender a viver sob elas. Uma copa não é um excesso de galhos, é um telhado vivo, um ar-condicionado natural, um berçário de pássaros, um filtro de carbono, um convite para que as pessoas caminhem em vez de fugir do sol. Quem corta uma copa não tira apenas folhas, corta sombra, biodiversidade, conforto e memória. No fim das contas, cada árvore mutilada conta muito sobre a cidade que estamos construindo. A pergunta é simples: queremos cidades onde as árvores pareçam árvores ou cidades onde elas sobrevivam como monumentos à nossa incapacidade de conviver com a própria natureza?

E na sua cidade? Na sua rua? Na sua quadra? As árvores são tratadas como patrimônio ou como estorvo? Como um “zap” que vale ouro ou como um bobo da corte que pode ser decapitado para divertir a plateia? Há quem jogue truco com a natureza. Bate na mesa, grita “vale seis”, chama mutilação de manejo e espera aplausos. O problema é que, nessa partida, a cidade, leia-se animais racionais e irracionais, sempre paga a aposta.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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