Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Enquanto alguns meteorologistas alertam para a possibilidade de um novo e intenso El Niño em 2026, parte do poder público brasileiro continua agindo como a velha cigarra da fábula: canta, posa para fotos nas redes sociais, inaugura obras de impacto duvidoso e aposta na memória curta da população. Já a formiga — aquela que se prepara, planeja e trabalha para evitar tragédias — parece cada vez mais rara na política ambiental. O problema é que não dá para tapar o Sol com a peneira, não tem como fazer de conta que as mudanças climáticas são apenas discursos, não fatos.
O meteorologista Piter Scheur tem chamado atenção para o superaquecimento do Oceano Pacífico equatorial. Ele diz que é um El Niño que vai chegar à categoria de Super-El Niño e que o auge será na primavera. Em vídeos postados em suas redes sociais, ele afirma que em sua carreira nunca viu um aquecimento tão anormal e intenso como está havendo. Conforme o meteorologista, este é o momento para alertar, mas alguns profissionais da área alegam que ainda é cedo para cravar a gravidade do que virá. Tornados, enchentes, deslizamentos de terra, quedas de barreiras.
“Comecem agora a fazer a limpeza de rios”, exemplifica. “Nunca vi um potencial energético desse. Vai ter tornados na região oeste da região sul do Brasil, vai ter enchentes, vai ter problemas associados a deslizamentos de terra, quedas de barreira. Estão esperando a ter um transtorno igual teve no Rio Grande do Sul de novo?”
De acordo com o profissional, pode ser pior do que aconteceu nos anos de 1983, 1997,1998, 2015, 2023 e 2024. As previsões indicam que os eventos climáticos irão começar no Rio Grande do Sul, depois Santa Catarina, Paraná e vão distribuindo-se com o auge na primavera.
A lembrança das enchentes históricas no Rio Grande do Sul ainda é recente demais para ser tratada como um acidente isolado. O planeta aquece, os oceanos acumulam energia, e os eventos extremos se tornam mais intensos. Ainda assim, seguimos agindo como se tudo fosse surpresa.
A população, por sua vez, também não está sendo suficientemente informada sobre o que precisa fazer. Fala-se muito sobre obras emergenciais depois das tragédias, porém pouco sobre prevenção cotidiana. Onde estão as campanhas permanentes ensinando famílias a montar planos de evacuação? Onde estão os alertas educativos sobre áreas de risco, descarte de lixo, drenagem urbana e armazenamento de água? Em muitas cidades, a Defesa Civil só aparece quando a água já entrou pela porta da frente. Falta comunicação ambiental clara, acessível e contínua.
Há ainda uma dimensão cruel nesse cenário: os mais pobres são sempre os primeiros atingidos. São eles que vivem próximo aos rios, em áreas vulneráveis ou sem infraestrutura adequada. Quando o clima entra em colapso, não existe igualdade social diante da enchente. Uns perdem móveis, outros perdem a vida. E enquanto comunidades inteiras tentam reconstruir suas casas, muitos gestores continuam presos ao ciclo político imediato, preocupados mais com a próxima eleição do que com o próximo evento climático extremo.
A velha fábula da formiga e da cigarra talvez nunca tenha sido tão atual. O Brasil precisa urgentemente decidir se continuará cantando enquanto o céu escurece ou se começará, finalmente, a preparar-se para um futuro climático cada vez mais instável. Sustentabilidade não pode ser slogan de campanha nem tema decorativo de conferência internacional. Sustentabilidade é planejamento, informação pública, prevenção e coragem política para agir antes da tragédia — e não somente depois dela.
Ah, sim, o último dia 5 foi Dia Mundial do Meio Ambiente, contudo nos outros 364 precisamos lembrar que o cuidado com a natureza é questão de sobrevivência de todas as espécies, principalmente da única que a destrói: a humana.
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