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A derrubada das seringueiras e o óleo de peroba

Seringueiras de trecho da Avenida Maranhão, em Cianorte, estão sendo eliminadas. Junto, uma parte da história do Município vai embora também.

5 min de leitura
A derrubada das seringueiras e o óleo de peroba
Seringueira que faz parte da história de Cianorte sendo destruída pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. No detalhe da imagem, o tronco estava cheio de brotos. Na imagem maior o mesmo tronco pronto para ser arrancado. Foto: Aida Franco de Lima e Ascom.

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

As ruas da cidade guardam memórias de infância, dos pioneiros, um saudosismo que vai acabando-se com o tempo. Imagine a famosa Avenida Pedro Basso, em Foz do Iguaçu, cujas árvores foram plantadas em 1977. Quantas memórias e histórias? Mas sempre haverá alguém para dizer: “As árvores estão muito velhas”; “Se até gente morre, imagine as árvores…”; “Depois que cair um galho em cima de alguém, vão reclamar na prefeitura.” E sempre existirá um gestor público que senta as nádegas na cadeira sem nem conhecer a cidade e decide seu futuro.

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Com a Avenida Pedro Basso, cujas árvores foram plantadas pelo já falecido Milton Rodrigues, não foi diferente. Antes de ser transformada em patrimônio cultural protegido por lei, muita gente teve a infeliz ideia fazer a motosserra agir. Tombar as árvores, literalmente.

Em Cianorte, uma avenida que tem a memória da cidade está sendo eliminada também. Mas lá, diferentemente de Foz, as árvores não foram compreendidas como patrimônio cultural. Ao contrário, são tidas como entraves pelas administrações que se sucedem. Árvores que ocupam o lugar dos estacionamentos. Simples assim.

Seringueiras que estavam na praça do cemitério também foram exterminadas. Foto: Redes sociais

As seringueiras, também conhecidas como falsas-seringueiras, que chegaram muito antes do progresso, estão sendo totalmente eliminadas. Várias delas estavam presentes em avenidas conhecidas, em parquinhos infantis e até mesmo em frente ao cemitério. Todas elas estão sendo eliminadas. E o motivo é sempre o “risco” à população. Inclusive em frente ao cemitério. Isso mesmo, você leu corretamente.

Mas vamos falar das seringueiras da Avenida Maranhão. Nesse local, há algumas décadas, final dos anos 1990, um trecho era tomado por cerca de uma dezena de árvores, as quais eram motivo de amor e ódio por muita gente. O sentimento de ódio era principalmente por parte de comerciantes e moradores do entorno, que em determinada época do ano recebiam visitantes nada agradáveis: as andorinhas. Sim, e elas também eram motivo de orgulho, de alegria, pois a população se encantava com o balé nos ares e o pouso simultâneo de milhares delas. A televisão, os jornais, mídias principais da época, noticiavam o acontecimento.

Local já foi rota das andorinhas e uma placa antiga relembra a história do local que está sendo apagada. Foto: Redes sociais

Porém, o que era espetáculo para uns era tragédia para outros, que no dia seguinte se deparavam com o odor dos excrementos de milhares de pássaros que pousavam por ali. O caminhão-pipa da prefeitura era acionado, e o ditado de que em fezes quanto mais se mexe é pior se concretizava. Até que o grosso das fezes fosse tirado, o ar pesava. Limpavam, limpavam, e no final da tarde o ciclo se repetia…

  • Com o passar dos anos, as andorinhas, diferentemente da música, não voltaram mais para aquele lugar. E as árvores começaram a receber uma outra visita, a da motosserra. Hoje, o trecho — que era uma espécie de túnel esverdeado — está sendo transformado em estacionamento. Havia o compromisso, nunca cumprido, de o local ser mantido com as mesmas características. Igual à frase “na volta a gente compra’’.

A penúltima árvore eliminada teve seu tronco deixado para trás. E nesse intervalo os brotos voltaram com grande força. Contudo, no feriado do dia 21 de abril, outro exemplar foi totalmente arrancado, com o tronco cortado rente ao chão, para impedir qualquer chance de renascimento. Aproveitaram e arrancaram também os brotos daquele tronco cuja destruição não foi totalmente completada. Decerto aproveitaram para homenagear Tiradentes, desta feita arrancando árvores! O plano era dar continuidade aos trabalhos na manhã de 29 de abril e havia até um funcionário orientando a não estacionarem no local. Entretanto, por algum motivo, a ação foi postergada. Talvez tenha sido o impacto do vídeo com 25 mil visualizações e a maioria de pessoas indignadas!

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Título ostentado nas redes sociais não condiz com a realidade da ruas. Foto: Redes sociais

A justificativa é sempre a mesma: estão velhas, doentes e colocam a população em risco. A mesma lógica que o ser humano só usa quando precisa livrar-se de algo, normalmente do outro lado indefeso.

Os mesmos que decidem pelo extermínio de árvores históricas, sem pensar em nenhuma alternativa para preservá-las, fazem o mesmo com nossos imóveis antigos, como as estações de trem, escolas rurais ou algo do gênero. Eles, em geral, ocupam cargos estratégicos.

Com salários robustos pagos com os impostos da população, costumam postar em suas redes sociais as viagens internacionais ao Velho Mundo.  Devem levar na bagagem bastante óleo de peroba, porque é muita cara de pau destruir nossa memória e vangloriar-se da cultura alheia, que só foi preservada porque os gestores de lá não agem com o pensamento dos mesmos daqui.

Ah, sobre as andorinhas, nesta estação estão de volta em Cianorte. Porém, cada agrupamento se desloca para pontos diferentes da cidade. Até parece que estão dando o troco. Se antes a sujeira das fezes era em um local só, agora está espalhada por vários pontos. Parece que estão dando um recado: “Se querem acabar com as aves, acabem também com todas as árvores, inclusive com as que protegem seus carros.”

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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