Aida Franco de Lima
A fábula da galinha dos ovos de ouro conta a história de um homem avarento que não se contenta com uma galinha botando apenas um ovo de ouro por dia, então ele a mata em busca de um tesouro grandioso de uma vez só. Assim, ele perde a fonte de sua riqueza.
Agora, vamos trazer isso para os dias atuais. Vamos supor que exista um país chamado Brasilândia, em que uma parte dele era usada para fazer plantio e criar gado. E do outro lado, florestas que garantiam estabilidade climática para proteger a lavoura, animais e, claro, o restante da população.
Então, os fazendeiros gananciosos se juntaram com políticos corruptos e resolveram derrubar as leis que protegiam as florestas. Da noite para o dia, eles aumentaram a área de plantio e criação de gado, mas aos poucos começaram a perceber tudo em excesso: sol, chuva, vento, fogo, frio, calor… A floresta que eles tinham como inimiga, na verdade, era sua aliada. E mais. Os países que compravam os produtos passaram a comprar de outros produtores, que conservavam suas áreas verdes, seus rios, inclusive os rios voadores, e seus tesouros naturais. É isso que estamos presenciando.
A semana de 18 a 22 de maio de 2026 é daquela que a bancada ruralista riu enquanto o meio ambiente, mais uma vez, era atropelado pelo rolo compressor. Chamada de Semana do Agro pelos políticos que defendem os ruralistas, eles serviram aos interessados um cardápio em que as regras ambientais viraram pó e mato queimado.
Entre os que lideraram tal iniciativa está o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), e o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Entre as medidas aprovadas, o embargo e outras medidas cautelares que os órgãos fiscalizadores cumprem, com o uso de imagens de satélite que comprovam alteração na vegetação. Isso impede ações que possam cessar o dano de forma imediata. Noventa por cento dos desmatamentos são identificados por imagens remotas. Ao botar barreiras nesse procedimento, abre-se a porteira para facilitar a continuidade dos danos. Além do mais, expõe os poucos agentes públicos de fiscalização a ciladas e emboscadas.
Também liberam geral para que áreas que não tenham vegetações nativas não florestais sejam convertidas para o uso alternativo do solo, como agricultura, pastagens plantadas e mineração. Desse modo, o Projeto de Lei 364/2019 pode deixar desprotegidos cerca de 48 milhões de hectares de campos nativos em todo o Brasil, incluindo 50% do Pantanal e 32% do Pampa. É como se essas áreas não tivessem função biológica e pudessem ser tomadas e impactadas com a exploração da terra e domínio de agroquímicos.
Parece mesmo que a FPA está nadando contra a corrente e não tem preocupação nem mesmo com o El Niño que vem pela frente e está diretamente relacionado com a devastação ambiental que toma conta do planeta. A mesma bancada dá as costas também ao comércio internacional que usa o poderio econômico para exigir que os produtos exportados comprovem desmatamento zero, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.
Na propaganda se diz que o agro é pop, que o agro é tech. Não fala que o mesmo agro está engolindo aquilo que o protege. Não fala que a lavoura depende do clima. Que o clima depende da floresta viva. Se de terra tombada o agro entende, deveria lembrar que rasgar as leis ambientais é cavar não apenas a própria cova, mas também das futuras gerações.
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