Não viajar por causa dos animais. Até quando?

Famílias optam por não viajar, por conta do transtorno dos fogos para animais de estimação.

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Aida Franco de Lima – OPINIÃO

“Eu viajo no Natal, mas volto para  o Ano Novo por causa dos meus cachorros”, contou uma amiga. Ela não está só. Nesta jornada de festas de Natal e Ano Novo, muita gente prefere a companhia dos animais. Não que sejam antissociais, mas é que sabem do sofrimento deles  por causa dos fogos. Na verdade, as famílias deixam de viajar, não por causa dos animais, mas por conta dos irresponsáveis que os colocam em risco, desrespeitando a lei, provocando ruído ensurdecedor.

Já escrevi a respeito inúmeras vezes sobre as consequências negativas dos fogos com estampido. E precisamos lembrar também das pessoas que mudam suas rotas por causa dos animais de estimação, para amenizar o sofrimento, causado por aqueles que insistem em soltar fogos barulhentos.

Enquanto uns abandonam  nas ruas ou deixam agonizando nos quintais, outras  fazem o caminho inverso. Acolhem até mesmo os que não estão sob suas responsabilidades, pois é muito comum na noite da virada animais surgirem desesperados, assustados pelos estrondos.

Outro dia vi um padre na televisão criticando as pessoas que amam os animais e os tratam como integrantes da família. Disse que deviam adotar criança, em vez de animais. E falou  ainda que um dia vai até a África para adotar uma criança. Que pecado!

Primeiro que uma pessoa que adota um animal, necessariamente não tem condições de adotar uma criança. Segundo, que ninguém pode induzir a uma adoção, seja de criança ou animal. E terceiro, se a pessoa realmente quer fazer o bem a uma criança e a si mesma, nem precisa ir adotar na África, não é mesmo?

O fato é que muitas famílias consideram sim os animais parte integrante e não conseguem se divertir, sabendo que estarão sozinhos durante os foguetórios.

Enquanto a legislação não muda, assim como a cultura do brasileiro, as famílias fazem o que podem. Não viajam, se viajam voltam antes da virada, dão tranquilizantes para os animais, trançam faixas de tecido nos corpos deles, aumentam o volume da música, colocam algodão no ouvido, os abraçam. Mas e aqueles que estão nos canis, nas ruas, internados, perdidos ou sozinhos nos quintais? E os silvestres? Eles que lutem.

Não deveria ser aceitável que as famílias tenham que interromper suas viagens, porque a festa do outro é mais barulhenta.

Há algumas décadas, qualquer tentativa de discutir alguma benfeitoria para os animais, era muito criticada. Havia quem sempre usasse o argumento na linha do padre lá em cima: “tanta criança passando fome e você preocupada com animais?”. Felizmente, aos poucos, isso tem passado e os animais conquistado um pouco mais de respeito. Mas ainda assim, muita gente pode achar exagero trocar uma viagem para ficar em casa com eles. Mas, também, ao mesmo tempo naturalizar que soltar fogos é algo aceitável. Isso que nem citei sobre as pessoas que sofrem com o excesso de ruído também.

Para mudar essa situação, que não é exclusiva do Brasil, as pessoas precisam se unir e lutar por políticas públicas. Como por exemplo, acompanhar o Projeto de Lei que está no Senado, que proíbe a venda de fogos com estampidos.

Além do mais, precisam fazer um compromisso de acompanhar o que a câmara dos vereadores e prefeitura de suas cidades andam fazendo em prol dos animais. Assim como o seu estado e o Poder Executivo Federal.

Em dezembro foi votado o orçamento de todos os estados e cidades. Quanto será que foi destinado para os animais, o meio ambiente? Quem a gente aciona, quando o vizinho insiste em soltar fogos, mesmo sendo proibido? Normalmente a gente fica sem resposta.

O ano de 2024 é ano de eleição e é preciso estarmos atentos a quem realmente tem propostas para a causa dos animais e ambiental ou apenas se aproveita dos temas. Percebam como há bancadas para defender armas, defender agrotóxicos, defender direitos dos mais abastados… E a bancada dos animais? Quem realmente legisla a seu favor?

Se você deseja viajar com sossego nos próximos anos, com a certeza de que os ruídos serão apenas da confraternização entre as pessoas e uma música mais animada, precisa agir agora. Todo ano tudo se repete. Compartilhamos postagens nas redes sociais para que não soltem fogos, depois os pedidos de socorro e o ciclo se repete. Precisamos de mobilização para mudar esse enredo, para que as rotas das viagens e festas sejam possíveis a quem tem ou não um bichinho de estimação, que sente nos tímpanos o que é a tal ‘civilização’.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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