Lixo é dinheiro

Lixo reciclável ainda vai para os aterros, junto do lixo inservível. Foto: Divulgação
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Aida Franco de Lima – ARTIGO

É incompreensível o modo como em pleno ano de 2022 o lixo é tratado pela sociedade e governantes. Não é necessário pensar em reinventar a roda, mas é tudo tão óbvio que parece estranho. Mas lixo é dinheiro sim!

Você já deve ter reparado que na sua cidade há uma legião de pessoas recolhendo material reciclável pelas ruas. Organizados em cooperativa ou isoladamente, muita gente viu no lixo a alternativa para geração de renda, diante da escassez de emprego. Na rua da minha casa sempre observo que nos dia de coleta seletiva, antes do caminhão já passaram os coletores autônomos.

Mas e por qual motivo os governantes ainda não perceberam isso?

Os contratos das prefeituras com as empresas terceirizadas pagos pela quantidade de toneladas arrecadadas são uma boa prova de que estamos desperdiçando dinheiro público. Pagamos para que as empresas coletem materiais, que na verdade são disputados por quem vive na economia informal.Mesma economia informal que ajuda na indústria de reciclagem, que ao reaproveitar os resíduos, diminuiu o impacto ambiental desse lixo que contamina o meio ambiente e da exploração em busca de matéria-prima.

Identificar e separar o lixo reciclável deve ser tarefa de toda a sociedade
É essencial conhecer e dar o destino correto aos materiais recicláveis. Foto: Divulgação

Se colocássemos na ponta do lápis e respondêssemos: quanto custa uma embalagem jogada em local inadequado, que acumula água e que beneficia o mosquito transmissor da dengue? Quanto custa o lixo que obstrui as galerias pluviais, alaga as ruas e pior as enchentes? Quanto pagamos pelo lixo que polui o lençol freático, polui as águas e mata a fauna que vive naquele ambiente? Qual é o investimento para manter a limpeza urbana?

Uma vez vi um caso em uma cidade do Paraná em que a empresa transportava o lixo para o aterro sanitário e no meio do caminho as sacolas plásticas voavam. E paravam na beira da cerca, e o gado acabava ingerindo, provocando sérios problemas. Sofrem os animais e dói no bolso do fazendeiro.

Já reparou na quantidade de lixo que você produz semanalmente e o que de fato não pode ser reaproveitado? Na residência de uma família comum, o lixo orgânico poderia ir para a horta e a sobra de alimentos saciar a fome do caramelo que tem lá na rua. Sim, toda rua ou quadra tem um cão caramelo em busca de comida; o lixo seco, maior parte é reutilizável ou reciclável. Sobra lixo de banheiro, que é uma fração mínima, se comparado ao todo.

Claro, nesse meio aí há uma fração que não vai para a reciclagem porque não há tecnologia ou investimentos para tanto, como no caso do isopor, que ainda não é reciclado em grandes proporções. Mas não é todo dia que você pinta uma casa, quebra um espelho ou uma louça, que são exemplos de produtos que não são reciclados.

A raiz do problema do lixo está em vê-lo como algo valioso. Se assim fizessem os governantes, estimulando as pessoas a além de separarem o lixo das residências, também darem destino adequado ao lixo da balada, ao lixo que é produzido durante o trajeto cotidiano à escola, trabalho, compras, etc, teríamos outras cidades.

Se os governantes se preocupassem em fazer com que as cidades fossem cada vez mais limpas e as pessoa cada vez mais participativas, poderiam fazer campanhas, estimular a comunidade a trocar o que hoje temos como lixo por cupons que poderiam ser usados como moeda de troca no comércio local.

Nesse conceito nasceu, em 1989 Curitiba lançou o Programa Lixo Que Não É Lixo, com repercussão internacional, que de certo modo interferiu positivamente na formação de uma cultura para a importância da coleta seletiva. Mas ainda insuficiente, visto que mesmo com todo o marketing, 25% do que chega ao aterro sanitário de Curitiba poderia ser reciclado. Precisamos de mais. Mais estímulo governamental, mais engajamento da sociedade civil.

Na situação econômica atual, trocar lixo por cupons, por vales, qualquer coisa que remeta a um retorno financeiro, é uma jogada de mestre. Salvaríamos dois coelhos de uma cajadada só. Teríamos menos lixo nas ruas, mais resíduos indo para as indústrias. Lixo é dinheiro sim. Só precisamos decidir se é dinheiro que vai pro bolso ou pro ralo.

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Aida Franco de Lima

Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo da autora.

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