Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Era o ano de 2001. O bispo evangélico JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, publicava o livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva. Entre críticas à devoção católica a Maria, um ponto chama especialmente a atenção 25 anos depois: Carvalho questionava a lei que reconhece Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, classificava como ilegal o feriado de 12 de outubro e defendia uma mobilização de cristãos e parlamentares para mudar essa condição. Em uma passagem, escreveu que estava na hora de “destronarmos a Rainha em nossa nação”; ao final, conclamou deputados e senadores a se manifestarem. Guarde bem o nome do livro e, principalmente, de seu autor.
Corta para 2007. Em 12 de dezembro, o deputado federal Professor Victorio Galli apresentou o PL 2.623/2007, que queria substituir na legislação “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta tramitou, recebeu parecer pela rejeição, aprovado pela Comissão de Educação e Cultura, e foi arquivada em 22 de agosto de 2008. Aquele projeto terminou ali; a ideia, porém, pode retornar por meio de uma nova proposição. Galli também não desapareceu da política: tornou-se assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro e, em 2026, voltou a disputar uma cadeira de deputado federal. A bancada evangélica na Câmara contava então com 39 deputados em um universo de 513.
Agora estamos em 2026. Das 513 cadeiras de deputado, 209 parlamentares integram a bancada evangélica com mais 26 senadores, de um total de 81. E se lembra de JB Carvalho, autor de A Bomba? Ele reaparece nesta história. Carvalho fundou a Comunidade das Nações, igreja frequentada por Flávio Bolsonaro e onde ele e a esposa foram batizados em 2024. Em visitas a Jair Bolsonaro, então preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, livros de JB Carvalho chegaram não em sacolas ou bolsas, e sim nas mãos e diante das câmeras, exibidos por Flávio e Michelle Bolsonaro. Não era A Bomba, é importante deixar claro. Mas era o mesmo autor. Na comunicação política existe a expressão “apito de cachorro”, usada para mensagens aparentemente comuns, porém que podem carregar outro significado para determinado público.
A religião já estava na política. Sempre esteve, de modo explícito ou mais subliminar. Em 23 de agosto, Flávio afirmou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Em 16 de setembro, em Juazeiro do Norte, escreveu que, a partir de janeiro de 2027, iria “consagrar e entregar a nação brasileira nas mãos de Deus”. E a Igreja Católica também falava — à sua maneira.
Minha mãe assiste praticamente a três canais: TV Aparecida, Rede Vida e Canção Nova. Nessa ordem. Aqui em casa até brincamos chamando de “TV Cida”. Quem acompanha percebe: nas missas não se pede voto para Beltrano ou Sicrano, contudo se fala da importância do voto, da democracia, dos pobres, da justiça e do bem comum. No 7 de Setembro, dom Orlando Brandes falou do altar do Santuário Nacional sobre eleições, consciência e soberania: “Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, não deve mandar aqui.” No mesmo dia, a CNBB defendeu um Brasil “livre e soberano, democrático, justo e fraterno” e alertou contra a instrumentalização da fé. Bispos da Amazônia também foram às redes defender democracia, soberania e proteção dos povos tradicionais e advertir contra igrejas transformadas em “currais eleitorais”. Não estavam indicando candidato. Estavam falando do voto. Para quem acompanha as entrelinhas, havia, sim, uma Igreja em movimento.
Eis que chegamos a 24 de setembro. No Em Pauta, da GloboNews, a jornalista Maria Cristina Fernandes disse que havia “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” que estaria mobilizando-se para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil. Falou também que isso poderia produzir repercussões eleitorais entre os católicos. Ela não afirmou que o projeto fosse de Flávio Bolsonaro.
Nas redes, porém, a história acabou associada ao candidato. A GloboNews corrigiu a informação sobre a existência de um projeto atual, recordou o PL de Victorio Galli, de 2007, e pediu desculpas. Flávio negou pretender retirar o título. Entretanto, Maria Cristina mencionou uma movimentação dentro da Igreja Católica. E sinais públicos de mobilização católica em torno das eleições, da soberania e do uso político da religião já estavam diante de todos.
A partir daí, Nossa Senhora Aparecida entrou definitivamente na campanha presidencial. A pedido de Flávio, o ministro André Mendonça, do TSE, que, segundo Jair Bolsonaro, é “terrivelmente evangélico”, determinou a retirada de publicações que atribuíam ao candidato a intenção de acabar com o título e proibiu conteúdos semelhantes; a campanha pediu a remoção de mais de 1.500 postagens. Depois, Flávio Dino, do STF, determinou a restauração de parte do conteúdo, considerando que a decisão poderia atingir as liberdades de expressão e religiosa.
No último domingo, 28, Flávio acusou, sem apresentar provas, pessoas de dentro da CNBB de terem ajudado a espalhar a história. A entidade respondeu: “A mentira não se combate com outra mentira.” E até Ronaldo Caiado, da ala direita dos candidatos, entrou na discussão, defendendo publicamente Nossa Senhora Aparecida e cobrando de Flávio respeito “às religiões e à fé do povo”.
A jornalista Maria Cristina Fernandes entrou (ou foi jogada) na cova dos leões. Como Daniel, personagem bíblico condenado à cova depois de uma disputa em que fé e poder se misturaram. Se sairá de lá ilesa, os próximos capítulos dirão. Mas Nossa Senhora Aparecida já conseguiu um pequeno milagre político: unir católicos, pessoas de outras religiões e até ateus em torno do mesmo debate. Até quem não acredita em milagres acabou encontrando espaço debaixo do manto da padroeira.
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